O chefe da diplomacia chinesa afirmou que a Europa pode reforçar a competitividade no “ginásio” que é o mercado chinês, e instou os países europeus a abandonar o protecionismo e a aproveitar as oportunidades de cooperação com Pequim.
“Temos assistido a uma melhoria nas relações entre a China e os países europeus desde o ano passado, com um comércio bilateral que supera um bilião de dólares (860 milhões de euros) e mais de dois milhões de turistas europeus a visitarem a China sem visto”, afirmou Wang Yi, acrescentando que “os factos demonstram que a estabilidade das relações entre a China e a UE assenta em interesses partilhados”.
As declarações foram feitas durante a conferência de imprensa anual do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, realizada no âmbito da sessão da Assembleia Popular Nacional, o principal evento político anual do país.
O ministro defendeu que “a posição da China sobre o desenvolvimento das relações entre a China e a UE é clara: sempre acreditámos que a Europa é um polo inerente num mundo multipolar e uma força importante para manter a ordem e a estabilidade internacionais”.
Wang assegurou que as autoridades chinesas “têm observado que cada vez mais pessoas perspicazes na Europa reconhecem que a China não é um concorrente, mas sim um parceiro global”, acrescentando que “a Europa é um parceiro fundamental para alcançar a modernização da China”.
O diplomata destacou ainda que “líderes europeus também visitaram a China e a Europa em rápida sucessão, e os intercâmbios tornam-se cada vez mais estreitos”, referindo-se a recentes visitas ao país de dirigentes de Estados como Alemanha, Finlândia ou França.
A conferência de imprensa de Wang ocorre num momento de tensões entre Pequim e os 27 Estados-membros da União Europeia, relacionadas com questões como os veículos elétricos chineses, as telecomunicações ou as restrições impostas pela China à exportação de materiais estratégicos, como as terras raras.
China diz que proteccionismo equivale a “fechar-se numa sala escura”
O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou que “o protecionismo é como fechar-se numa sala escura” e criticou que “alguns países ergam barreiras tarifárias, tentando desassociar as cadeias de abastecimento”, numa referência velada aos Estados Unidos. Segundo Wang Yi, essa “sala escura” pode parecer que “protege do vento e da chuva, mas na realidade impede a entrada de luz solar e ar fresco”.
Em resposta a uma pergunta sobre o possível impacto da crise no Irão na prevista visita do Presidente norte-americano, Donald Trump, ao país asiático no final do mês, Wang defendeu que Pequim e Washington devem “tratar-se com sinceridade e confiança” e apelou à necessidade de “preparativos exaustivos” e de “criar um ambiente adequado” nas relações bilaterais, embora não tenha confirmado a viagem anunciada pela Casa Branca.
O ministro manifestou esperança de que as duas maiores potências mundiais “alcancem resultados que satisfaçam ambos os povos e cheguem a um consenso acolhido pela comunidade internacional”, acrescentando desejar que 2026 seja um ano crucial para o desenvolvimento saudável, estável e sustentável das relações entre a China e os Estados Unidos.
Contudo, Wang lamentou que “a economia mundial enfrente dificuldades e que a globalização esteja a sofrer retrocessos” e classificou as barreiras tarifárias como “tentar apagar um fogo com lenha”. “Os problemas que a globalização económica enfrenta só podem ser resolvidos através de um desenvolvimento mais sustentável e de uma governação mais justa e eficaz”, acrescentou o ministro, que descreveu a China como “o motor mais estável do crescimento global”. Segundo Wang, a China “cumprirá a sua responsabilidade como fábrica do mundo” e desempenhará “um papel vital como mercado global”.
Nos últimos anos, e especialmente após a guerra comercial desencadeada no ano passado por Trump, a China tem reiterado a sua condenação ao “protecionismo” e defendido “um sistema multilateral de comércio com a Organização Mundial do Comércio no centro”.
As declarações de Wang surgem quando Pequim e Washington preparam uma sexta ronda de negociações comerciais, que, segundo o jornal de Hong Kong South China Morning Post, poderá realizar-se no final da próxima semana em Paris para discutir possíveis acordos sobre tarifas, investimento, soja ou terras raras antes da eventual visita de Trump.
A eventual deslocação ocorre também após a recente decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos de declarar ilegais algumas das tarifas promovidas por Trump, o que acrescentou incerteza à trégua comercial de um ano acordada entre as duas potências em outubro passado. Lusa












