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      Início Entrevista “Ao fim de todos estes anos o interesse pelo blogue por parte...
      João Botas

      “Ao fim de todos estes anos o interesse pelo blogue por parte dos leitores não esmoreceu”

      O blogue Macau Antigo acaba de ultrapassar a marca de dois milhões de visualizações. Com quase 15 anos de existência – comemora em 2023 –, o espaço na Internet gerido por João Botas é lugar de culto para quem se interessa pela história e cultura de Macau. Em entrevista ao PONTO FINAL, o jornalista português referiu que o maior desafio nestes anos é manter o blogue dinâmico. “O maior desafio é constante. Publicar um novo post todos os dias - já foram mais de 5.200 - e conseguir que os leitores o considerem interessante a ponto de continuarem a visitar o blogue.”

      Passou por Macau durante os anos de 1980. Regressou a Portugal no início da década seguinte, anos antes da transferência de Administração do território para a China. Confessa que Macau nunca saiu dentre dele. O jornalista da RTP é o autor do blogue Macau Antigo, que acaba de atingir a surpreendente marca de dois milhões de visualizações, e acedeu conversar um pouco sobre a página com o PONTO FINAL, mas não só. A sua experiência em Macau, os seus planos para o futuro e outras temáticas também foram abordadas na entrevista.

       

      Quase a fazer 15 anos de existência na Internet – comemora em 2023 -, que balanço faz destes anos dedicados a Macau através do blogue Macau Antigo?

      Sinto uma satisfação imensa por até agora, julgo, estar a cumprir os objectivos a que me propus. Ou seja, divulgar a história de Macau através de uma linguagem simples e com recurso sempre que possível a elementos iconográficos. Porventura o maior prazer é quando consigo encontrar respostas a quem me procura com as mais diversas perguntas, desde a data de uma inauguração a informações sobre familiares, nomeadamente militares que tenham estado em Macau. E isso já ocorreu inúmeras vezes. O maior desafio é constante. Publicar um novo post todos os dias – já foram mais de 5.200 – e conseguir que os leitores o considerem interessante a ponto de continuarem a visitar o blogue. No domínio das publicações na Internet existem muitos projectos, mas a esmagadora maioria dura pouco tempo. Julgo que 15 anos de existência do blogue Macau Antigo é uma prova de longevidade fruto de um trabalho sério que tem sido muito bem recebido pelos mais diversos públicos e em todas as partes do mundo.

       

      Continua a fazer sentido reservar tempo da sua vida a este projecto?

      Claro que sim, não obstante algumas situações de sacrifício pessoal e profissional em termos do tempo que dedico às pesquisas e à escrita. Chego a fazer centenas de quilómetros para visitar um determinado museu ou biblioteca ou para me encontrar com alguém que tem à venda algum documento ou livro sobre Macau. Mas faço-o com todo o gosto. Também tenho alguns casos em que são as pessoas que me procuram para doar um ou outro objecto por considerarem que fará mais sentido a sua divulgação do que permanecer no sótão ou na garagem sem qualquer uso. Só posso estar grato por isso e faço por honrar a confiança que depositam em mim. Julgo que a melhor prova de que o blogue Macau Antigo continua a fazer sentido é o número de visitantes que de uma forma geral tem-se mantido constante ao longo destes 15 anos. Estamos a falar de uma média diária que ronda os 500 leitores. Para um projecto deste género, passe alguma imodéstia, acho que é significativo. E também não é de menor importância a proactividade de muitos leitores que não se limitam a ler. Apontam eventuais lapsos ou falhas e fazem perguntas porque querem saber mais. Basta aceder à página dos comentários para o comprovar.

       

      Atingir dois milhões de visualizações é um marco. O que podemos esperar do futuro?

      É, de facto, um marco, embora para mim não seja o mais importante. O que é mais relevante é que ao fim de todos estes anos o interesse pelo blogue por parte dos leitores não esmoreceu, antes pelo contrário. Para além do constante número de leitores é rara a semana em que não recebo pedidos de informações sobre a história de Macau, desde jornalistas a estudantes, investigadores, professores, escritores… das mais variadas nacionalidades. Quanto ao futuro, este projecto, pela sua natureza, só acaba quando por algum motivo não o puder fazer. No limite, até posso calendarizar as publicações para um tempo em que já cá não esteja. Já houve quem me desafiasse a passar algumas histórias do blogue para um livro. Terei todo o gosto, mas para isso é preciso que sejam reunidas as condições financeiras para o fazer. Sinceramente, não é uma prioridade para mim. Mantenho a ideia de um dia fazer uma exposição com os milhares de objectos que reuni ao longo dos últimos 30 anos – postais, bandeiras, mapas, caixas de fósforos, moedas, notas, cheques, slides, fotografias, lai si’s, selos, panfletos, guias turísticos, livros, revistas, jornais, etc… – e que retratam o quotidiano de Macau ao longo do século XX. Até já tem título: “Macau Memorabilia”. Caso não seja possível, mais cedo ou mais tarde, hão-de ir parar a alguma instituição do território que mostre interesse em adquirir esta colecção. Talvez o Museu de Macau.

       

      Que países ou regiões leem o Macau Antigo?

      Segundo os dados estatísticos da plataforma onde o blogue Macau Antigo está alojado – o Blogger -, desde 2008 o blogue já teve mais de dois milhões de visitantes. Tem uma média diária que ronda os 500 visitantes. Os leitores estão espalhados pelos quatro cantos do mundo. No top 10 temos Portugal, EUA, Macau, Brasil, Rússia, Alemanha, Hong Kong, Suécia, Itália e França. Os leitores de Portugal representam quase um terço do total. Dos Estados Unidos, Brasil e Hong Kong acredito que sejam sobretudo macaenses da diáspora. Também os há com origem na Austrália. Tendo em conta as mais de cinco mil publicações, arrisco afirmar que o blogue é actualmente o maior acervo documental online sobre a História de Macau. E não apenas em português, já que de vez em quando publico também em chinês e inglês.

       

      Como já foi dito anteriormente, o Macau Antigo prepara-se para comemorar 15 anos. O que está a preparar para essas comemorações?

      Todos os anos tenho realizado passatempos onde, com o apoio de mecenas, ofereço livros sobre Macau ou bilhetes para museus. Até agora já foram oferecidos mais de uma centena de livros. Este ano pretendo fazer o mesmo. E pode ser que surja alguma surpresa. Vamos ver… Vai depender muito dos patrocínios. Já chegaram a ser uns cinco ou seis em simultâneo, mas nesta altura é apenas um. Talvez à primeira vista se ache que não tem grandes despesas, mas tem. Deslocações, aquisição de livros e outros documentos, digitalizações, material informático que vai ficando obsoleto, etc…

       

      O João tem alguma história ou alguma fotografia na gaveta, inédita, que ainda não divulgou no blogue?

      Tantas. O espólio que fui reunindo ao longo dos anos é imenso. Desde mapas, fotografias, manuscritos, cartas… Tenho, por exemplo, uma colecção de mais de dois mil slides que são um registo iconográfico exaustivo e único de como era Macau na primeira metade da década de 1980. Se não existir nos arquivos oficiais de Macau estou disponível para os ceder. Em termos de histórias que estou a preparar, ocorre-me agora, por exemplo, um momento raro na história da arte no território. Uma altura em que os pintores George Chinnery, Auguste Borget e William Prinsep estiveram juntos em Macau no ano de 1838. A pintura do século XIX, aliás, tem sido uma área à qual nos últimos tempos tenho dedicado bastante atenção e há ainda muito para investigar, nomeadamente no denominado período “China Trade”.

      Para quem ainda não sabe, porquê Macau? Qual é a sua história e a sua ligação ao território?

      A minha ligação a Macau remonta à década de 1980 quando ali vivi durante a juventude e estudei no Liceu Nacional Infante Dom Henrique. Ainda comecei no edifício do tempo do Estado Novo (inaugurado em 1958) que existia na baía da Praia Grande, entre os hotéis Sintra e Lisboa. Foram anos muito intensos, desde a prática de várias modalidades desportivas, até ao envolvimento activo na Associação de Estudantes e Comissão de Finalistas. Foi também nesse período que dei os primeiros passos no mundo da comunicação e me tornei jornalista, na TDM – Rádio Macau. Participava com assiduidade nos passatempos de programas como o “Banzé”, do Luís Machado/João Amorim, “A Arca do Velho” (acho que era este o nome…), do José Moças e o “San Ma Lou”, do João Severino, entre outros. Quando lá ia levantar os prémios passei a conviver com todos aqueles profissionais e com o saudoso amigo Carlos Costa, com quem cheguei a colaborar num programa nocturno de discos pedidos, o “Contacto 2021”. Foi assim que tudo começou. Saí de Macau no início da década de 1990, mas Macau não saiu de mim. Foi um regresso extremamente difícil em termos emocionais. Identificava-me mais com Macau do que com Portugal. Nos primeiros tempos fui voltando praticamente todos os anos ao território já que era aí que a minha família vivia até que já na segunda metade dessa década me fixei em Portugal. Foi a decisão mais difícil da minha vida. Optei por privilegiar uma formação superior para estar melhor preparado, até para um eventual regresso a Macau. Esteve para acontecer por diversas vezes, mas acabei por ficar em Portugal. Nos primeiros anos do século XXI, não consigo explicar bem o porquê, talvez as saudades, dei por mim a querer saber mais sobre a história de Macau procurando respostas para a minha tão profunda ligação ao território. Neste aspecto teve de certeza influência o facto de ter tido a sorte de ser aluno da professora de História Beatriz Basto da Silva, um ser humano e uma docente de qualidades excepcionais, que todos os anos me telefona na altura do meu aniversário. Tudo começou com as pesquisas que efectuei para o livro “Liceu de Macau 1893-1999”, uma edição de autor que viu a luz do dia em 2007. O manancial de informação que encontrei era tão vasto e tão rico que não resisti. Como escrevi na altura, o intuito era (e é) muito simples: uma homenagem de um ‘filho da terra’ adoptivo a uma terra ímpar. E também para que, principalmente junto dos portugueses de Portugal, a ‘imagem’ de Macau deixasse de ser a que sempre foi, no meu entendimento: um misto de desconhecimento e desinteresse. O mote era, também ele, simples: contar ‘histórias’ que fizeram a História de Macau, do século XVI ao séc. XX, privilegiando a imagem.

       

      Há quanto tempo não vem a Macau?

      Salvo erro, há uns cinco ou seis anos. A pandemia tem impedido o tão desejado regresso. Mas irei voltar muito em breve. Até porque, por mais que a cidade mude, quando aí vou, sinto-me em casa. Como se estivesse onde nasci.

       

      Se tivesse que escolher os três principais factos históricos sobre Macau, quais destacaria?

      Numa história tão longa e tão rica é difícil seleccionar apenas três. É sempre muito subjectivo. Mas cá vai. No século XVII as viagens anuais da chamada “Nau do Trato”, de Goa para Nagasaki, com escala em Macau, e tudo o que esse comércio representou para o território; o período de governação de Ferreira do Amaral, em meados do século XIX, por todas as mudanças profundas que produziu; no século XX, os anos dolorosos da guerra sino-japonesa e da segunda guerra mundial, sobre os quais escrevi um livro, “Macau 1937-1945: os anos da guerra”, que segundo julgo saber está esgotado.

       

      A grande maioria das pessoas que passou por Macau nunca consegue esquecer ou desligar-se por completo do território. Porque é que isso sucede?

      Mistério. Aplica-se bem a expressão “primeiro estranha-se, depois entranha-se” e nunca mais sai de nós. Para além da lenda da ‘água do Lilau’, o que acredito é na condição singular da história de Macau que não deixa ninguém indiferente. Só em termos de presença portuguesa são quase cinco séculos com alguns percalços, é certo, mas sempre sem guerra e com uma coexistência pacífica entre povos tão diferentes que deveria ser um exemplo para o mundo, mas que infelizmente, nos dias actuais, sabemos não o ser. Ao contrário do que diz o ditado popular, acho que devemos sempre voltar ao lugar onde fomos felizes. E a verdade é que ao longo dos tempos, de uma forma geral, Macau sempre proporcionou boas condições de vida a quem, mais ou menos tempo, aí viveu. No meu caso, vivi aí toda a minha juventude pelo que é natural que tenha sido um período bastante marcante. Em suma, cada um à sua maneira terá uma explicação para a ligação tão especial ao território.

       

      Como é o processo de criação do blogue. Com que periodicidade escreve e publica no blogue?

      Publico um novo ‘post’ todos os dias. Nos primeiros tempos do blogue até publicava mais do que uma vez ao dia. A ideia para um ‘post’ pode surgir das mais variadas formas. Desde algo que vejo num filme, a uma foto na Internet, uma determinada passagem num livro (pode nem ser sobre história), pedidos dos leitores, etc… No domínio da pesquisa histórica as pistas para futuras pesquisas são muito frequentes até porque a realidade não é estanque, é dinâmica. Na minha opinião, a imagem, seja ela qual for, fotografia, gráfico, ilustração, é essencial para um projecto desta natureza. Atrai o leitor, contextualiza, acrescenta valor à mensagem que se pretende transmitir.

       

      Por diversas vezes afirmou que gostaria de se dedicar ao blogue a tempo integral. O blogue retira-lhe o tempo de jornalista na RTP ou a sua profissão ainda é o foco principal? Tem noção de que o hobby tem crescido em comparação com a profissão?

      A minha profissão de jornalista é, naturalmente, o foco principal. É uma tarefa muito exigente e de muita responsabilidade onde não há margem para o erro. Mas com planeamento, disciplina e trabalho tenho conseguido conjugar ser jornalista em televisão com a actividade do blogue que requer muito tempo da minha parte na medida em que todos os dias publico uma história nova. Como costumo dizer aos meus sobrinhos, que nasceram em Macau, que quando se quer tudo é pretexto, quando não se quer tudo é desculpa.

       

      Para além do blogue, que outras ferramentas utiliza para partilhar histórias, documentação e fotografias de Macau?

      Também recorro às redes sociais, nomeadamente ao Facebook. Neste aspecto é curioso notar que nos últimos anos tem aumentado de forma significativa o número de adesões por parte de cidadãos de origem chinesa nascidos em Macau. São muito curiosos sobre a história da terra onde nasceram e por vezes têm dificuldade em perceber certos documentos cuja matriz é a língua portuguesa. Pedem-me ajuda com frequência e procuro sempre ajudar na medida das minhas possibilidades. Já são alguns milhares os leitores registados no blogue e nas redes sociais. E claro, também ocorrem situações em que sou eu a pedir ajuda. Não sei nem nunca saberei tudo sobre a história de Macau. Aliás, reconhecer que não se sabe é o primeiro passo para o conhecimento.

       

      Macau Antigo. Até que ano o João considera que Macau é antigo? 1999?

      Na análise histórica é essencial o distanciamento temporal face ao objecto de estudo. Daí a opção. Optei por 1999 tendo em conta o marco histórico que a data encerra, mas podia ter optado, por exemplo, por abordar apenas desde os primórdios até ao final do século XIX. Foi uma opção premeditada. Tinha de delimitar o raio de acção sob pena de me dispersar por temas que, diria, precisam que a poeira assente para que possam ser enquadrados historicamente.

       

      Quem foram as pessoas e/ou instituições que, desde 2008, o têm ajudado a prosseguir este sonho?

      Felizmente muitas, mas infelizmente poucas de forma persistente. Peço desde já desculpa por alguma falha de memória, mas refiro o Instituto Cultural de Macau, a Fundação Jorge Álvares, o Banco Nacional Ultramarino, a Fundação/Museu do Oriente, o Instituto Internacional de Macau, o Conselho das Comunidades Macaenses, o Jornal Tribuna de Macau e a Delegação do Turismo de Macau em Portugal, cuja infeliz extinção ocorreu recentemente.

       

      Se pudesse voltar no tempo, que momento da história ou que personagem gostaria de viver ou conhecer?

      Com acesso a uma máquina do tempo são muitos os momentos em que gostaria de viver: a chegada e assentamento dos portugueses no século XVI, o período dos cules e comércio do ópio nos séculos XVIII e XIX, os anos em que Macau foi porto de abrigo para milhares de refugiados nos anos 30 e 40 do século XX, o período que se seguiu, nomeadamente o comércio do ouro e fazer uma daquelas viagens aéreas entre Macau e Hong Kong que duravam cerca de 15 minutos e os anos que se seguiram à subida ao poder do Partido Comunista na China, em 1949.

       

      Algum livro na calha para breve?

      Não desisto de ver editado uma verdadeira história ilustrada do turismo em Macau. Ando há vários anos, nos tempos livres, a pesquisar e a escrever. Já solicitei apoios, já me candidatei a bolsas de investigação, mas até agora, nada. Algumas recusas e muitas não respostas. Como inexplicavelmente não tenho direito a BIR, ainda mais difícil se torna, para não dizer impossível, aceder a apoios oficiais do Governo e/ou outras instituições oficiais. O que for será. Recordo que no caso do meu último livro (Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931) também me foi recusada uma bolsa e depois o Instituto Cultural fez questão de editar a obra. Como diria um macaense no seu maravilhoso patuá: “Macau sã assi!”. Há muito por revelar na área do turismo, tão essencial para perceber o que Macau é hoje, desde os primeiros passos para a legalização do jogo, aos primeiros hotéis do território, que são muito anteriores – cerca de 100 anos – ao antigo Hotel Boa Vista do final do século XIX.