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      InícioParágrafoParágrafo #801984: A DISTOPIA DE GEORGE ORWELL VISTA POR ANDRÉ CARRILHO

      1984: A DISTOPIA DE GEORGE ORWELL VISTA POR ANDRÉ CARRILHO

      Há dois anos, André Carrilho foi convidado pela Bertrand para fazer a capa de uma nova edição do 1984, de George Orwell, cujos direitos tinham chegado ao domínio público. Para além aceitar, Carrilho fez uma contra-proposta, avançando para uma edição ilustrada desse clássico da literatura. O resultado chegou há pouco às livrarias e este 1984 é o romance distópico de George Orwell, mas é também esse romance lido por André Carrilho e acrescentado de um ensaio visual que o complementa, dialogando com um texto que continua, 73 anos depois da sua publicação original, a ser fundamental para percebermos o mundo e conseguirmos questioná-lo (a ele e a nós). Em Lisboa, André carrilho falou ao Parágrafo sobre a criação desta edição ilustrada, sobre o seu trabalho na imprensa e nos livros e sobre o mundo e os seus paralelismos com a distopia orwelliana.

      Ao contrário de muitas edições ilustradas de clássicos literários, com capa dura, papel couché, esta é assumidamente uma edição para ler, um formato compatível com a leitura e o manuseamento. Tiveste uma palavra nessa escolha?

      Sim, nem chegámos a ver se podia ser de outra maneira, porque eu concordava que devia ser assim. Um dos comentários que apareceu logo on-line, quando divulguei o livro, foi “isto devia ter sido em capa dura”. E eu não concordo, queria mesmo que fosse assim. Estes livros, para mim, são para mexer, folhear, ler, e a capa dura não faz sentido. Nos livros infantis, sim, para os miúdos poderem ter mais facilidade em agarrar, mas de resto, não. Viver com o livro, é esse o objectivo, ter uma relação afectiva com o objecto.

       

      Com que receios ou ousadias partiste para ilustrar este livro?

      Tenho andado a fazer ilustrações de livros de poesia e uma das coisas em que reparei, na diferença entre texto e imagem, e que é uma coisa que gostava de proteger num texto sempre que o ilustro, é isto: ao contrário da ilustração editorial, em que quase temos de explicar o que vem no texto, ou retratar exactamente algo que lá está, aqui acho que tem de se proteger a relação que a literatura tem com as pessoas, com o leitor, permitindo que este imagine coisas que não estão ditas no livro. Por isso mesmo, a minha abordagem foi tentar fazer um objecto o mais ilustrado possível, portanto, um livro de ilustração para adultos. Juntaram-se vários factores: o facto de eu ter tirado tempo da minha vida profissional para fazer isto, fazendo uma aposta no retorno dos royalties, e o facto de a editora ter aceitado isso, claro. Queria fazer um livro o mais ilustrado possível, no máximo das minhas capacidades de trabalho, mas também tentando sempre não tentar explicar demasiado coisas do texto que eu acho que não têm de ser explicadas, ou seja, não devo estar a explicar a cara do Winston, o protagonista, ou a cara da Julia, ou a mostrar como era o apartamento, mesmo que mostre um bocadinho do apartamento, porque é um cantinho muito bem descrito no texto, portanto, acho que estou a estragar muito.

      Sentiste alguma espécie de receio pelo facto de ilustrares um clássico, um livro tão conhecido e associado a um imaginário tão forte?

      Esses receios, quando já tens 30 anos de carreira, são mais leves… mas posso-me estatelar ao comprido, claro! Devo admitir que, quando entreguei o livro, e naquele compasso de espera entre ter entregue o livro e ele estar impresso na minha mão, fui-me um bocado abaixo, porque achei que se calhar não tinha feito o suficiente, porque queria que fosse o resultado do máximo da minha capacidade, só que o máximo da nossa capacidade ilude-nos muito…

       

      Está sempre um bocadinho mais à frente?

      Precisamente. E depois há aquela síndrome do impostor, porque quando começamos pensamos num ideal que nunca se cumpre e que é preciso trabalhar para sequer nos aproximarmos… Por exemplo, o Orson Wells dizia que não conseguia ver os filmes dele porque estava sempre a querer corrigi-los. No outro dia, descobri que o Robert Crumb não tem desenhos seus na parede porque, se tivesse, estaria sempre a querer emendar coisas, acrescentar. Se esses gigantes fazem isso, eu, pobre Carrilho, ainda me sinto pior [risos].

       

      Há uma série de clássicos da literatura que tiveram edições ilustradas que acabaram por se tornar, elas próprias, clássicos, como o Dom Quixote ilustrado por Gustave Doré, ou a Alice no País das Maravilhas ilustrado por Arthur Rackham. Dedicaste-te a esta tarefa com semelhante ambição?

      Não sou tão convencido assim [risos].

       

      Claro que não, mas falo do modo como avançaste para o trabalho, do tipo de dedicação que colocaste nele, e não na ambição em relação a uma possível fama na posteridade.

      Sim, tinha consciência de que este livro é um clássico mundial e que queria dar o meu contributo visual, gráfico, no máximo das minhas capacidades. Não consigo pensar muito mais além… Quero que seja um livro bom, porque o livro merece, mas também porque isso me permite continuar a fazer aquilo que gosto de fazer. É um livro tão conhecido, tão debatido, tão representado e ainda assim eu queria dar outra perspectiva, porque venho da ilustração conceptual, e os conceitos e as coisas de que este livro fala interessam-me, é isso que lhe dá actualidade. Além disso, tenho um grande amor pela Ficção Científica e o meu sonho é fazer uma História da Ficção Científica em banda desenhada.

       

      É só um sonho ou é mesmo um projecto?

      É um projecto, tenho uma pasta de ideias que volta e meia vou tendo… O Moebius, o Bilal, várias bandas desenhadas de ficção científica eram aquelas que mais me tocavam. E a fazer este trabalho, o 1984, estive a ler a Homenagem à Catalunha [também de George Orwell], para perceber de onde vinha a motivação do Orwell para este livro, mas depois fui ler o Dune [de Frank Herbert], o Foundation [de Isaac Asimov], porque nunca tinha lido. Esses livros, por exemplo, não me apetece nada ilustrar.

       

      Porquê?

      Porque implicaria criar um mundo visual que não está nada explicado no texto, enquanto que este livro, eu sabia que era Londres em 1984. Portanto, fiz pesquisa sobre o que se passava em 1984 e os tanques, os uniformes e outras coisas vieram daí, alterando um pouco as coisas para as adaptar à minha forma de trabalho. A minha tónica não é tanto essa, é explicar a ideia subjacente a cada cena ou a cada coisa que é retratada no livro, por isso tento sempre que a ilustração não seja meramente descritiva e que acrescente algo.

       

      Foi por isso que quase não retrataste o Big Brother?

      Sim, porque já toda a gente o fez, mas às tantas achei que era inevitável, e foi das últimas imagens que fiz, tentando fazê-lo de uma maneira desconstruída, porque são cartazes na rua. E tentei fazê-lo mais bonito do que normalmente ele é feito, com uma cara atraente, para fugir daquele maniqueísmo que diz que vivemos num mundo em que é tudo mau, portanto aquele senhor é mau e tem uma cara má.

       

      Quando fizeste essa pesquisa histórica sobre o ano de 1984 em Londres, acabaste por fazer aquilo que o protagonista nunca poderia, ou seja, recorrer aos documentos históricos que nos permitem conhecer o passado, porque a destruição da memória colectiva era uma das formas de acção do Big Brother.

      A minha motivação para fazer este livro, e o facto de gostar tanto dele, deve-se a ver ali uma série de paralelos com a nossa época, como toda a gente vê. Vivemos numa sociedade que nem sei se o próprio Orwell conseguiria imaginar, em que usamos o Big Brother como um conceito de entretenimento… Leste aquele conto do [Jorge Luís] Borges, “A Biblioteca de Babel”?

       

      Sim.

      Comparo muito aquilo que se passa hoje com esse conto, em que há uma biblioteca infinita, ou melhor, muito grande, porque no texto tinha um número definido de livros, e aí é difícil encontrar um verdadeiro, mas lá pelo meio está a história da nossa vida. Hoje, a maneira como escrevemos a história, falamos das fake news, inventamos a pós-verdade, os factos alternativos, tudo isso faz parecer que somos nós próprios que queremos reescrever a história. No prefácio, o Francisco Louçã fala também do Admirável Mundo Novo [de Aldous Huxley] e eu acho que vivemos um bocado entre os dois livros, esse e o 1984. Num, estávamos felizes porque tínhamos uma droga que nos punha felizes e não chateávamos ninguém, no outro, somos controlados de uma maneira totalitária. E hoje em dia, através do controle da informação e do controle do passado, a droga é a própria informação e o seu fluxo.

       

      O facto de trabalhares na imprensa, que implica uma reflexão sobre a actualidade, mas também sobre o passado e a forma como ele interfere no presente, foi relevante para este trabalho?

      Sim, precisamente porque trabalho na imprensa e passo muito tempo a pensar nestas questões, era um livro que me apetecia fazer, para poder criar algumas sínteses visuais de ideias que me iam surgindo no dia a dia. Por exemplo, hoje em dia parece-me que se a gente não sabe História, realmente não sabe nada. Como dizia Mark Twain, a História não se repete, mas por vezes rima. Durante a pandemia, quem eu mais gostava de ouvir falar eram os historiadores de pandemias…

       

      Que eram quem menos falava no espaço informativo.

      Precisamente. E davam uma timeline que explicava uma série de coisas. Estes macro-acontecimentos já aconteceram, foram estudados e a sua evolução é mais ou menos previsível. Nesse aspecto, ando a gostar imenso de ler o Foundation, do [Isaac] Asimov, porque ele leva isso ao máximo, com a nova ciência que foi inventada, a pseudo-História. Na imprensa, estamos sempre a falar de casos particulares do dia a dia, mas às vezes falta o olhar global que explica que isto é tudo mais ou menos previsível, pelo menos em alguns aspectos. Portanto, este livro do Orwell interessava-me também por alguns paralelismos, ainda que não sejam totais, porque não estamos a viver neste mundo do 1984. As pessoas que dizem que este livro é só uma crítica à União Soviética estão erradas, e o Orwell explicou isso, porque ele próprio trabalhou no departamento de propaganda da BBC e isso foi determinante para criar o Ministério da Verdade.

       

      Sem querer estragar a leitura de quem possa nunca ter lido este livro, como é que te relacionaste com o desenlace? Porque há um início que parece apontar para um caminho quase heróico de luta contra a opressão, mas depois isso não acontece.

      Era interessante se a tónica no final da narrativa fosse nos filhos e não numa amante… Acho que aí já não seria tão fácil traí-los. Mas o que o Orwell quer passar é um ponto de vista, creio, e para mim foi importante ler a Homenagem à Catalunha, porque aí percebe-se de onde vem este desencanto e porque é que não podia ter um final feliz. Ele próprio viu que as coisas não têm necessariamente um final feliz, justo, e a gente também vê isso todos os dias. Às vezes, pode acontecer… não estou totalmente pessimista.

       

      Não?

      Na verdade, sou um pessimista profissional, alguém que pratica a dúvida profissionalmente, mas continuo a lutar. Por exemplo, a luta dos jovens pelo clima: faz-me impressão que muitas pessoas que eu respeito digam mal de qualquer acção que os jovens façam. E até digo mais, não vejo ninguém para além destes jovens a articular as coisas de modo claro, porque eu não preciso de saber qual é a solução para saber que há um problema. Mas parece que o único problema é terem atacado obras de arte, e sobre isso, devo dizer que acho que esse ataque foi completamente a propósito.

       

      Porquê?

      Porque se forem ver como funciona o mercado da arte e as valorizações daqueles quadros que foram atacados, isso está altamente ligado ao movimento de capitais, ao branqueamento de capitais de instituições que contribuem para a situação que vivemos. Uma pessoa faz uma acção daquelas e toda a gente se diverte a rir de pessoas que estão a lutar pelo mundo em que todos nós vivemos. Não consigo perceber… E a própria forma como a notícia é dada é reveladora, porque durante muito tempo não se percebeu que os quadros estavam protegidos com um vidro.

       

      E provavelmente foram escolhidos também por isso.

      Claro! E também não vi ninguém a citar o próprio Van Gogh, quando diz que nunca podemos colocar a representação da realidade acima da realidade, e esse é que é o absurdo. Até posso dizer que, mesmo que as pinturas não estivessem protegidas, eu não ficava chateado. Claro que percebo a questão do valor patrimonial da humanidade, mas há uma coisa que tem mais valor e que é a própria humanidade. Vejo pessoas muito chocadas com aquela pintura, que se calhar nem sabiam que existia, mas nada preocupadas com o resto, porque é muito giro proteger o Van Gogh do passado, mas e os do futuro, que estão agora a manifestar-se e que gostavam de ter uma natureza para retratar?

       

      Isso também ajuda a explicar o teu interesse pelo 1984?

      Sim, também tem a ver com este livro. Comecei como caricaturista e as caricaturas eram retratos, mas comecei a perceber que devia ter sempre um ponto de vista. E percebi que, não sendo eu um lutador de armas e bagagens, há uma coisa com que posso contribuir e que é, precisamente, o trabalho gráfico. Foi por isso que fiz o trabalho para o SOS Racismo, no Dicionário da Invisibilidade, que foi pro bono, e se há coisas que acho que vale a pena amplificar, e partindo do princípio que o meu trabalho pode contribuir para essa amplificação, gosto de fazê-lo. Este livro é um daqueles casos em que vale a pena amplificar a mensagem que tem, anti-totalitarismo, capaz de pôr em causa as certezas que a gente gosta de ter, questionar o que vemos acontecer à nossa volta. Por isso, mais do que outro qualquer, este era um livro importante de trabalhar, e esta edição também é fruto da minha necessidade de pensar nestes assuntos todos e achar que um homem que pensou nisto há mais de 70 anos viu uma série de coisas que a gente ainda hoje não está bem a ver.