O chanceler alemão anunciou ontem, em Pequim, uma encomenda de “até 120” aviões feita pela China ao construtor aeronáutico europeu Airbus”, indo ao encontro da vontade do Presidente chinês de novos progressos nas relações bilaterais.
No primeiro dia da visita ao principal parceiro comercial da Alemanha, cada vez mais visto no país como um concorrente perigoso para o “Made in Germany”, Friedrich Merz não adiantou pormenores sobre a encomenda, nomeadamente quanto ao tipo de aparelhos, mas apresentou-a como ilustrativa do potencial da relação com a China.
“Acabámos de saber que os dirigentes chineses vão encomendar mais aviões à empresa Airbus. Trata-se de até 120 aeronaves adicionais”, declarou aos jornalistas, após encontros mantidos ao longo do dia com responsáveis chineses.
O anúncio de Merz surge depois de o Presidente chinês, Xi Jinping, ter declarado ao chanceler alemão, durante um encontro em Pequim, que espera “novos progressos” nas relações bilaterais. “É um prazer trabalhar consigo, para permitir que a parceria estratégica global sino-alemã alcance continuamente novos progressos”, afirmou Xi a Merz.
Xi, que tem recebido sucessivamente líderes estrangeiros nos últimos meses, reafirmou ainda a vontade de “novos avanços” na relação bilateral. “Quanto mais o mundo está conturbado e complexo, mais importante é que a China e a Alemanha reforcem a comunicação estratégica”, sublinhou perante Merz, que chegou acompanhado por uma importante delegação de líderes empresariais alemães.
Nos encontros com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, e posteriormente com Xi, o chefe do Governo alemão defendeu um reforço da cooperação “mais justa”, com a China e um debate aberto sobre os temas de divergência já apontados antes da viagem.
Entre estes contam-se o crescente desequilíbrio das trocas comerciais a favor da China, distorções da concorrência, restrições no acesso aos mercados e a segurança do aprovisionamento de terras raras, setor em que a China detém posição dominante, bem como os subsídios estatais às empresas chinesas e a taxa de câmbio da moeda chinesa. “Há desafios, mas o enquadramento em que evoluímos é notavelmente bom”, assegurou Merz durante o encontro com Xi.
Merz efectua a primeira visita à China desde que tomou posse, em 2025. Depois dos líderes de França, Canadá e Reino Unido, é o mais recente a deslocar-se a Pequim, numa altura em que o Presidente norte-americano, Donald Trump, tem abalado a ordem estabelecida, com a imposição de tarifas aduaneiras e a revisão de alianças tradicionais.
Visita decisiva para estratégia europeia face à China
A visita do chanceler alemão, Friedrich Merz, a Pequim é “decisiva” para a estratégia europeia face à China, entre aceitar a narrativa chinesa de “estabilidade” ou avançar para uma resposta mais assertiva aos desequilíbrios comerciais, segundo o ECFR.
O director do programa para a Ásia do ‘think tank’ European Council on Foreign Relations (ECFR), Andrew Small, sustentou num relatório de análise que um dos principais objetivos políticos de Pequim é preservar o status quo nas relações com os países europeus que, perante os crescentes excedentes comerciais chinesas e práticas não orientadas pelo mercado, poderão endurecer medidas de protecionismo comercial.
Para o analista, o ónus recai sobre Merz para deixar claro que a sobrecapacidade produtiva chinesa, a disposição de Pequim para instrumentalizar dependências económicas e o apoio ao Presidente russo, Vladimir Putin, são fontes de instabilidade para a economia alemã e para a segurança europeia.
A deslocação do chanceler é, assim, “menos um périplo bilateral” e mais um “momento definidor” para a Europa, no qual o sinal político enviado por Berlim poderá influenciar se o bloco opta por uma linha mais firme ou por manter o modelo actual de relação económica. “Não alterar a trajetória atual da relação com a China tem um custo diário, traduzido em empregos perdidos, crescimento mais lento e esvaziamento de setores industriais competitivos”, escreveu Andrew Small.
A implicação é direta para a Alemanha, cuja base exportadora enfrenta concorrência chinesa crescente, desde os veículos elétricos ao fabrico de maquinaria. A maior economia europeia vive sob pressão de desindustrialização e perda de empregos industriais, à medida que fabricantes chineses melhoram a qualidade dos seus produtos e mantêm preços competitivos.
Durante a visita, Merz pediu ao Presidente chinês, Xi Jinping, um “reajustamento” das relações comerciais, apontando o agravamento do défice alemão, as restrições impostas a empresas alemãs e a necessidade de reduzir riscos em cadeias de abastecimento críticas – em particular a dependência europeia de terras raras chinesas para setores como o automóvel e a Defesa.
“A concorrência entre empresas deve ser justa”, afirmou o chanceler alemão, defendendo “transparência”, “fiabilidade” e “cumprimento de regras comuns”. Merz apelou também para a redução de “subsídios que distorcem o mercado” e da “sobrecapacidade” industrial, sugerindo que uma maior procura interna na China, apoiada por uma apreciação moderada da moeda chinesa, poderia aliviar as pressões protecionistas na Europa.
Xi destacou a importância de preservar a estabilidade da ordem internacional e de reforçar a autonomia estratégica europeia, num momento de tensões entre Pequim e Washington. O líder chinês apresentou a China e a Alemanha como “defensores do multilateralismo” e “do livre comércio”, acrescentando que Pequim “apoia a autossuficiência e a força” da Europa e espera que o continente “trabalhe com a China na mesma direção”.
Apesar do endurecimento retórico, Andrew Small considerou que Merz “não dispõe de um plano para enfrentar a desindustrialização da Europa provocada pelos desequilíbrios chineses e por práticas que distorcem o mercado”.
O analista defendeu que Berlim deve impulsionar uma estratégia europeia integrada para assegurar condições de concorrência equitativas. Embora a União Europeia tenha avançado com instrumentos como legislação industrial, uma doutrina de segurança económica e investigações sobre subsídios estrangeiros, essas iniciativas permanecem dispersas.
Segundo o ECFR, estas medidas devem ser consolidadas numa estratégia coerente e abrangente, capaz de operar “à velocidade e escala” exigidas pelos desafios colocados pela economia chinesa.
Andrew Small recomendou ainda uma coordenação informal com outras grandes economias confrontadas com desafios semelhantes. “Diversificar parceiros comerciais pode ser útil, mas é insuficiente se empresas europeias enfrentarem concorrência chinesa subsidiada ou apoiada pelo Estado em terceiros mercados”, observou.
A terceira dimensão é política: sinalizar uma linha vermelha a Pequim, deixando claro que a Europa defenderá o seu futuro industrial e recorrerá a instrumentos contra a coerção caso a China tente bloquear essa estratégia. Para o ECFR, os líderes europeus têm reiterado preocupações em visitas anteriores a Pequim sem lhes dar seguimento. A visita de Merz representa, assim, uma oportunidade para alinhar discurso e ação e redefinir a credibilidade europeia na gestão da relação com a China. Lusa












