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      Lawrence Osborne regressa a Macau para contar a história da adaptação literária mais ousada da península

      O casaco de veludo chegou primeiro. Depois veio a personagem. Depois veio o romance. E finalmente, mais de duas décadas depois de Lawrence Osborne ter entrado pela primeira vez no Grand Lisboa, veio o filme, exibido a poucos quarteirões de distância de onde se pavoneava com roupas emprestadas, fingindo ser um lorde.

      Na 15.ª edição do Festival Literário de Macau, o autor Lawrence Osborne e o produtor Mike Goodridge reencontraram-se no painel “Aposta Alta em Macau: A Adaptação da Balada de Um Jogador Menor do Papel Para o Ecrã”, que ofereceu uma visão especial da alquimia criativa que transforma um romance num filme.

      Para Osborne, o livro não foi um produto de pesquisa, mas de imersão: “Nunca vou a lugares para fazer pesquisa, não acredito nisso de todo”, confessou. A sua ligação a Macau começou no início dos anos 2000, com estadias no Grand Lisboa que se estendiam de três dias a três semanas. “Percebi que no hotel havia um casino onde eu podia participar, dia e noite, vinte e quatro horas por dia. Para mim, isso era algo extremamente novo e, de certa forma, atraente”.

      Osborne ficou fascinado com a “psicose do jogo” e com o que chamou de “elemento sobrenatural do jogo na China”, que evoluiu para um desejo de escrever. A personagem principal, Brendan Reilly, o fraudulento “Lord Doyle” no centro da história, nasceu das próprias observações de Osborne: “Mandei fazer um casaco de veludo nos alfaiates que ficavam no piso zero do Grand Lisboa e quando o usei no elevador percebi que estava toda a gente a olhar para mim… e eu gostei”, admitiu o autor. “Ele [Lord Doyle] é um tipo que é um fracasso, uma fraude… mas pode usar um casaco de veludo e todos vão olhar para ele, então ele pode muito bem chamar-se de lorde e ver até onde é que isso o leva”.

      A viagem da página para o ecrã começou quando o produtor Mike Goodridge leu o livro por sugestão de Osborne em 2017. Apesar de ter duvidado imediatamente que fosse possível fazer um filme em Macau, o produtor não desistiu da ideia.

      O que surgiu posteriormente, fruto também do trabalho do realizador Edward Berger e do argumentista Rowan Joffé, foi uma transformação do romance tranquilo e introspectivo de Osborne no que o director de fotografia, James Friend, descreveu como um “sonho febril e caricatural”. A linguagem visual foi concebida para espelhar os ambientes “superficiais e bombásticos”, segundo Friend, de Macau, com a utilização de lentes anamórficas personalizadas e uma lente olho de peixe de 17 milímetros para criar os espaços opressivos e sufocantes presentes em todo o enredo.

      A adaptação fez também mudanças significativas para criar uma estrutura tradicional em três actos. Rowan Joffé admitiu que, embora quisesse preservar a “fantasia e poesia” do livro, sentiu que faltava um enredo claro para o público mainstream, e assim foi introduzida uma “bomba relógio” na qual Lord Doyle tem três dias para pagar as suas dívidas ao hotel. Quanto às personagens, foi acrescentada uma totalmente nova, Cynthia Blithe, interpretada por Tilda Swinton, a antagonista da classe operária que personifica as consequências da fraude de Doyle. Também a personagem Dao-Ming foi reimaginada, de uma prostituta no romance para uma agente ilícita de empréstimos de jogo no filme, interpretada por Fala Chen.

      Ao longo painel, tanto Lawrence Osborne como Mike Goodridge enfatizaram a necessidade de uma separação criativa. Quanto ao tema, Osborne argumentou que “muitos escritores ficam muito amargurados com o que vêem na tela porque não está de acordo com o que escreveram, mas isso é uma tolice. Não podem ser iguais, não devem ser iguais”, descrevendo ainda um pouco da sua própria experiência: “Quando vi o filme pela primeira vez, fiquei um pouco surpreso… É a visão de outra pessoa, mas tem que ser a visão de outra pessoa e fico feliz que o tenha sido, dá uma vida diferente à mesma história”.

      Terminada a sessão na Casa Garden, os participantes dirigiram-se ao histórico Cinema Alegria, um dos cinemas independentes remanescentes de Macau, para uma exibição especial do filme “Balada de Um Jogador”.