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      Uma história de piratas

      Reza um velho ditado malaio que o primeiro barco alguma vez construído era para apanhar peixe e o segundo para roubar a pesca do primeiro. Não custa crer que as duas actividades tenham nascido lado a lado para andarem às avessas.

      A atribulada história dos mares do sudeste asiático, em tempos mais conhecidos na visão sinocêntrica por “nanyang” (“mar do sul”, literalmente), comprovam-no.

      O comércio que se fazia nestas águas, nos séculos XVI e XVII, quando se tornaram mais concorridas com a presença dos ocidentais, já foi descrito como uma vasta operação de contrabando. Um longo acto contínuo de pirataria. Corria mundo, então, um comércio clandestino de mercadores aventureiros e salteadores internacionais.

      A rica região era chamariz para toda a espécie e proveniência de marginais, atraídos pelas abundantes rotas comerciais geridas por mercadores demasiado afastados da alçada protectora das respectivas potências. Era como se o mar fosse terra de ninguém. E incógnita.

      As esperas dos corsários faziam-se nos labirintos formados pelos incontáveis ilhéus, estreitos que, tantas vezes, davam passagem para tormentos sem remédio algum. Verdadeiros infernos em pleno oceano.

      Pioneiros entre os pioneiros, “os portugueses”, escreve o historiador Vitorino Magalhães Godinho em “A Expansão Quatrocentista Portuguesa”, onde vai além do “floreado literário” sobre os Descobrimentos, “construíram no século XVI um império comercial, cuja alma era a pimenta, cujos fundamentos eram a pirataria e o saque, e que tinha por nervos os canhões”.

      Era inevitável que a história de Macau estivesse repleta de piratas. Assim foi. Desde o princípio.

      Durante muito tempo, acreditou-se (e defendeu-se) que a presença portuguesa no território resultava do auxílio prestado ao Império do Meio pelos navegadores lusos no combate aos bandidos que infestavam a costa chinesa.

      Só muito mais tarde assentaria a ideia de que o estabelecimento em Macau não se deveu à recompensa por qualquer feito heróico, mas sim a razões bem mais prosaicas: o comércio e a confluência de interesses e mútuas vantagens.

      Mas não faltaram combates contra os malvados piratas; um dos mais célebres, em 1564, foi frequentemente confundido com o momento fundador do porto da pequena península, na década anterior.

      Muito para lá da chegada dos portugueses – que, como desconhecidos forasteiros, também passavam por piratas – e dos seus assustadores canhões, a região manteve-se assolada por bandos de malfeitores. Era assim há centenas ou mesmo milhares de anos (os registos mais antigos datam da Dinastia Chou, por volta do século X a.C.), e assim continuou até bem dentro do século XX.

      “Esta longa e rica história empolgou tanto académicos e jornalistas como escritores de ficção, todos fascinados pelas mesmas aventuras, heróis e vilões”

      Esta longa história empolgou tanto académicos e jornalistas como escritores de ficção, todos fascinados pelas mesmas aventuras, heróis e vilões, vidas e mortes que pareciam conjurar tramas improváveis mais próprias das lendas do que da realidade. Sobretudo, quando tudo isso calhava na mesma personagem, como demonstra Fernão Mendes Pinto, que além do mais foi narrador da sua incrível odisseia.

      O assunto, contudo, era sério. Gravemente sério. Terror era mesmo o que espalhavam, por exemplo, os piratas japoneses, os mais temidos na altura em que os primeiros europeus chegaram aos mares da China. Conhecidos como “wokou” – os piratas anões –, era comum fazerem devastadoras incursões também terra adentro.

      Esta situação estava na origem do corte de relações entre os dois países vizinhos e das medidas que decretavam a interdição da costa chinesa, onde chegou a ser proibido fundar povoações. Na obra “The Christian Century in Japan – 1549-1650” (1951), Charles R. Boxer dá conta da fortificação da orla marítima entre as embocaduras dos rios Yangtze e das Pérolas, que era “comparada pelos historiados chineses da altura à construção da Grande Muralha”.

      Exagero ou não, a verdade é que tinha sido esta política de proibições dos contactos entre a China e o Japão a possibilitar aos portugueses assumir o papel de intermediários e de privilegiados agentes da troca das sedas de uns pela prata dos outros. Como era fácil de supor, todavia, a pirataria não acabou com a abertura deste tráfego mercantil. Pelo contrário.

      “Em todas as eras e em todos os tempos, a China tem sido fustigada por piratas e atravessada por bandos de assaltantes”, resume George W. Cooke no livro que resultou da sua cobertura da Segunda Guerra do Ópio, “China: being ‘The Times’ special correspondence from China in the years 1857-58”. “Os chineses”, conta este pioneiro correspondente, “são um povo de hábitos cooperativos. Formam sociedades para roubar, sociedades para resistir ao roubo, e sociedades para todos os objectivos fantasiosos”.

      Cooke escrevia já num período em que a pirataria assumia uma feição moderna. A Primeira Guerra do Ópio (1841-42) tinha forçado a abertura de portos chineses ao comércio estrangeiro, o que deu também início, nesta região, às carreiras marítimas regulares e a vapor ao longo da extensa costa.

      As profundas transformações, como nota A.D. Blue, em “Piracy on the China Coast” (1965), fizeram deste período entre os dois conflitos “um dos mais confusos da história da China”, marcado pela “persistência da anarquia e da pirataria”. Assim no mar, como na terra. O Império do Meio soçobrava.

      O perigo assomava por todo o lado e assumia as mais diversas formas. Ou disfarces. Cooke dá conta de lorchas portuguesas que serviam de escolta, “bem armadas e equipadas”. Mas em vez de protecção, estes “corsários” – que nem os mandarins ou marinha portuguesa “conseguem controlar” – eram “acusados das mais assustadoras atrocidades”. Tão receados quanto “tigres”, estes homens “tinham-se tornado pragas infinitamente maiores do que aquelas que eram pagos para repelir”.

      Cooke dizia mais: “É também alegado que as queixas ao cônsul português são em vão, levando os chineses a pensar que estava feito com os compatriotas piratas”. Mas havia também piratas ingleses e de outros povos europeus, “não havendo poder que lhes toque”.

      Por esta altura, era acelerado o enfraquecimento da Dinastia Qing, para o qual contribuía a Rebelião Taiping. Auge da desordem que então se vivia, este movimento inspirado por um místico que se considerava irmão de Jesus Cristo tornou-se um dos conflitos mais mortais da História, com as vítimas estimadas na grandeza das dezenas de milhões.

      O ambiente generalizado de caos favorecia, naturalmente, a banditagem, mas alguns estudiosos atribuem, nesta época, o declínio da grande pirataria organizada à presença britânica em Hong Kong.

      Como se indica em “Piracy and Maritime Crime: Historical and Modern Case Studies” (2010), em 1847, poucos anos após a fundação da colónia, o governo inglês passa a primeira legislação anti-pirataria. Por outro lado, as autoridades tinham ao seu serviço embarcações modernas, mais rápidas, e a Royal Navy tinha poder para perseguir os criminosos até outros portos chineses.

      O velho estilo da pirataria, em juncos, estava condenado. Mas os piratas sabiam adaptar-se. Sempre souberam.

      Hugo Pinto
      Jornalista

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