A Universidade de Coimbra (UC) a e a Universidade Politécnica de Macau (UPM) estabeleceram um “Laboratório Conjunto em Inteligência Artificial para a Longevidade Saudável”, com um polo de investigação em Coimbra e outro em Hengqin. Em entrevista ao PONTO FINAL, o reitor da UC, Amílcar Falcão, falou sobre as vantagens científicas na comparação da população idosa caucasiana e asiática, aliando a biomedicina à inteligência artificial, e podendo, a partir dessas conclusões, apostar-se num envelhecimento com menos doenças e, em última análise, numa maior longevidade.
Quais são os principais objetivos deste laboratório?
No caso da Universidade Politécnica de Macau, já tínhamos um laboratório conjunto, desde 2022, na área das ‘smart cities’, e tem funcionado bem. Fomos ganhando uma relação de confiança. Entretanto, estive em Macau no ano passado, e falámos sobre o envelhecimento activo e saudável. É um problema que afecta os países com uma maior percentagem de pessoas idosas na Europa (e no mundo) e na China também há o problema do envelhecimento. No nosso caso, temos um projecto europeu de grande dimensão, que gerou o Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento. Este projecto europeu é um dos maiores que há na Europa e nós trabalhamos bastante, neste momento, nestas áreas do envelhecimento, sob várias perspectivas, na área da biomedicina. O nosso grande objectivo é termos a possibilidade de comparar populações idosas caucasianas e asiáticas — verificar que variáveis é que são mais relevantes para a longevidade e para a qualidade de vida activa mais tarde. Isso é muito importante, porque vai permitir-nos chegar a outro ponto, a área da prevenção do envelhecimento. Com a UPM, estamos a desenvolver medicamentos ou produtos da Medicina Tradicional Chinesa que possam ser testados e eficazes na prevenção de doenças que aparecem com o envelhecimento. O relatório conjunto tem estas duas vertentes: a populacional de envelhecimento ou biomedicina e a vertente de utilização de inteligência artificial para procurar substâncias. Nós, em Coimbra, somos mais fortes na área da biomedicina, na área da experimentação, com animais e células. A UPM é bastante forte na inteligência artificial.
O que é o envelhecimento saudável?
O que tem acontecido, ao longo das últimas décadas, é que as pessoas vivem mais anos. A esperança média de vida tem aumentado. A questão que se levanta é se a pessoa chega a essa idade com qualidade de vida. Toda a gente gostaria de viver mais tempo, mas, estando vivo, não estar em grandes condições físicas ou mentais não é muito agradável. A nossa ideia é que consigamos descobrir mecanismos fisiológicos que permitam que o envelhecimento seja feito com mais qualidade e que as pessoas sejam mais activas, estejam cognitivamente mais aptas e admitimos que, além de outro tipo de estratégias, a utilização de medicamentos preventivos possa ser importante. Nesse sentido, o laboratório conjunto tentará perceber onde é que podemos actuar para que o envelhecimento seja melhor e se possa ganhar anos de vida — e estamos a ganhar anos ao termos mais qualidade de vida. Por outro lado, ter essa tal componente de prevenção. Coimbra irá estar mais a olhar para os mecanismos fisiológicos e Macau estará a olhar mais para novas substâncias que possam ajudar a aumentar a longevidade.
As taxas de envelhecimento em Macau são superiores às de Portugal. Esta colaboração poderá ser importante também para perceber o que diferencia estes dois territórios?
Em Macau há ainda genética portuguesa, mais do que, provavelmente, no resto da China. Seja como for, pretendemos avaliar, no que toca aos mecanismos fisiológicos. Somos diferentes dos asiáticos — as diferenças não são substanciais, mas são ainda muito razoáveis, do ponto de vista bioquímico e genético. Considerando que a genética e a bioquímica não se sobrepõem entre nós, caucasianos, e os asiáticos, queremos perceber, como aquilo que estamos a descobrir e a tentar perceber é equivalente nos dois ou, até que ponto, é que há coisas que são específicas dos caucasianos ou específicas dos asiáticos. Isto para depois termos uma estratégia preventiva faz diferença — na prática, aplicando as mesmas metodologias, fazendo as mesmas experiências a caucasianos e a asiáticos, verificar em que são comuns e em que são diferentes. Depois, perceber, no que são comuns, como se pode actuar e, naquilo que são diferentes, que alternativas é que têm de ser utilizadas. Queremos procurar encontrar soluções para uns e para outros e é mais fácil fazê-lo conjuntamente do que isoladamente.
Mesmo entre a população asiática, há grandes diferenças. Por exemplo, a taxa de envelhecimento é muito maior em Macau do que na China continental. Na vossa investigação, irão também contemplar estas diferenças?
Sim, mas temos de começar por algum lado e o lógico é Macau. Depois, evidentemente, se os projectos correrem bem, se os resultados forem positivos, muito provavelmente alarga-se. Não estamos só a focar-nos nos asiáticos, também queremos ir aos sul-americanos, embora aí os brasileiros, uma parte importante deles, não tem ascendência portuguesa ou os italianos, os alemães e os africanos. Estamos a tentar olhar para diferentes áreas do globo e perceber como, nos diferentes lados, podemos olhar para o que é comparável e prevenir o que for possível prevenir. Neste caso em concreto, como já tínhamos uma experiência muito positiva do outro laboratório conjunto, estamos a avançar para este, que acho que vai ter sucesso, porque vai permitir-nos procurar na Medicina Tradicional Chinesa algo mais que possa ser útil na Europa e no resto do mundo, uma vez que tem havido algumas barreiras à Medicina Tradicional Chinesa ao longo dos anos.
A que barreiras se está a referir?
Começaram por ser físicas, inicialmente, e depois também científicas. A língua chinesa não é fácil de compreender e vice-versa. Depois, políticas também. Temos uma geopolítica hoje que não é a mesma de há 20 anos e de há 100 anos.
Esta investigação partirá da genética?
O nosso foco não é genética, também é genético, mas é fundamentalmente bioquímico.
Mas, além da genética, há outros factores sociais, económicos e políticos que influenciam também o envelhecimento saudável. Vão também estudá-los?
Os projectos que fazemos, hoje em dia, principalmente na Europa, têm sempre estas componentes associadas, até por uma questão de legislação. Certamente iremos ter em consideração o ambiente, a alimentação e a qualidade de vida. Tudo isso são variáveis para uma análise estatística mais profunda e que, agora com a inteligência artificial, nos permite ir mais longe no conhecimento e na identificação de padrões comportamentais. Aí temos um campo muito grande — iremos trabalhar com dois braços, um caucasiano e o asiático, e depois misturar as coisas, e perceber o que é comum, o que não é comum e de que forma é que podemos actuar.
Que mais-valias é que a inteligência artificial pode trazer neste campo do envelhecimento saudável?
Desde logo, naquela que é mais óbvia, o desenvolvimento de substâncias que possam ser utilizadas para prevenir o envelhecimento. O tempo necessário para afinarmos uma molécula que tenha interesse terapêutico é muito reduzido quando utilizamos inteligência artificial, porque, embora a metodologia seja mais ou menos a mesma, a velocidade a que tudo acontece é infinitamente superior. Conseguimos muito rapidamente identificar moléculas que possam ter interesse e, a partir daí, andar à volta delas e procurar a melhor desse grupo. No caso do que referia, que tem a ver com o ambiente, o comportamento, a componente social, os hábitos alimentares, quando cruzamos valores muito importantes também aí a inteligência artificial vai permitir muito mais rapidamente identificar padrões e permitir criar sub-grupos de indivíduos com determinadas características, que depois podemos avaliar se devem ou não ser separadas dos outros, através de testes. Mas isso só irá ser daqui a algum tempo, ainda estamos longe dessa fase. Primeiro, temos de perceber onde estão as diferenças, onde estão as variáveis, como elas influenciam e como as podemos controlar. Já temos bastante trabalho feito, mas falta muito para identificar outras coisas. Isso leva tempo, sem prejuízo de, na componente de novas substâncias preventivas, ser possível começar a trabalhar. O laboratório vai estar a trabalhar, tanto em Macau como em Coimbra, desde o dia 1. Já começou, já vinha de trás e vamos colaborar mais.

No fundo, há mais uma área de colaboração?
Mais uma área para colaborar — naturalmente, com pessoas de Macau a virem para Portugal e com pessoas de Portugal a irem para Macau. Vamos aumentar a internacionalização — neste caso, com um território com o qual temos afinidade e que também é um território representativo, do ponto de vista genético, de uma composição um pouco diferente da nossa.
Olhando para a Ásia, sabendo que alguns países têm uma taxa de longevidade bastante alta, em comparação com a Europa, há alguns factores que justificam essa diferença?
A alimentação é substancialmente diferente. Na Europa come-se mais e pior: produtos processados, carne e muitos enchidos. Além disso, há hábitos do dia a dia, desde a higiene ao tabaco, em que há diferenças. Já alguém atingiu 100 anos, sendo obeso? Ninguém. A obesidade é um problema e está muito relacionada com a alimentação. Quando vamos para a obesidade, estamos a entrar no campo da bioquímica, estamos a avaliar o colesterol e outro tipo de marcadores. Sabemos que há vários comportamentos alimentares, várias substancias que temos na nossa dieta que interferem na qualidade de vida e na longevidade. Isso já sabemos, mas temos de ir além.
A tendência no mundo é as taxas de natalidade estarem a diminuir e termos uma população mais envelhecida. É, por isso, também particularmente importante apostar nesta área de investigação?
Sim. Aqui em Coimbra andamos a estudar este assunto há duas décadas, mas tem-se acentuado muito, porque a pirâmide de idade está completamente invertida. Temos muito menos nascimentos. Temos uma percentagem de pessoas acima dos 75 anos maior do que a percentagem de pessoas até aos 25 ou 30. Isso é um problema muito sério do futuro. Isto aqui, na Europa, tem outras ramificações, tem a ver com a questão das reformas e da segurança social. Temos, muito provavelmente, que caminhar para idades de trabalho muito mais avançadas ou não há sustentabilidade. Por outro lado, o que gastamos na saúde da população começa a ser insustentável. Temos de evitar que as pessoas vão tantas vezes parar ao hospital por coisas que poderiam ser prevenidas. A prevenção desempenha aí um papel fundamental na saúde global. Aqui, na Universidade de Coimbra, acabámos, há duas ou três semanas, de inaugurar o Observatório Nacional da Saúde Global, que está ligado em rede às melhores universidades do mundo, justamente porque a saúde global é um problema. A questão do envelhecimento é um problema de saúde global, com impacto grande na sociedade. À medida que temos mais gente com mais idade, as patologias associadas aparecem e com isso há mais gente a necessitar de internamentos, de medicamentos e de consultas médicas. Não é sustentável. Do ponto de vista prático, temos de arranjar estratégias para que, por um lado, essas pessoas tenham menos paragem na sua actividade. Temos de aumentar a natalidade e evitar que as pessoas mais velhas consumam tantos recursos nos sistemas de saúde. A solução não é não tratar das pessoas, é tentar prevenir que coisas aconteçam.












