Delírios de Pessanha 

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Um ganido do velho cão desperta-o. Ainda o dia não nasceu, mas tornou-se hábito acordar de madrugada e já não conseguir adormecer novamente. No chão, Arminho, agita-se ao senti-lo acordado, como se tentasse, em vão, velar-lhe o sono delirante do ópio e do alheamento a que votou aqueles últimos anos, no absoluto cansaço de estar vivo. Custa cada vez mais a suportar aquele calor húmido colado à pele, a alimentar sonhos cronicamente doentes, irrespirável, viscoso, como uma mosca em agonia.

Desde que a última amante desapareceu, Camilo sente um estranho vazio. Já nem o nome dela recorda, apenas o cheiro adocicado do arroz que lhe parecia habitar a pele e as formas lisas do corpo… Lembra-se da pele macia e branca, numa fusão de cetim e seda. Vive agora na sua memória como um vago espectro, a habitar-lhe a cama e os delírios. O que os outros diziam nunca lhe importou, naquela terra de areias movediças, onde todas as aparências iludem, onde a busca da pureza, da autenticidade, podem nascer e desvanecer-se numa nuvem de ópio. Fiel e constante, sempre o cão Arminho, partilhando tudo, até a febre entontecida do ópio, esse vício a  toldar-lhe a razão, mas a escancarar as portas ao reino dos deuses, a esse recanto onde a poesia mora. De súbito, um suave toque fá-lo regressar à realidade… não distingue os bordéis flutuantes feitos barcos, ao longe, marchetados de flores, da cama e da mesa que pode tocar com os dedos… Não, afinal a sua concubina não partiu, porque se julga abandonado então? A pele dela contra a sua, aquela sensação quente e húmida da carne  que se roça e encaixa, numa sinfonia de delírio… mas não, não é a mesma… Nei Ngoi Long comprada a um corrector, mãe do seu filho, abandonou-o para se entregar aos braços da morte… partiu para sempre num barco sem flores com Caronte ao leme… Aquela mão que lhe acaricia o rosto, talvez temendo encontrá-lo hirto, beijado também pelos lábios da morte é Kuoc Ngan Yen, a filha dela, “Águia de Prata”… será essa a sentinela dos seus últimos dias.

Pensa em Portugal. Aquele farrapo de pátria perdido, do qual já não lembra os cheiros, apenas algumas cores esbatidas nas teias da memória: o azul do Tejo, o azul do céu…A mãe (“ Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova./ Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova ”), o amor rejeitado de Ana de Castro Osório – aquele poço de sedução que o endoidecera num tempo remoto, numa era que ficara sepultada muito além da bruma de Macau… Sim, talvez tenha sido ela a alavanca do seu exílio para aquela terra. E o que importa? Sente que a chama que o mantém vivo se extinguirá em breve, que a vida o consumiu e  sugou, fumado até à medula, o corpo dissipado em todos os ópios. Perenes, puros e intocáveis apenas os seus versos. Com o corpo e a alma a arderem, consumidos na misteriosa chama a moldar cada poema… Não sabe se alguém o lerá, nem a ânsia da imortalidade o preocupa -apenas aquele arrastar-se até às cinzas derradeiras, pelas esquinas da vida, pelos becos de Macau na estranha lassidão de uma mão dormente.

Às vezes, Camilo e Arminho saem para o calor da rua, magros, escanzelados, cadavéricos, como sombras de um passado que fenece. Dizem que até vagueia nu, sem destino, como um fantasma há muito exilado da esfera terrestre.

O que lhe passou pela cabeça para vir enterrar a sua vida em Macau? – o buraco onde os sonhos vêm morrer, estranho cemitério de vidas em vida, onde acorrem todos os marginais dos mais diversos quadrantes do mundo? Gente sem eira nem beira que busca fortuna, gente cuja ambição não coube nos limites territoriais do farrapo de pátria ou do círculo vicioso e viciado onde nasceu. Enterrar-se aqui, nesta clepsidra de lodo, de silêncio e solidão, sepultar os dias além do ópio da miséria, da decadência… 

Agora, Camilo sente-se sem forças, prisioneiro de um sonho ou de um pesadelo vago. Após vaguear durante horas pelas ruas de Macau, tenta ainda converter o delírio e a febre em poesia. Num derradeiro movimento de resistência contra o fim, interroga-se: “Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho”…?  Muitos tentam, ainda hoje, responder a esta questão.  Percorrem as mesmas ruas que ele, visitam-lhe a campa com uma inscrição em chinês, no cemitério de São Miguel Arcanjo, escrevem artigos, teses, livros, nos vários cantos do mundo a perenizar os seus versos lapidares. Mas todas as tentativas de resposta serão sempre provisórias, como fugidia e frágil é a própria vida, em cujos canteiros “floriram por engano as rosas bravas”.