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      Início Parágrafo Parágrafo #77 O mundo de onde acabei de sair

      O mundo de onde acabei de sair

      Tenho ainda na cabeça, às voltas, a última frase de um romance que acabei de ler. Há poucos anos, havia um screensaver muito popular, no qual algumas palavras com diversos tamanhos e cores iam desfilando em pontos aleatórios do ecrã. Neste momento, é mais ou menos dessa maneira que a última frase do romance que acabei de ler está na minha cabeça. Por baixo destas palavras que escrevo, estão essas. Como se as palavras deste texto, organizadas por linhas, fossem uma espécie de grades e, lá por baixo, eu ainda visse as outras.

      Comecei a ler esse romance há cerca de duas semanas. Paralelo aos meus dias, havia o ritmo daquela leitura. A narrativa da minha vida, com as suas revelações, continuidades, desenlaces e, em paralelo, aquela narrativa, a sua sequência. Dia após dia, página após página.

      Agora, em retrospectiva, consigo recordar-me de vários momentos nesse percurso. No início, quando começava a conhecer as personagens, passeava-me pelos primeiros capítulos como se levasse as mãos nos bolsos, olhando em volta, admirando-me com quase tudo. Depois, momentos de ânimo ou de desânimo, vontade de saber o que ia acontecer em seguida ou vontade de desistir. E após dois ou três dias em que não encontrei tempo para ler, a voltar à leitura, a estranhá-la durante algumas páginas, mas depois a avançar, como um carro de motor hesitante que começa a desenvolver, ou como o enxerto no ramo de uma laranjeira que pega, por fim. E as últimas cem páginas, onde já regressava a um lugar conhecido, reencontrando rostos familiares.

      Estou ainda demasiado perto. Aproximo-me dessa última frase, como se firmasse os cotovelos num parapeito, e sou capaz de olhar lá para dentro e ver todo o mundo que ali fica. Lá de dentro, as personagens fixam-me com os seus olhinhos e com as suas ilusões. Estão suspensas naquele tempo que visitei e que agora será arrumado numa prateleira.

      Quando estiver à procura de um livro e passar por este romance, terei algumas recordações, mas serão diferentes destas que agora estão paradas diante dos meus olhos. Terei esquecido aquilo que agora me enche. A minha relação com este romance será distante. No fundo, a relação da pessoa que serei no futuro também será distante da pessoa que sou agora. Aquele que eu era há dez anos, que encontrava espaço para os livros que eu lia há dez anos, era muito diferente de mim. Às vezes, olho para ele, lembro-me dele, e mal me reconheço.

      Este é o momento de uma despedida. Nunca mais voltarei a experimentar o tempo que vivi naquele romance, com aquelas personagens. Posso voltar a lê-lo mas, se o fizer, não haverá o mesmo sentimento de descoberta ou, se o reler daqui a muito tempo, quando já tiver poucas lembranças da sua primeira leitura, é provável que uma parte da memória regresse ajudada pelas palavras e, assim, salpique essa leitura futura. Mas, mais provável ainda, é que eu já seja outro e, por isso, não consiga encontrar o significado que acabei agora de ler.

      As palavras impressas tentam resistir ao tempo. São levadas através dos anos através da tinta no papel e, mais ainda, pelas leituras. Ao ler cada palavra, frase, parágrafo, se estivermos suficientemente atentos, se estivermos realmente a ler, estamos a dar vida a cada uma daquelas ideias, daquelas impressões impressas, daqueles factos. Essa é a vida mais efectiva a que podem aspirar. Durante esse presente, como agora, aqui, essas palavras podem dizer: estamos vivas, podem respirar a profunda liberdade desse momento. Mas, logo a seguir, chega a mitificação que o passado sempre exerce, as falhas da memória. O livro que realmente lemos passa a ser o que somos capazes de recordar, com todas as distorções de que os sentimentos são capazes. Os livros são mundos secretos. Estão à nossa volta mas, com frequência, não os vemos. Habitam outro tempo, regem-se por outras regras mas, é certo, dentro deles também é possível viver.

      Agora, este é já o texto de onde terás acabado de sair. Falta pouco. Na próxima hora, talvez te lembres de que trocámos estas palavras. A erosão será bastante rápida e, no entanto, não deixará de valer a pena o encontro que aqui tivemos. Agradeço-te por isso. Desejo-te sorte no esquecimento que aí vem.