Ano Novo Lunar

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Estou quase a chegar a casa da minha avó, numa aldeia perto da vila de Jinghai, no sudoeste de Tianjin, norte da China. Da janela do autocarro, árvores desfilam inquietas a acenarem, numa harmoniosa cumplicidade. 

Muito cedo, migrei com os meus pais para Pequim. Adaptei-me à desumanização da cidade, perdida no mecânico anonimato daquele formigueiro, num bairro periférico. Aprendi mandarim, esqueci a língua da terra natal, uma das mais de noventa em risco de extinção na China – e de tantas à beira do fim, a assinalarem a morte da cultura, da memória dos povos que as articularam sílaba a sílaba. Talvez por isso, iniciei agora um mestrado em Linguística numa universidade de Macau. Sonho trabalhar sobre as línguas e dialectos cujos sons se apagarão em breve. Na verdade, o reencontro com a minha família é sempre a uma estranha babel de línguas. Os meus pais tentam traduzir, construir a ponte dos afectos enraizada no álbum de significados esquecidos nos baús da memória. 

Serei a última a chegar. Atrasei-me para terminar uns trabalhos da universidade. Por isso, a esta hora, a casa está já enfeitada de vermelho, os dísticos da boa sorte nas portas, janelas e cozinhas. A avó e as tias devem ter passado os últimos dias a cozinhar para a grande ceia da passagem de ano: despede-se o Ano da Serpente e dão-se as boas-vindas ao Ano do Cavalo. E para que esse ritual se cumpra devidamente, o jantar tem de ser abundante: carne, galinha inteira, camarões, peixe, coelho, dumplings… Antecipei-lhes o sabor em cada curva da estrada. 

Durante a infância, adorava aquela noite de início do Novo Ano Lunar, ficava acordada até depois da meia-noite, recebia os hong bao. Tudo era alegria, azáfama, confusão, gargalhadas. Depois, durante os últimos anos, comecei a aborrecer-me  nos dias passados em casa da avó, sem internet, nem Wechat. Sentia-me exilada, numa outra dimensão, longe dos meus amigos, do meu namorado, sem acompanhar o que  acontecia  no universo, para mim, correspondente à vida real – mesclado com a virtual – habitado nos ecrãs nos telemóveis, aos quais vivemos colados, sempre de cabeça baixa, esbarrando uns contra os outros. Sim, eu, Yao Cong, sou parte dessa geração dos olhos colados ao ecrã – do telemóvel, do computador, do Ipad, pouco importa, desde que estejamos online a partilhar os nossos reinos de aparências e futilidades. Sinto, porém, que algo começa a mudar em mim: uma estranha nostalgia, como se previsse o fim de um mundo que foi meu, onde a minha alma se começou a esculpir. 

Finalmente, com um gemido lânguido, o autocarro pára. Os passageiros empurram-se, carregando as malas e os sacos, apressados, ansiosos pela tão sonhada ceia.

À porta da casa, a avó espera-me de braços abertos, um sorriso desdentado num rosto a conservar uma beleza talhada pelo bisturi do tempo, cada ruga desenhada com os traços do lápis da sabedoria. É longo o abraço, as palavras escasseiam, reduzem-se a poucas sílabas murmuradas. Lá dentro, a azáfama de sempre, o reino de cor vermelha, mistura de cheiros agridoces, estonteantes e da algazarra. 

Dentro de pouco tempo, já todos estamos sentados na longa mesa, saboreando o lento e guloso desfilar dos pratos. Até que chega a meia-noite e com ela o alvoroço da troca dos envelopes vermelhos – oferecidos às crianças e aos jovens ainda solteiros. Agradeço com um sorriso o presente e penso que talvez seja o último que recebo, pois  casarei no próximo ano. O bombardeamento estrondoso dos panchões atroa os ares para afugentar os espíritos maléficos. Comemos, sem falta, os dumplings vegetarianos, para não passarmos fome durante o ano. 

Apenas a avó permanece imóvel na sua poltrona, subitamente alheia aos festejos. Aproximo-me dela para lhe colocar na boca o dumpling vegetariano – como ela me fez, durante tantos anos, no passado. Ela que tanta fome passou para criar os quatro filhos, apenas com o que conseguia arrancar ao útero sofrido da terra. Isto muito pouco antes de ser instaurada, na China, a política do filho único, na década de setenta, para conter o avanço populacional. Fui fruto dessa imposição, como todas as gerações de filhos únicos, isolados nos seus mundos, sem irmãos com quem partilhar o destino nem a vida. Por isso, com a memória da pobreza ainda tatuada na pele, a avó valorizava mais do que todos aquele momento de comer o dumpling vegetariano, o escudo protector contra a miséria. “Avó, tem de comer o dumpling…”

Mas ela não se move e ao tocar-lhe na mão, sinto que a carne se fez mármore. A festa termina abruptamente com o inesperado sopro da morte. Com o Ano Velho desmorona também a trave-mestra desta família, desta casa. Os risos cedem lugar às lágrimas, o vermelho à brancura do luto e ao fim dum mundo doravante apenas vivo nos nossos corações e na memória.