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      “Pensamos que a comunidade macaense é unida, mas percebi que está segregada de muitas formas”

      Catherine S. Chan é a autora de “A Diáspora Macaense em Hong Kong: Um Século de Deriva Transimperial”, livro a ser lançado a 11 de Novembro. Na obra, a professora de História na Universidade de Macau analisar os fluxos migratórios da comunidade macaense para Hong Kong durante o século XIX. Em entrevista ao PONTO FINAL, Catherine S. Chan diz que uma das conclusões da sua investigação é a de que “os macaenses são mais complexos do que aquilo que pensávamos”.

      “The Macanese Diaspora in British Hong Kong: A Century of Transimperial Drifting”, ou, em português, “A Diáspora Macaense em Hong Kong: Um Século de Deriva Transimperial”, será lançado no dia 11 de Novembro, na Livraria Portuguesa. O livro fala sobre os movimentos migratórios da comunidade macaense até à região vizinha, num período em que os dois territórios eram administrados por portugueses e britânicos, respectivamente. Catherine S. Chan, doutorada em História pela Universidade de Bristol e actualmente professora assistente de História na Universidade de Macau, explicou ao PONTO FINAL que esta mudança de um império para outro provocou mudanças de identidade dentro da comunidade macaense. Isso, por sua vez, segregou a comunidade, aponta. “Percebi que a migração muda identidades”, refere. “[Os macaenses que foram para Hong Kong] encontraram um espaço onde podiam ser os líderes prestigiados da chamada ‘comunidade portuguesa de Hong Kong’. Mas, ao fazer isso, excluíram as comunidades das classes mais baixas. Houve aí uma segregação”, aponta a historiadora.

       

      A que conclusões chega com este livro?

      A maior conclusão a que chego talvez seja o quão diversa a comunidade macaense é. Muitas vezes, quando falamos na comunidade macaense, as pessoas pensam apenas em pessoas de Macau ou ligadas aos portugueses, os “filhos da terra”. No entanto, pela minha investigação, percebi que a migração muda identidades. O meu foco é a mudança de um império para outro, o que acontece quando passamos de território português para o império britânico. Isso provocou mudanças de identidade, como a anglicização e a educação inglesa. A conclusão é que os macaenses são mais complexos do que aquilo que pensávamos. Nós pensamos que a comunidade macaense é unida, mas percebi que está segregada de muitas formas, por classes, por exemplo. Mesmo dentro dos macaenses de Hong Kong, havia uma segregação. O Club Lusitano foi criado porque havia um grupo de macaenses de classe média que não conseguiam ter popularidade e prestígio em Macau e, por isso, foram para Hong Kong, onde tudo estava a começar. Encontraram um espaço onde podiam ser os líderes prestigiados da chamada “comunidade portuguesa de Hong Kong”. Mas, ao fazer isso, excluíram as comunidades das classes mais baixas. Houve aí uma segregação.

       

      A investigação abrange que período de tempo?

      Começa nos anos 1840. O primeiro capítulo começa em Macau. Tive de explicar a razão pela qual eles foram para Hong Kong. Teve a ver com o facto de Macau se ter tornado cada vez mais desinspiradora, havia um problema de degradação urbana, muitos investigadores dizem que Macau estava em decadência. Eu não concordo, porque Macau também encontrou oportunidades. Mas havia um grupo de oligarcas, composto por portugueses e macaenses que controlava o Leal Senado, e as pessoas comuns não tinham oportunidade para atingir esses trabalhos. Havia também um problema de falta de formação. E foi isso que fez com que eles fossem para Hong Kong. O resto do livro foca-se nas mudanças de identidade desde 1842, que foi o ano em que Hong Kong se tornou britânica, até antes da Segunda Guerra Mundial.

       

      Como fez a investigação para este livro? Que fontes usou?

      Eu recolhi materiais em diferentes locais. Nos arquivos de Lisboa e também nos arquivos de Macau, Austrália. Há dois arquivos especiais que eu usei e que tornaram este livro possível. O primeiro é a Colecção Braga, do descendente de JP Braga, um popular macaense em Hong Kong, que doou documentos ao arquivo. Tive de analisar o que é que o preocupava. Há outro de Hong Kong, da família Barreto, que tem um arquivo privado e que nunca ninguém usou e que eu tive o privilégio de visitar.

       

      O que é que a fez escrever este livro? Porquê este tema?

      O tema surgiu depois de eu ter começado a trabalhar nisto, mas eu sabia que queria trabalhar nas mudanças de identidade. Eu nasci em Hong Kong e, quando era bebé, fui para as Filipinas, porque os meus pais tinham lá um negócio e estavam a viver lá. Por isso, eu cresci numa condição semelhante, no sentido em que me diziam que a minha terra era Hong Kong, no entanto, passei toda a minha infância nas Filipinas, em Manila. Quando nos mudámos para Hong Kong eu não me adaptei, era como se estivesse entre dois mundos diferentes. Foi isso que me inspirou a colocar-me no lugar da comunidade macaense. Eventualmente, o que eu queria escrever era uma história centrada no elemento humano. Tem também a ver com poder e dinheiro, mas não tem a ver com a política. Tem a ver com um espaço humano. Todos precisamos de sobreviver e, se eu mudo a minha identidade, é porque eu quero sobreviver, quero ganhar dinheiro e ser popular.

       

      Além do que já disse, há alguma forma de descrever os macaenses que foram para Hong Kong no século XIX?

      Não consigo defini-los em uma frase. Mas podemos classificá-los de acordo com a sua geração. A primeira geração de migrantes ainda tinha uma ligação a Macau, ainda tinha família em Macau, publicava jornais em língua portuguesa em Hong Kong e falava de questões relacionadas com Macau. Mas nos anos de 1860 ou 1870, os filhos deles já nasceram em Hong Kong. No final do século XIX, os filhos já estavam crescidos, foram educados em Hong Kong e, pelos anos 1920 ou 1930, eles já viam Hong Kong como a sua casa, viam-se como cidadãos da colónia britânica, não da nação portuguesa ou de Macau.

       

      De alguma forma, deixaram de se sentir portugueses?

      Depende de cada família. Havia famílias que ainda ensinavam português às crianças, mas era mais o português patuá. Muitos dos portugueses que cresceram em Hong Kong deixaram de falar a língua portuguesa. O catolicismo deve ter sido a única coisa que eles preservaram. Até hoje, quando vamos a Hong Kong, vemos macaenses, mas nem percebemos que são macaenses. No Club Lusitano eles têm orgulho de terem estado em território britânico. “Posso ser britânico quando eu quiser e posso ser português quando eu quero”, é o que eles dizem. Esse é um ponto que ainda se aplica hoje.

       

      Já falou sobre a falta de oportunidades em Macau, mas há mais algum motivo pelo qual os macaenses tivessem ido para Hong Kong no século XIX?

      A degradação urbana e a falta de oportunidades e educação e Macau. Isso não é bom para quando se tem uma família. Depois da Primeira Guerra do Ópio, muitas empresas estrangeiras deixaram Cantão e Macau e foram para Hong Kong. Muitos destes macaenses que foram os primeiros colonos em Hong Kong trabalhavam para empresas e oficiais britânicos. Quando eles se mudaram para Hong Kong, é natural que tenham ido também.

       

      Deixando Macau, o que é que eles encontraram em Hong Kong? Como foi a sua integração?

      O mais importante é que eles encontraram novas oportunidades de vida. Havia mais espaço para respirar. Em Macau, eles estavam a ser controlados. Em Hong Kong, eram uma comunidade marginalizada. Os britânicos estavam preocupados em controlar os chineses, para se certificarem de que não iam contra eles. E os macaenses estavam à margem disso, o que lhes deu espaço para se transformarem.

       

      Em que condições é que eles viviam, em Hong Kong?

      No início, viviam perto da primeira catedral católica de Hong Kong. Mais tarde, surgiu um plano para construir um edifício só para macaenses, mas isso não aconteceu. Eles beneficiavam porque trabalhavam para empresas estrangeiras e o salário não era baixo. Os macaenses falavam cantonês, português, e tornaram-se muito úteis em Hong Kong. Não havia competição, porque eles eram necessários como trabalhadores de classe média. Eram muito importantes para os britânicos. O dinheiro que ganhavam em Hong Kong era algo que não conseguiam obter aqui. A educação que Hong Kong proporcionava para os seus filhos também era algo que eles não conseguiam ter em Macau.

       

      Logo após 1840, quantos macaenses terão ido para Hong Kong?

      Menos de 100 na primeira década. Em 1862, havia mais de 1.200. Foi um crescimento gradual.

       

      Como é que os ‘hongkongers’ receberam a comunidade macaense?

      Não nos podemos referir a ‘hongkongers’ naquela época. Os macaenses, especialmente aqueles do Club Lusitano, fizeram parcerias com os britânicos. Com a população chinesa, havia uma distância. Em 1842, Hong Kong era uma ilha vazia. Toda a gente foi para lá e toda a gente começou a construir as suas casas. Quem vai assimilar-se a quem? No final do século XIX, o Governo começa a promover a educação britânica e é aí que a assimilação começa. Os pais dizem aos filhos que é melhor aprender inglês, o português não vale de muito, não serve para arranjar empregos. Isso entra na mente dos macaenses e é aí que acontece a assimilação.

       

      Voltando à ideia de que a comunidade macaense estava segregada, na apresentação do livro lê-se que os “macaenses associaram-se livremente a diversas identidades e prestaram fidelidade a múltiplas filiações comunitárias, políticas e cívicas”. Porque é que isto aconteceu? Porque é que a comunidade macaense se dividiu tanto?

      Isso é o que acontece. Hoje vivemos as nossas vidas pertencendo a diferentes comunidades. Eu não sou apenas chinesa ou filipina, eu mudo dependendo de onde estou. Depende daquilo de que necessitavam. Os membros do Club Lusitano queriam fazer negócios com os britânicos e, ao mesmo tempo, queriam ser líderes da comunidade portuguesa. Podemos ver que, por vezes, a sua filiação não tem a ver com o facto de gostarem de Portugal, havia algo além disso. Eles queriam mostrar que eram representantes de Portugal em Hong Kong e eram os líderes da comunidade.

       

      Não seria de esperar que a comunidade se mantivesse unida por ser originária do mesmo sítio?

      Isso é verdade. Ainda havia alguma ligação entre eles, mas eles tinham algumas diferenças. Por exemplo, em 1929, houve um grupo chamado Liga Portuguesa de Hong Kong, que se formou para contrariar a anglicização dos macaenses. Eles sabiam que se estão a tornar diferentes mas queriam mudar isso, para que os macaenses fossem mais portugueses, mais patrióticos. Eles sabiam que tinham de se unir, mas estavam a separar-se. Algumas pessoas acharam que deviam fazer algo para se aproximar.

       

      Mas acabou por não resultar…

      Não (risos).

       

      Pode estabelecer-se uma comparação entre a diáspora macaense para Hong Kong no século XIX e a diáspora macaense actual?

      Ainda há macaenses a migrar para Hong Kong? Acho que não há muitos. Mas actualmente há uma comunidade estável em Hong Kong. O Club Lusitano é um grupo de pessoas muito unido, e também há o Club de Recreio. Na altura, o Club Lusitano e o Club de Recreio representavam dois grupos de pessoas diferentes, mas agora eles estão muito unidos. Depois de tantos anos perceberam que fazem parte do mesmo grupo. Ainda assim, consideram-se diferentes dos macaenses de Macau.