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      UM CHINÊS EM NOVA IORQUE

      EM FOCO

      Hélder Beja

       

      Mas não um chinês qualquer. As memórias de Ai Wewei, 1000 Anos de Alegrias e Tristezas, são como um túnel de acesso a esses anos formadores na grande maçã norte-americana e a tudo o que por lá viveu.

       

       

      Já todos sabíamos que andou por lá e, em livros ou exposições como as que Lisboa recebeu recentemente, víramos fotografias que atestam isso mesmo: Ai Weiwei, então um jovem artista em busca de rumo, fez parte da primeira colheita de estudantes chineses a rumar aos Estados Unidos da América depois do estabelecimento da República Popular da China. O livro de memórias 1000 Anos de Alegrias e Tristezas (Objectiva), agora publicado em português, revela inúmeros episódios dessa experiência decisiva para o percurso do artista e activista que hoje passa boa parte do tempo na casa que comprou em Montemor-o-Novo, Portugal.

      Ai Weiwei era então estudante de cinema de animação em Pequim e já sentia «aversão por todas as normas e premissas que outros nunca tinham pensado contestar». Em 1981, na China, decidir estudar na América era o equivalente a desertar. Depois de muita insistência, as autoridades do país acabam por aceitar a candidatura de Ai Weiwei para prosseguir os estudos auto-financiados no estrangeiro, mas fazem uma exigência: o rapaz tem de receber formação em «educação patriótica» e «treino para guardar segredos» antes de abalar. E foi assim que, num dia de Fevereiro desse ano, Weiwei deu por si absorto em pensamento, a sobrevoar o aeroporto JFK: «Enquanto contemplava a agitada e alucinatória metrópole mais abaixo, onde o trânsito fluía como ferro fundido, todos os ensinamentos da minha pátria seriamente transmitidos ao longo de tantos anos, desvaneceram-se como fumo».

      «Parado na esquina da Rua Catorze, voltado para Union Square, já me sentia parte daquela cidade mágica», declara. Na Grande Maçã, é admitido na Parsons School of Design e as aulas de pintura com Sean Scully, a visita ao seu estúdio, as discussões prolíficas e livres entre professores e alunos e o teste de história da arte que entregou em branco, apenas assinado, e lhe valeu a perda da bolsa, são algumas das primeiras memórias que regista no livro.

      Depois de sair da Parsons, Weiwei vive durante um tempo em Brooklyn, mas cedo tem de se mudar de novo e acaba em Alphabet City, na baixa de Manhattan. «Uma sensação de pertença é tão importante para os pobres como para os ricos, e na baixa de Manhattan sentia-me em casa no meio da sujidade e decadência e desordem.» Weiwei prefere esta realidade diária, rodeado de pessoas com «expressões tão selvagens como vampiros», à depressão que sabia esperar por si num qualquer apartamento em Park Avenue.

      O artista tenta mais um curso, desta feita na Liga de Estudantes de Arte, onde tem como professor um homem próximo do círculo de Jackson Pollock, Richard Pousette-Dart, mas também daí acaba expulso e, pouco depois, perde o estatuto de estudante e passa a ser indocumentado, um “sem-papéis” na cidade dos sonhos. «No início foi um choque, mas depressa passei a encarar a minha situação com descontração».

      Weiwei, agora «uma pequena formiga numa grande árvore», aliás numa grande floresta como Nova Iorque, sentia-se livre no anonimato. «Quando somos esquecidos pelo mundo, é fácil adoptar uma atitude despreocupada».

       

      A vida artística

      É depois de mais uma mudança de pouso que Ai Weiwei se cruza com os poucos amigos que faria em Nova Iorque. Passa a viver no SoHo, partilhando estúdio e casa com Tehching Hsieh, artista nascido em Taiwan e conhecido pela suas performances extremas, como passar um ano fechado numa gaiola de madeira. Quando Wewei se junta a Sam, seu nome ocidental, o performer prepara-se para outro desses projectos a que o jovem Ai Wewei assistirá de perto: passar um ano amarrado com fio de nylon à artista Lisa Montano. O jovem chinês retirou pelo menos duas lições deste episódio extremo a que foi assistindo: a arte é sempre um acontecimento, tem de ter princípio e fim; e a arte é compromisso. «Linda e Tehching foram modelos para mim pelo seu compromisso inabalável com uma visão artística, e na companhia deles nunca me sentia sozinho».

      Em Dezembro de 1984, num evento de poesia, Weiwei conhece Allen Ginsberg, acabado de voltar da China e grande admirador da poesia do seu pai, Ai Qing. Ele «era um braseiro a arder em fogo lento, a atrair as pessoas para si» enquanto lia os versos do patriarca Ai. Quando terminou, Weiwei apresentou-se como filho do poeta revolucionário. «Ao olhar-me com intensidade, disse-me que a sua melhor recordação da China era o abraço que o meu pai lhe dera». Os dois homens tornam-se amigos e, através de Ginsberg, Weiwei conhece com figuras como Susan Sontag.

      Mas quem deixaria marca de amizade importante na sua vida seria Martin Wong, um sino-mexicano nascido em São Francisco. Juntos, passavam horas a observar pessoas na rua e a conversar sobre nada. Martin queria à viva força que Weiwei lhe pintasse qualquer coisa impregnada de realismo socialista, que é como quem diz propaganda, mas o jovem artista estava cada vez mais longe da pintura. Interessava-lhe acima de tudo o trabalho de gente como Marcel Duchamp e Andy Warhol, ao mesmo tempo que se sentia vazio e só.

      As «tendências alternativas do dadaísmo» levaram-no a várias experimentações: fundir um violino com uma pá, embutir um preservativo numa gabardine do exército e fazer um perfil de Duchamp com um cabide de arame. Os objectos banais e o seu possível uso artístico entusiasmavam-no e foi assim que uma pequena galeria do SoHo recebeu a sua primeira exposição individual, Old Shoes, Safe Sex, que teve uma única (e boa) crítica, mas passou quase despercebida e não vendeu qualquer peça. O dinheiro, esse, vinha agora do trabalho com artista de rua, com Weiwei a treinar a mão, desenhando centenas de instantâneos, ocupando o resto do tempo a vaguear pela cidade e, cada vez mais, a fotografar. Em 1988 fotografa uma carga policial contra manifestantes em Nova Iorque e recebe uma espécie de «curso intensivo de activismo social». Uma das suas fotos acaba por ser publicada no The New York Times e Ai retira mais uma lição para a vida: «Um acontecimento da vida real fora transformado num momento mediático e demorei alguns anos a perceber o alcance daquilo».

      Um ano depois, em 1989, Weiwei assiste pela televisão as confrontos na praça de Tiannamen. «Os residentes de Pequim nunca tinham imaginado que o exército dispararia sobre estudantes que pediam uma mudança política de forma pacífica. A legitimidade do regime chinês, tantas vezes enfraquecida por erro atrás de erro, desfez-se em pó na chacina.»

      Em 1993, desiludido com «a violência tão profundamente enraizada na cultura americana» e que levou ao assassinato de Lin Lin, um artista do seu círculo, preocupado com a família que deixara na China e desejoso de reencontrar o pai já bastante idoso, Weiwei decide regressar, para espanto de todos. Deixa, ainda assim, bem claro: «Eu não tinha ilusões a respeito da minha terra natal». De Nova Iorque, partiu «de mãos vazias», sem troféus, mas levou alguns tesouros: «Algumas coisas tinham-se enraizado no meu coração, se bem que demorassem algum tempo a vir à superfície».