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      Início Parágrafo Parágrafo #76 «Estes portugueses encaravam Xangai como a sua terra»

      «Estes portugueses encaravam Xangai como a sua terra»

      O jornalista António Caeiro mergulhou nos arquivos da comunidade lusa que fez da vibrante cidade portuária chinesa a sua casa durante quase um século. Os Retornados de Xangai, agora editado em Portugal, reúne um manancial de sagas pessoais, sempre com a convulsa história da China em pano de fundo.

       

       

      António Caeiro foi correspondente da agência Lusa em Pequim durante 19 anos. Desde cedo ouviu falar de alguns portugueses que se teriam radicado em Xangai depois da Guerra do Ópio, nos anos 40 do século XIX, mas admite: «Demorei algum tempo a aperceber-me da dimensão humana dessa comunidade.» Os números eram relativamente conhecidos, variavam entre duas a três mil pessoas. O censo de 1930 aponta que havia 48 nacionalidades em Xangai e os portugueses eram a sexta mais representativa, a terceira em termos europeus. Mas quem eram estas pessoas? Aos poucos, de arquivo em arquivo, de entrevista em entrevista, Caeiro foi encontrando cada vez mais pistas para contar as histórias que agora compõem Os Retornados de Xangai, livro acabado de editar em Portugal pela Tinta da China.

       

      Como foi tropeçando nas histórias que compõem este livro?

      António Caeiro (A.C.) – A parte mais difícil foi encontrar alguns dos sobreviventes desta comunidade, pessoas que hoje já têm mais de 70 anos, os retornados, aqueles que voltaram para Portugal, que foi uma minoria, e a maioria que se dispersou pelo resto do mundo. A outra parte, muito condicionada pela situação de pandemia, foi a consulta dos arquivos. Os arquivos do antigo consulado em Xangai, depois do seu encerramento em 1952, foram para Hong Kong, e lá estiveram até ao seu encerramento. Só este século é que chegaram a Lisboa, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), e estão hoje no Arquivo Histórico-Diplomático do MNE. Uma grande parte do trabalho teve que ver com os registos, a documentação, os relatórios dos diferentes cônsules. A história desta comunidade é uma história humana surpreendente e extraordinária, além de desconhecida, mas passa-se num quadro extremamente agitado que é toda a história da China desde a Guerra do Ópio até ao final da Guerra Civil, em 1949. É um século de conturbada história que eu quis também reconstituir e narrar, porque é um quadro que toda essa comunidade viveu. A minha preocupação era que a densa história da China não esmagasse a singularidade de cada uma das personagens que constituíram a comunidade portuguesa de Xangai, algumas das quais pessoas que se notabilizaram nos seus domínios.

       

      Que papel foi o desta comunidade portuguesa durante um século tão turbulento na China?

      A comunidade portuguesa tem várias singularidades. Foram dos primeiros estrangeiros a radicar-se em Xangai depois da abertura ao comércio internacional imposta pela Grã-Bretanha, na sequência da sua vitória na Guerra do Ópio: anexaram Hong Kong e impuseram a abertura de cinco portos ao comércio internacional, o mais promissor era Xangai e confirmou-se como tal. Dos primeiros estrangeiros a acorrer a Xangai e aproveitar as novas oportunidades em termos de emprego, e em termos de aventura, até, foram os portugueses de Macau, que ali estavam há várias gerações, conheciam a cultura local, muitos deles falavam a língua e rapidamente se encaixaram nas empresas que foram aparecendo em Xangai. Só uma pequena minoria se notabilizou como empresário, quase todos eram empregados de escritório, contabilistas, intérpretes, secretárias, e bancos como o The Hong Kong and Shanghai Bank, por exemplo, davam preferência a empregados portugueses. Houve uma altura, no final do século XIX, em que havia para aí 100 funcionários portugueses na sucursal de Xangai do banco. Eram bem considerados, dedicados, leais de um modo geral, e estavam enraizados em Xangai. Ao contrário de outros estrangeiros, que estavam de passagem e mais tarde ou mais cedo regressariam aos seus países. Estes portugueses encaravam Xangai como a sua terra, estavam lá para sempre, nunca pensaram em ter de partir, por isso levavam as famílias, tinham famílias numerosas. Em muitas escolas internacionais de Xangai, os portugueses eram o grupo mais representado, mais que os ingleses, até, porque as pessoas pensavam ficar lá e era lá que educavam os seus filhos. Macau, onde os seus antepassados tinham estado, era demasiado pequeno e não se podiam comparar as oportunidades oferecidas por Xangai, que emergiu como o maior porto do Extremo Oriente e o berço da China moderna.

       

      Se essa ideia de nunca terem de abandonar Xangai está muito presente nos testemunhos do livro, outra coisa que se nota é a visão mitificada do que era Portugal. Teve que ver com isso o facto de, quando começam a abandonar Xangai a meio do século passado, poucos se terem fixado em Portugal mas antes noutras partes do mundo?

      Sim, porque a esmagadora maioria, citando o professor Jorge Forjaz, que é uma autoridade na matéria, não sabia nem quem seria o seu primeiro antepassado que veio para o Oriente, muito poucos teriam já parentes ou familiares afastados em Portugal. É preciso referir que os portugueses saem de Xangai com as transformações em curso na China. A seguir a 1949, à tomada de poder do Partido Comunista Chinês (PCC) e à instauração do novo regime, saíram também grande parte das empresas estrangeiras, que era onde os portugueses trabalhavam. As últimas pessoas a sair, em 1961, sabe-se hoje, foram uma senhora e a sua mãe. Ela chamava-se Ella Graça e viria depois a ser grande mestre do bridge, capitã da selecção de bridge de Hong Kong. A relação com Portugal era quase inexistente, era mais mítica, porque celebravam os feriados portugueses, estavam muito ligados ao consulado devido aos direitos de extra-territorialidade de que os portugueses e outros estrangeiros gozavam em Xangai, vivendo fora da alçada dos tribunais locais, mas o resto era muito ténue, a maioria deles já só falava inglês entre si.

      Outro aspecto curioso é a ligação de algumas destas pessoas às artes. Há, claro, Art Carneiro, mas há também Alberto Castro, pai do romancista Brian Castro, há escritores, modelos… Era também algo que marcava esta comunidade, haver artistas, para além de bons funcionários de empresas?

      Era uma comunidade muito diversificada e havia uma pequena elite que tinha dinheiro, punha os filhos na universidade, caso do Art Carneiro, um dos pioneiros do jazz em Portugal, pai do futuro ministro da Educação Roberto Carneiro e avô da maestrina Joana Carneiro, que fez o curso de Engenharia numa universidade criada por jesuítas, a Universidade Aurora, mas depois a vocação a que dedicou toda a sua vida foi a música. Havia várias orquestras e vários músicos portugueses, o Art Carneiro foi o mais famoso, mas ouve outro [Emílio Epigménio da Encarnação] que foi contratado para dirigir a primeira banda filarmónica de Pequim no início do século. A comunidade portuguesa distinguiu-se sobretudo pela influência que tinha por exemplo na área desportiva, a selecção portuguesa ganhou várias vezes aquilo a que se chamava a taça internacional [de futebol], disputada por vários países. Eram muito conhecidos também no ténis; nas corridas de cavalos, que eram um passatempo importante e uma actividade social que atraía muitos estrangeiros; havia um Clube Lusitano que era muito conhecido e que foi campeão de futebol. O pai do romancista australiano Brian Castro tocava piano precisamente nesse Clube Lusitano.

       

      Com o avançar do livro apercebemo-nos que estamos a desfiar não apenas histórias de pessoas desta comunidade, mas também histórias da relação da China com Portugal. Houve essa vontade de, depois de tantos anos na China, reflectir sobre essa relação?

      Sim, sobre essa relação com os portugueses, não sei se posso dizer com Portugal, Portugal é muito distante e o império português era tão fragmentado que cada um estava por sua conta quando ia para além do Cabo da Boa Esperança. (…) Mas houve sempre essa relação com a China envolvendo portugueses. Se o Estado português estaria envolvido nisso? É difícil dizer. Percorri vários jornais durante períodos até críticos da história de Xangai e não havia nenhuma referência à comunidade portuguesa. Houve notícia quando foi a evacuação dos primeiros portugueses, em Maio de 1949, quando a guerra civil estava quase a acabar e a vitória do PCC estava praticamente assegurada. O cônsul de Hong Kong fretou três aviões e vieram cerca de uma centena de portugueses, foram levados para Hong Kong e de lá para Macau, e isso veio na primeira página dos jornais de Lisboa. Mas depois não houve grande interesse em aprofundar ou tentar ver o que representavam estas pessoas, que na realidade não chegavam a cinco por cento da comunidade portuguesa da altura.

       

      No trabalho que fez para este livro em arquivos e entrevistas, encontrou outras histórias que valha a pena tratar mais adiante?

      Sim, neste caso concreto gostaria que um dia se pudesse fazer uma nova edição ilustrada com fotografias de pessoas e da cidade de Xangai. Ao mesmo tempo, acontece que, já depois de o livro estar impresso, soube de mais histórias e pormenores que, se soubesse na altura, teria acrescentado. Esta é uma comunidade tão dispersa pelo mundo que vão aparecer mais pessoas que têm avós ou tios que também estiveram em Xangai, há se calhar mais de nove mil descendentes espalhados pelo mundo e muitos deles seguramente têm histórias para contar que se poderiam acrescentar a este livro. Nesse aspecto, estou aberto a continuar. Para um jornalista, a curiosidade nunca acaba.