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      Existir e perguntar

       

      A pergunta mais profunda que todos os textos colocam é: quem sou eu? Esta ideia aplica-se a todos os textos da história da literatura e, também, a todos os textos de qualquer outro âmbito já existentes ou por existir, desde que tenham a ambição de colocar alguma pergunta ou alcançar alguma resposta. Alguns exemplos aleatórios: uma antologia de poesia hermética coloca esta pergunta, um manual de mecânica coloca esta pergunta, um dicionário coloca esta pergunta. O motivo para afirmação tão cabal tem a ver com o facto de essa ser a mais profunda pergunta que o ser humano consegue colocar e, por isso, todas as outras serem derivações dela. Qualquer pergunta que seja feita com o intuito de entender o mundo é, numa dimensão mais ampla, feita com o intuito de nos tentarmos entender a nós próprios.

      Temos existência própria e, no entanto, existimos no mundo. Existimos porque existe o mundo ou, a partir da mesma certeza, o mundo existe porque existimos. «E o meu coração é um pouco maior do que o universo inteiro», escreveu Álvaro de Campos. Nos dois versos que antecedem esse, escreveu também: «Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo./Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.» Por sua vez, no Livro do Desassossego, escreveu Bernardo Soares: «O universo não é meu: sou eu.»

      Na obra de Fernando Pessoa, em nome próprio ou dos seus heterónimos, são muitos os momentos em que se aborda directamente o tema do eu. Ao fazê-lo, são também muitas as ocasiões em que convoca reflexões sobre o mundo, o universo e o outro. Nestes casos, o mundo, o universo e o outro são sinónimos, pois existem em contraste com o eu. Aquilo que se explora nesses raciocínios é o paradoxo entre um eu que se distingue do mundo, do universo e do outro, mas que, ao mesmo tempo, se mistura e depende do mundo, do universo e do outro.

      Este paradoxo e ambiguidade são ainda mais vincados se considerarmos que o próprio autor, através da heteronímia, se afirma eu e outro em simultâneo. Na obra de Pessoa, a questão identitária é fundamental, repete verso após verso: quem sou eu? Aliás, quando refere o seu coração, dá vontade de perguntar: em que peito bateria o coração de Álvaro de Campos?

      Quem sou eu? Esta pergunta está presente em todas as perguntas.

      Nascemos sem respostas. À medida que tomamos alguma consciência, vamos formando ideias imperfeitas, incompletas, compomos tentativas de interpretação do que nos rodeia. Mas tudo muda rapidamente, começando por nós. A infância é uma experiência que analisaremos durante toda a vida e, mesmo assim, com certezas muito vagas. A adolescência é, por definição, a indefinição: somos crianças ou somos adultos? Depois, na sobrestimada maturidade, quando nos começamos a habituar a ter vinte, chegamos aos trinta, etc.

      Ao longo da vida, as células que constituem o nosso corpo são substituídas muitas vezes. Nenhuma se mantém. Consideramo-nos uma entidade estável, confiamos na memória para mantermos a convicção de que somos a mesma pessoa, mas qual é a fiabilidade da memória? Com que rigor recordamos quem éramos há dez anos, há vinte anos?

      Ainda o Livro do Desassossego: «Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu — é lembrar hoje o que se sentiu ontem». Ou seja, aqui estou eu, a transformar-me constantemente noutro e, por isso, a não ser eu e, no entanto, a ser qualquer coisa. Ou seja, o que é ser eu? Ou seja, quem sou eu?

      Num dos muitos inéditos da arca, Pessoa escreveu: «A minha arte é ser eu. Eu sou muitos.» Em quantidade e em qualidade, como ser alguma coisa? E, ao mesmo tempo, exactamente com a mesma força, como não ser alguma coisa? A perspicácia de Pessoa, a sua clareza, leva-nos a estes becos e deixa-nos lá, indefesos diante de um tsunami existencial. Essa é uma das chaves para a universalidade da sua obra. Em qualquer ponto do espaço e do tempo, haverá leitores disponíveis para contemplar essa enorme pergunta de frente e a impressionar-se com o seu tamanho: quem sou eu?

      Mas é assim em todos os textos, literários e não-literários. Se nascerem da intenção de um ser humano, terão um propósito. Se tiverem um propósito, serão uma contribuição para a grande demanda do ser humano. Se forem uma contribuição para a grande demanda do ser humano, colocam uma ou mais perguntas. E, por baixo dessas perguntas, no fundo do fundo de cada uma, quer se sugira possíveis respostas ou não, estará sempre a pergunta: quem sou eu?

      Sempre.