Luciana Leitão
Da Bloom, em Macau, à livraria Mirabolante, em Odemira
O antigo foto-jornalista, livreiro e escritor de Macau, António Falcão, está prestes a abrir a livraria Mirabolante em Odemira. Um espaço único na vila, no concelho e um dos poucos que existem em todo o Alentejo.
Que é demasiado fantástico para ser verdadeiro. Que surpreende. A definição do dicionário de mirabolante é pequena para o projecto que António Falcão e Bruno Rodrigues estão prestes a lançar. Única em todo o concelho de Odemira, uma região com aproximadamente 30.000 habitantes, a livraria Mirabolante vem servir a população residente (e não só) com livros em português, inglês e outras línguas, que podem ser folheados enquanto se bebe um café na esplanada, ali mesmo no centro da vila. Mas como começou tudo?
António Falcão juntou-se a um comboio em andamento. «Nas celebrações do 25 de Abril [de 2023], soube que alguém queria abrir uma livraria», recorda. Era o casal Bruno Rodrigues e Sílvia Laureano Costa, residentes no concelho e doutorados em Literatura. «Eram só os dois e eles não vivem em Odemira», diz António. «Estão a 30 quilómetros daqui, mas já tinham feito uma candidatura ao projecto Odemira Empreende [Programa Municipal de Empreendedorismo e Emprego], que tinha sido aprovada, já tinham até o espaço», conta. Dada a distância a que se encontram da vila e pela logística com os filhos, em Abril estavam prestes a desistir. Falcão não deixou.
Afinal, no concelho de Odemira não há uma única livraria e, mesmo em Beja, que é o maior distrito de Portugal, só existe uma e não segue um conceito clássico. Abrir um espaço para servir a população era, por isso, uma necessidade.
Um projecto há muito desejado
Na verdade, desde que António Falcão se fixou em Odemira, em 2013, para gerir com a sua companheira, Teresa Freitas, a Quinta do Chocalhinho, um empreendimento de turismo rural, nunca deixou de pensar em abrir um espaço do género. Mas nunca o concretizou, talvez pela dificuldade de se lançar nisto sozinho.
Com Bruno e Sílvia, encontrou os parceiros perfeitos. «Teria sido mais difícil fazer outra vez uma coisa sozinho, como fiz em Macau, mas estamos bem sintonizados», destaca. «Sempre que passava pelo centro de Odemira, andava a ver lojas, mas eram tudo ideias que nunca se concretizavam», afirma.
Na Praça Sousa Prado, mesmo no centro da vila de Odemira, o actual espaço que vai albergar a livraria já teve várias funções. Foi uma loja de roupa, uma sapataria e uma agência imobiliária. «A dona não queria alugar mais e foi aí que entrámos nós», afirma.
António Falcão e Bruno Rodrigues são os sócios, mas as companheiras de um e de outro darão também algum apoio. «O Bruno e a Sílvia são os dois doutorados em Literatura, embora a Sílvia seja professora e tenha uma bolsa da Universidade de Lisboa», diz, traçando o perfil dos seus colegas de aventura. «Ele é muito dedicado à natureza e dá aulas de andebol», continua, acrescentando: «Os dois compraram um monte, onde fizeram a sua reflorestação.»
Preparar uma livraria não é nada de novo para António e implica muitos detalhes, vários deles sem nada a ver com livros. «Primeiro, é preciso preparar todas as coisas que vamos ter aqui neste espaço, para além da mobília e dos equipamentos», diz. Depois, claro, é preciso saber o que se vai vender. «Cada um de nós, no começo, fez a selecção de livros», recorda. «A Sílvia fez muitos contactos com as editoras, o Bruno fez também a parte do mobiliário, já que é muito difícil encontrar as peças certas para ter aqui», conta. Também é Bruno que fica encarregue da função contabilística e burocrática. «Ele foi o candidato que deu início ao processo na Câmara, estava tudo mais ou menos em nome dele e só depois passou para o nome da empresa que formámos», explica.
A livraria Mirabolante
A oferta literária virá das principais editoras portuguesas, assim como de algumas casas independentes. «Como o investimento foi grande, estamos também a querer editoras que nos possam conceder livros à consignação, para começar», diz. No caso da oferta de literatura infanto-infantil, por exemplo, incluem-se a Bruaá e a Planeta Tangerina. Do lado dos adultos, há exemplares à venda da Tinta da China, da Relógio D’Água, da Assírio Alvim, além de muitas outras. Com livros maioritariamente em português, da oferta da Mirabolante também fazem parte exemplares em outras línguas, sobretudo em inglês, além de francês, espanhol e alemão.
Percorrendo a livraria, além da secção dedicada à literatura infanto-juvenil, há ainda uma área dedicada a autores portugueses, outra à literatura internacional, além de um espaço para as questões ambientais. Há também uma secção especial para gatos e outra sobre alimentação. Existe ainda uma área com literatura estrangeira, bem como uma exposição de livros. «Há uma zona onde os livros vão estar expostos, como se fossem, eles próprios, uma obra de arte», revela.
A livraria terá ainda uma secção de livros em segunda mão, alguns deles misturados com exemplares novos. E há vários projectos em mãos, que terão visibilidade numa fase posterior da Mirabolante. «Estamos a fotografar pessoas de Odemira com o seu livro preferido e isso estará visível no interior da livraria», diz.
A área não é tão grande quanto Falcão e o seu sócio desejariam, mas as ideias são muitas. «Vai ser um espaço forrado a livros e, por isso, não podemos falar propriamente em exposições, mas vamos ter o possível: eventos ligados à literatura, um clube de livros, espaços para leitura, encontros para as crianças, sessões de autores e de outras personalidades», diz, levantando um pouco do véu. E também estão a travar contactos com os escritores de Odemira, para poder levá-los à Mirabolante.
Aliás, o espaço ainda nem tinha aberto as portas ao público e já a Mirabolante recebia dois nomes de peso. «No nosso primeiro evento, tivemos o Rob Hopkins, um escritor e ambientalista inglês – há muita gente aqui na zona ligada à regeneração da natureza e apareceu aqui muita gente, não só de Odemira, que veio de propósito vê-lo», diz. A Mirabolante já recebeu também a escritora Luísa Sobral, para apresentação do seu livro O peso das palavras. Paralelamente, a ideia será criar parcerias com artesãos, artistas, ambientalistas, cooperativas e associações.
A cafetaria Mirabolante
A Mirabolante não é apenas uma livraria. Quando se entra, do lado direito está a cafetaria, que conta com oferta de comida saudável. «O que vamos fazer com os livros e a literatura, que é dar a conhecer e a incentivar as pessoas a ler, faremos também com a cafetaria e com a alimentação saudável: é quase educar as pessoas a comer», diz. Com a preocupação ambiental sempre na base do que pretendem oferecer na cafetaria, António revela que ainda terão à venda algumas especialidades, entre as quais se incluem café biológico e, até mesmo, uma cerveja artesanal chamada Mirabolante, que será vendida em eventos especiais.
A cafetaria, mesmo ao lado dos livros, vem dar resposta a uma falta em Odemira. «A oferta também é pouca, porque vários cafés em Odemira fecharam», revela. Depois, há que conciliar a cafetaria com as expectativas dos clientes. «Ter um menu de almoço, que seja regular, manter isso e ter a responsabilidade de mantê-lo com qualidade e de forma diversificada», diz. «Vamos ter alimentação saudável, bebidas especiais que ajudam ao foco e pão especial biológico», antecipa.
Como tudo aconteceu em Macau
António Falcão e Teresa Freitas não são novatos nos meandros do negócio livreiro. Em Macau, abriram uma livraria que se chamava Bloom e se situava na Rua de Guimarães, no Largo do Pagode do Bazar, em pleno Porto Interior. Localizada num sítio muito bonito do território, abriu em 2007 e satisfazia um nicho de clientes, com uma oferta diferente da que existia em Macau. «Trouxemos editoras que nunca tinham estado em Macau, na altura, como a Cavalo de ferro e a própria Tinta da China, havia muita coisa que a Livraria Portuguesa não tinha e nós tínhamos, para além da própria língua inglesa, que era também a nossa aposta», recorda António.
O desafio era o transporte dos livros até Macau. «Conseguir essa canalização de livros de editoras portuguesas e levá-las a Macau era sempre um momento de prazer, era quase como se estivesse a nascer um livro», declara.
Porém, em 2008, perante os prejuízos resultados da passagem do tufão Hagupit, a livraria acabou por ter de fechar. Ainda abriram um novo espaço na Calçada da Igreja de São Lázaro, com uma oferta bastante menor, que acabaram por largar quando saíram do território. Quando se falou numa potencial mudança de sítio da Livraria Portuguesa, o livreiro também foi chamado à colação. «Chegámos a ser convidados pelo IPOR [Instituto Português do Oriente] para estabelecermos a Livraria Portuguesa noutro local, quando se falava em vender aquele espaço», revela. «Cheguei a ver espaços com o Carlos Monjardino [presidente da Fundação Oriente], junto ao Mercado de São Domingos», diz. Depois, deu-se o concurso para a nova concessão da Livraria Portuguesa, mas António Falcão e a sua companheira Teresa Freitas já estavam, nessa altura, com um pé fora de Macau e sem energia para um novo desafio. O infortúnio do passado deixa-o apreensivo relativamente a este novo futuro? O livreiro assegura que não. «O que aconteceu em Macau foi uma catástrofe de que ninguém estava à espera», recorda.
Na Mirabolante, a missão é outra: menos comercial e mais abnegada. «O nosso espírito aqui é mais oferecer algo que não existia antes, porque não estamos à espera de ser um negócio viável logo ao princípio, é mais esse gosto de ter algo que as pessoas não tinham antes», salienta. E há também outra diferença. Na Bloom, António e Teresa estavam sozinhos na aventura editorial. Aqui, têm a ajuda de outras pessoas, que estão «na mesma sintonia». Na verdade, voltar a este universo foi sempre algo que ambicionou, mesmo quando regressou a Portugal. «Podia não ser uma livraria, podia ser outro espaço ligado à cultura – uma galeria ou algo do género – mas acabou por acontecer assim», revela. A oportunidade surgiu e Falcão não a quis deixar escapar por entre os dedos.
Prestes a abrir as portas, a livraria Mirabolante deverá ter a inauguração oficial em Dezembro deste ano.











