EDITORIAL

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O facto de uma parte da literatura de Macau se escrever em português não tem sido – nunca foi –  suficiente para que a sua circulação pelo espaço da língua portuguesa esteja assegurada. José Carlos Seabra Pereira tem sido um dos obreiros da divulgação dessa literatura de Macau noutros territórios, nomeadamente em Portugal, sendo o seu livro O Delta Literário de Macau um dos pontos altos desse trabalho incansável. Em conversa com o Parágrafo, o professor universitário fala sobre tudo isto, destacando alguns dos nomes maiores da literatura do território, de Henrique de Senna Fernandes a Carlos Morais José, passando por Fernanda Dias, Rodrigo Leal de Carvalho (recentemente falecido) e Yao Feng, que escreve em português e em chinês. Para o futuro fica a hipótese de ampliar esse seu livro fundamental sobre a literatura de Macau, integrando mais autores, incluindo aqueles que nunca viveram no território, mas que escreveram sobre ele de diferentes modos em momentos de passagem, mais breves ou mais longos. 

Valério Romão já tinha dado uma entrevista ao Ponto Final a propósito do lançamento deste seu novo romance em Lisboa, em Novembro do ano passado. Depois de atravessarmos a leitura das suas mais de quatrocentas páginas, um desfile torrencial de personagens que quase podiam reclamar-se herdeiras de um realismo mágico toldado pelo álcool e moldado pela pseudo-meritocracia, onde todos seremos ricos se o quisermos e fizermos por isso, de preferência oferecendo a casa ao Airbnb, quisemos regressar ao assunto agora que a primeira edição de O Desfufador I. Contágio esgotou e que a segunda edição, em formato de bolso, se prepara para chegar às livrarias. É bem possível que o título traga alguma discussão a espaços mais acesa, mas importa registar que o que realmente conta está no miolo do livro, um empreendimento satírico de dimensão considerável a servir de espelho a um certo presente que nos calhou em sorte, sem com isso prescindir de delírios narrativos em direcções inesperadas. 

Nesta edição, contamos ainda com os habituais espaços de crónica, de crítica e de divulgação, reunindo uma selecção vasta de livros para leitores de todas as idades a partir das mais recentes edições chegadas às livrarias. O Parágrafo regressa em Março, desta feita no início do mês, ao contrário do que é habitual. Nessas páginas futuras havemos de antecipar o que nos espera na 15ª edição do Festival Literaturaario de Macau – Rota das Letras. Até lá, boas leituras.