EDITORIAL #91

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Numa altura em que boa parte dos livros se compram on-line ou nos grandes retalhistas que dominam o mercado e impõem as suas regras, abrir uma livraria independente é um gesto que merece aplauso e apoio. É nesse gesto, feito de tantos gestos mais pequenos e de mil e uma tarefas e burocracias, que anda envolvido António Falcão, que em vidas passadas foi foto-jornalista, livreiro e escritor em Macau. Longe do território há alguns anos, é em Odemira, no coração desse Alentejo que já se aproxima do litoral, que o livreiro reincidente se prepara para abrir, com outros sócios, a Mirabolante. Ao Parágrafo, António Falcão desvendou parte do que se prepara para este espaço livreiro, que será também cafetaria, lugar de debates, exposições e pequenos espectáculos e, seguramente, lugar de encontro.

Do prato aos livros, Guida Cândido tem vindo a mostrar aos leitores a riqueza do património alimentar e gastronómico português. São Favas Contadas (Dom Quixote), o seu mais recente trabalho, é inteiramente dedicado aos vegetais, num volume que percorre alguns receituários de entre os séculos XVI e XX, partilha receitas e ainda desvenda a descoberta do mais antigo livro português de cozinha vegetariana, datado de 1896 e com autoria não identificada. Nesta edição, conversamos com a autora, traçamos alguns percursos pelo vegetarianismo e a sua presença em Portugal e ficamos a conhecer boas maneiras de cozinhar nabos, alcachofras ou beringelas, porque de barriga cheia lê-se sempre melhor.

Para além das rubricas habituais, das crónicas às leituras para os mais novos, nesta edição lemos também Asian Workers Stories, uma antologia organizada por Luka Lei Zhang de textos escritos por trabalhadores asiáticos, muitos deles migrantes, quase todos trabalhando em condições para lá de precárias para garantirem não só a sua sobrevivência, mas igualmente a manutenção de um sistema de mercado e de consumo que, confortavelmente afastados dessa realidade, gostamos de classificar como avançado ou, no mínimo, conveniente. Entre ficção e não-ficção, destaca-se a pluralidade destas vozes, a inovação no uso da linguagem literária e uma vontade convicta de tomar a palavra e ocupar este espaço, o da literatura, para que a sua voz se ouça.       Voltamos em Janeiro, para estrear o novo ano e os livros que com ele chegarem.