Edição do dia

Quarta-feira, 5 de Outubro, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu pouco nublado
29.9 ° C
31.9 °
29.9 °
79 %
6.7kmh
20 %
Qua
30 °
Qui
29 °
Sex
29 °
Sáb
28 °
Dom
28 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Entrevista "Não há razão para não conseguirmos chegar ao nível em que estávamos...

      “Não há razão para não conseguirmos chegar ao nível em que estávamos antes da Covid-19”

      Glenn McCartney está optimista quanto ao futuro do turismo e do sector do jogo em Macau. Para o professor de Gestão Integrada de Turismo e Hotelaria da Universidade de Macau (UM), “não há razão para não conseguirmos chegar ao nível em que estávamos antes da Covid-19”. Em entrevista ao PONTO FINAL, o especialista do sector do jogo e turismo assegura que Macau continua a ser apetecível para os casinos, mas há que estar atento aos outros mercados da região.

       

      “Não podemos subestimar o apelo de Macau”, afirma Glenn McCartney quando questionado sobre o interesse das operadoras de jogo no território. Em entrevista ao PONTO FINAL, o professor de Gestão Integrada de Turismo e Hotelaria da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau (UM) diz-se confiante de que o sector do jogo e do turismo vão recuperar para os níveis pré-pandemia. “Não há razão para não conseguirmos chegar ao nível em que estávamos antes da Covid-19, o mercado não desapareceu, aliás, está a crescer”, nota McCartney. O especialista na área diz também que Macau deve aproveitar esta altura em que o turismo ainda está a meio-gás para “repensar e relançar” estratégias para atrair mais visitantes.

       

       

      Decorre agora o concurso público para as concessões das licenças de jogo. Qual é a sua expectativa? Vão manter-se as mesmas operadoras?

      Não espero que haja grandes mudanças. Há sempre uma pequena hipótese de haver alguma surpresa, mas não acredito que haja grandes mudanças. Não posso dizer isto com 100% de certeza, mas as seis operadoras vão estar muito interessadas em manter as suas concessões de jogo dado o investimento que fizeram. Por isso, acredito que em 2023 tudo continuará como até aqui.

       

      O Governo quer reforçar o segmento não-jogo. Das seis operadoras, qual é a que tem feito mais nesta parte?

      Nos últimos 20 anos, todas fizeram apostas no sector não-jogo. É muito difícil dizer qual das operadoras fez mais neste âmbito, vemos que todas fizeram apostas no sector não-jogo. Por exemplo, a Sands China construiu um centro de convenções, a Cotai Arena, salas de espectáculos, por aí fora. Fez um grande investimento no segmento não-jogo. A Galaxy também, com várias infraestruturas, com centros comerciais. A Melco também, com o Studio City, com o House of Dancing Water. Todas as seis operadoras têm tido um bom desenvolvimento ao nível do não-jogo. A SJM também tem realizado várias iniciativas de desenvolvimento cultural. Cada uma fez bastante neste sentido, cada uma desenvolveu o seu nicho de mercado.

       

      Não há nenhuma que se tenha destacado?

      Se olharmos para a indústria do MICE, a Sands está à frente, porque fez o maior investimento nessa área em particular. Todas as seis fizeram a sua parte.

       

      O objectivo é diversificar a economia de Macau. Até que ponto é que as operadoras vão conseguir fazê-lo no futuro?

      Este é um concurso público internacional e há muitas grandes empresas em todo o mundo que estão interessadas nele. É importante lembrarmo-nos de que há muita coisa a acontecer na Ásia actualmente, é um mercado muito importante para os ‘resorts’ integrados. Há Singapura, Filipinas, Vietname. Não podemos subestimar o apelo de Macau. Muitos consórcios internacionais estão a olhar para Macau. O Governo elaborou uma lista para o concurso em que pede às operadoras para diversificarem a economia. Nos últimos 20 anos, ficámos cada vez mais dependentes da indústria do jogo, 80% das receitas governamentais provêm dos impostos sobre o jogo e antes da transferência de soberania era apenas 40 ou 50%. Ao longo dos anos, o Governo tem dito que quer desenvolver o segmento não-jogo e a indústria do MICE [reuniões, incentivos, conferências e exposições]. Esta é a altura de reiniciar, repensar e relançar. A Covid-19 deu tempo aos destinos turísticos para reflectirem sobre aquilo que fizeram bem, aquilo que não fizeram tão bem e o que querem fazer no futuro, para que quando tudo reabrisse houvesse um rejuvenescimento. Esta é uma janela de oportunidade que Macau também tem para que isso aconteça. É importante que as autoridades turísticas pensem naquilo que querem, naquilo que não querem, o que está a funcionar, etc, para que o turismo continue a crescer e a ser apelativo aos visitantes. É normal que haja essa lista de obrigações para as operadoras, é bom que seja imputado às operadoras esse compromisso.

       

      Mas são objectivos alcançáveis?

      Isto são tácticas e não estratégias. Não tenho dúvidas de que as seis operadoras têm pessoas muito talentosas, mas o problema é que não temos recursos infinitos. Por exemplo, na gastronomia, é muito importante esse posicionamento. Muitas cidades do mundo focam-se na comida. Para que Macau se destaque, é preciso que a gastronomia seja apelativa. É preciso que quando se fale em Macau as pessoas pensem na gastronomia. A comida macaense, ao longo dos anos, tem sido um ponto muito distintivo. No entanto, para que funcione, são precisos ‘chefs’, menus, produtos, restaurantes, formação de jovens, etc. Todas essas coisas têm de estar ligadas. Para que a gastronomia funcione em Macau, temos de abordá-la com estratégia.

       

      Mas terá Macau as infraestruturas e recursos humanos necessários para colocar a gastronomia, por exemplo, como base da economia?

      É possível. Mas é preciso criar estratégias, é preciso dar recursos para a formação de profissionais, documentar as receitas macaenses antigas, por exemplo. Em 2006 fiz uma investigação e fui a vários aeroportos da região e perguntei às pessoas o que achavam de Macau e o que é que as podia levar a Macau, entrevistei centenas de pessoas nos aeroportos de Pequim, Xangai, etc. Este tipo de inquérito é muito importante porque ficamos a saber qual é o factor que faz com que as pessoas queiram vir a Macau. É preciso criar uma marca para a cidade. Pode ser a gastronomia, mas cada cidade tem o seu posicionamento estratégico.

       

      Disse há pouco que não podemos subestimar o apelo de Macau para as empresas de jogo internacionais. Mas não haverá agora menos interesse devido às restrições pandémicas e à queda nas receitas do sector?

      Também tenho feito investigação sobre Covid-19 e percebo que esta é uma crise sanitária. É um vírus, é imprevisível. Agora temos uma política de tolerância zero e todos os meses tentamos fazer previsões sobre a recuperação do turismo. As pessoas perguntam-me constantemente quando é que Macau vai recuperar e eu posso dizer que é no quatro trimestre deste ano ou primeiro trimestre de 2023. Mas é muito difícil de prever, porque não sabemos o curso da política face à Covid-19, não sabemos a evolução da taxa de vacinação, etc. A reabertura da aviação, dos aeroportos, das passagens fronteiriças, tudo isso está dependente da política e de como o vírus se espalha.

       

      Os visitantes continuam interessados em vir a Macau?

      Sim. Os empreendimentos de Hengqin são muito importantes para Macau, em termos de capacidade hoteleira e infraestruturas. Há desafios, mas creio que Hengqin irá alterar o panorama quando Macau recuperar na totalidade. Vejo o turismo por fases e as licenças de jogo servem para consubstanciar a visão a longo prazo. As operadoras olham para o futuro a longo prazo. Têm dois anos e meio de perdas, mas pensam no futuro a médio e longo prazo. Leva tempo até que as coisas melhorem, até que as restrições nas fronteiras fiquem mais flexíveis, até que os visitantes comecem a regressar. Estas propriedades implicam muito dinheiro, são projectos enormes de investimento de capital, por isso têm de olhar para o futuro.

       

      O Governo quer que as operadoras consigam atrair mais jogadores do estrangeiro, no entanto, continua a haver fortes restrições nas fronteiras. Como é que as concessionárias poderão fazer isso?

      A médio prazo, o desenvolvimento tem de ser regional. Historicamente, os visitantes internacionais são residuais. Não podemos ligar o interruptor e de repente ter visitantes do estrangeiro, isso leva tempo. Ao longo dos anos fiz pesquisas em eventos, como o Grande Prémio e alguns dos festivais culturais, e perguntei às pessoas por que estavam ali, pode também fazer-se estudos de impacto económico. Se queremos atrair o mercado indiano, tailandês, sul coreano ou japonês, temos de realizar esse tipo de pesquisa.

       

      Macau não está a fazer esse tipo de análise?

      Acho que podemos fazer mais. Essa base de informação pode ser muito útil. Não são apenas exercícios académicos, têm aplicação prática. Temos de apostar nos mercados que compreendemos e em que sabemos o que é que as pessoas pensam sobre Macau. A criação de uma marca tem de ser sempre a prioridade quando se promove uma cidade. Isso faz-se com colaboração entre instituições privadas e públicas. Tem de ser uma mensagem consolidada. Neste processo do concurso para as concessões de jogo tem de haver uma abordagem ao turismo em que todos colaboram. Outra coisa muito importante são as infraestruturas. Temos de olhar para companhias aéreas, transportes, capacidade, por aí. No aeroporto de Hong Kong pode-se passar a mensagem de que, com a nova ponte, Macau está a apenas 45 minutos de distância, porque as pessoas pensam: “Eu quero ir, mas como?”.

       

      Voltando àquela aparente contradição de o Governo querer visitantes estrangeiros mas ter ainda fortes restrições nas fronteiras, acha que a partir de Janeiro, quando as novas operadoras iniciarem funções, o Executivo vai relaxar as restrições?

      A política de tolerância zero ainda está em vigor e, por isso, as restrições mantêm-se.

       

      Mas não será abandonada essa política de tolerância zero?

      Cabe ao Governo decidir. Temos de ser guiados pelos profissionais de saúde, têm de ser eles a dizer o que é melhor. Falei muitas vezes da importância da vacinação, porque parecia ser essa a chave para as cidades reabrirem.

       

      Em Macau não, aparentemente.

      A vacina continua a ser um dos factores.

       

      Estamos agora com mais de 91% de taxa de vacinação.

      É uma taxa muito alta, mas é o Governo que decide. A política não deverá mudar devido ao concurso público. Todos nós esperamos poder ter algum relaxamento das medidas, porque já vamos para três anos. Isso também tem afectado a marca de Macau, porque a cidade está fechada há três anos enquanto todas as outras já estão abertas. Temos de manter o público interessado. Se queremos esses visitantes, temos de continuar a promover Macau, mesmo em alturas em que não temos acesso a esses mercados.

       

      Macau está a fazer isso?

      Está a fazer algum tipo de promoção, mas há que fazer mais. É muito importante para que os visitantes mantenham o interesse. Portugal também o fez, o ‘marketing’ continuou apesar do confinamento.

       

      O sector do jogo de Macau vai ser capaz de competir com outros mercados internacionais?

      Las Vegas está numa posição de liderança, apesar da competição enorme. Eles usaram os produtos não-jogo para se reinventarem de forma distintiva, é uma referência no MICE. Las Vegas oferece muito no não-jogo. Os tempos mudaram. Singapura disse que ia desenvolver ainda mais os seus ‘resorts’ integrados, o Vietname também, as Filipinas têm crescido também. Não há dúvida de que a competição na Ásia mudou desde a Covid.

       

      Macau conseguirá acompanhar os tempos?

      Temos de ver que estivemos em confinamento quase três anos e vamos ter de avançar em força.

       

      Podemos dizer que estamos três anos atrasados em relação aos outros mercados?

      Nós temos um produto fantástico no Cotai, não há dúvida. O Londoner, a Galaxy cresceu, a SJM abriu propriedades. Todas as operadoras têm investido e não há dúvida de que o Cotai se destaca. Os nossos produtos de lazer são excelentes, por isso temos de promovê-los.

       

      Como é que a indústria do jogo de Macau poderá sobreviver às medidas de controlo de fluxo de capitais e à repressão à promoção do jogo no interior da China?

      A China vai continuar a ser o nosso maior mercado. Eu estive há pouco na China, num ‘resort’ enorme que estava cheio e ali não há casinos.

       

      Então é possível os ‘resorts’ em Macau sobreviverem sem os casinos?

      Não, mas os casinos são uma parte muito importante dos produtos dos ‘resorts’. Esses ‘resorts’ do interior da China não têm o que Macau tem ao nível do não-jogo. Essas coisas serão muito importantes no futuro.

       

      Macau vai conseguir recuperar para níveis semelhantes aos de 2019? Quando?

      Não há razão para não conseguirmos chegar ao nível em que estávamos antes da Covid-19, o mercado não desapareceu, aliás, está a crescer. O turismo doméstico está a crescer. O mercado chinês tem crescido em relação ao período pré-pandemia. Mas eu não gosto de fazer previsões, há demasiadas variáveis.