Macau adere a plataforma internacional de moedas digitais centralizadas

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Macau adere a plataforma internacional de moedas digitais centralizadas

 

A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) anunciou ontem a adesão plena ao projecto mBridge, uma plataforma multilateral de moedas digitais centralizadas que permite pagamentos transfronteiriços sem recorrer ao dólar norte-americano.

 

Onze bancos locais foram já autorizados a participar, podendo realizar transações “a partir de amanhã [terça-feira]”, indicou a administradora da autoridade monetária do território, Lau Hang Kun, durante um seminário de sobre moedas digitais centralizadas e aplicações transfronteiriças realizado em Macau.

O mBridge é uma plataforma multilateral para pagamentos transfronteiriços entre moedas digitais emitidas por bancos centrais, criado em conjunto pelo Banco Popular da China; os bancos centrais e autoridades monetárias de Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos; e o Banco de Compensações Internacionais, conhecido como o “banco central dos bancos centrais”. Tem como objectivo criar um método de testar pagamentos internacionais sem a necessidade de dólar como intermediário, usando moedas digitais centralizadas directamente entre países com liquidação em tempo real. Lau Hang Kun destacou que a adesão marca “uma nova etapa para a integração de Macau no sistema financeiro digital internacional”.

Macau tem vindo a desenvolver a sua própria moeda digital, a pataca digital, lançada em fase de investigação em 2020 com apoio do banco central chinês.

A fase de desenvolvimento inicial da pataca digital concluiu-se no final do ano passado, com a autoridade monetária local a descrever que a construção das infraestruturas de base já entrou em testes iniciais. “Estamos a ampliar os cenários de aplicação, incluindo governação electrónica, transportes públicos e escolas, sempre com foco na segurança e inclusão financeira”, afirmou Lau.

Segundo a responsável, a pataca digital deverá reforçar a eficiência do sistema de pagamentos locais, integrando-se com serviços de transferências bancárias e preparando Macau para “oferecer soluções financeiras mais competitivas”.

A AMCM está também a trabalhar na criação de enquadramento jurídico e normas regulamentares para garantir supervisão e funcionamento normalizado quando a moeda entrar em circulação. Lau sublinhou ainda que Macau pretende usar estas iniciativas para consolidar o seu papel como plataforma financeira sino-lusófona. “Queremos que Macau não seja apenas uma ponte tradicional, mas também um eixo inovador da cooperação económica e financeira na era digital entre a China e os países de língua portuguesa”, disse.

O projecto segue esforços do Governo chinês para criar o yuan digital, a primeira moeda digital oficial emitida por um banco central a nível mundial, e que está já em fase de testes em diferentes cidades do país.

 

Moedas digitais centralizadas apresentam “maior segurança”

 

Representantes do sector bancário de Portugal e do Brasil defenderam ontem que moedas digitais centralizadas apresentam menores custos e maior segurança para pagamentos internacionais, com diferentes países e regiões a avançarem com as suas próprias moedas digitais.

Em Macau para participar num seminário de sobre moedas digitais centralizadas organizado pela AMCM, o administrador do Banco de Portugal Luís Morais Sarmento destacou que o projecto do Euro digital encontra-se numa “fase avançada de prontidão técnica” e que o objetivo é assegurar que o seja “tão seguro como o numerário, mas adaptado à era digital”.

O evento organizado pela autoridade monetária do território teve como objectivo “aprofundar a cooperação financeira e explorar aplicações de moeda digital” entre a China e os mercados lusófonos.

Emitido pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelos bancos centrais nacionais, o Euro digital deverá funcionar como um equivalente eletrónico ao dinheiro em espécie, garantindo, mas permitindo pagamentos rápidos em toda a Zona Euro.

Com vista a uma eventual emissão em 2029, o BCE está atualmente na fase de prontidão técnica e a avaliar candidaturas de mais de 50 prestadores de serviços de pagamento para a realização de um projeto-piloto.

Sarmento sublinhou que os sistemas de pagamento são “um elemento essencial para a confiança económica” e que a inovação, incluindo as moedas digitais, tem “relevância estratégica” para cada país.

O administrador acrescentou que o Euro digital poderá, no futuro, suportar múltiplas moedas numa mesma infraestrutura, abrindo caminho a maior integração financeira entre diferentes geografias, incluindo os países de língua portuguesa. “Nenhum banco central conseguirá enfrentar sozinho o futuro. A cooperação internacional é essencial”, disse, apontando a criação da rede de bancos centrais lusófonos como exemplo de partilha de conhecimento.

No mesmo evento em Macau estiveram presentes representantes do Banco Popular da China, o banco central do país, e que já avançou com testes para o uso de yuan digital, a primeira moeda centralizada emitida a nível mundial.

Sarmento apontou que o Banco de Portugal tem dialogado com o banco central chinês e as autoridades monetárias de Macau sobre os respetivos projetos de moedas digitais, mas apenas como diálogos institucionais comuns ou “eventos informais” como o realizado ontem com diferentes entidades bancárias lusófonas.

O representante do banco central português afirmou à Lusa que “cada banco central fará o seu caminho” no desenvolvimento das moedas digitais, lembrando que Portugal integra a estratégia conjunta da zona euro.

Entretanto, Cassio von Gal, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), destacou à Lusa que o Brasil está a testar o projeto Drex, lançado pelo Banco Central em 2023, e que reúne instituições financeiras e reguladores num ambiente colaborativo. “As moedas digitais centralizadas vão reduzir camadas na liquidação de transações transfronteiriças, trazendo menor custo e maior segurança”, afirmou.

Von Gal explicou que o consórcio liderado pela ABBC desenvolveu instrumentos financeiros tokenizados, incluindo crédito bancário digital, que demonstraram ganhos de eficiência e redução de custos. “O piloto mostrou como instrumentos programáveis podem reduzir fricções em processos-chave como emissão, liquidação e gestão de colaterais”, disse, sublinhando que estas inovações são particularmente relevantes para o comércio internacional.

A ABBC, que reúne mais de cem instituições financeiras, liderou um consórcio dentro do piloto, representando 16 bancos de pequena e média dimensão, focado no desenvolvimento de ativos financeiros tokenizados. Estes activos são versões digitais de valores mobiliários tradicionais, como acções, títulos públicos e fundos, registados na rede encriptada ‘blockchain’.

Segundo Gal, um instrumento de crédito bancário tokenizado apresentou “maior eficiência, custos operacionais reduzidos e mercados secundários mais líquidos e acessíveis”.

 

 

China aposta em yuan digital para pagamentos transfronteiriços lusófonos

 

O vice-governador do Banco Popular da China (PBC), Lu Lei, afirmou ontem que o yuan digital poderá tornar os pagamentos transfronteiriços com países lusófonos “mais seguros, eficientes e transparentes”. O yuan digital começou a ser desenvolvida pelo banco central chinês em 2014, com testes técnicos realizados em várias cidades do país a partir de 2019. Segundo o responsável do PBC, o yuan digital já dispõe de um ecossistema capaz de suportar pagamentos online e offline, contratos inteligentes e “maior transparência regulatória”. “Com a transição do yuan digital da versão 1.0, semelhante ao dinheiro físico, para a versão 2.0, que funciona como moeda de depósito, a China apresenta uma solução inovadora para a evolução do sistema monetário global”, declarou Lu, durante um seminário de sobre moedas digitais centralizadas e aplicações transfronteiriças realizado ontem em Macau.