Vício do jogo em Macau cresce entre a população não residente

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FOTOGRAFIA ELOI CARVALHO

O perfil das pessoas com dependência de jogo em Macau parece estar a mudar. Um relatório do Instituto de Acção Social (IAS) referente aos casos de vício do jogo no primeiro semestre de 2024 dá conta de jogadores cada vez mais velhos e, na sua maioria, não residentes. No total, foram identificados 94 indivíduos afectados por este distúrbio psiquiátrico nos primeiros seis meses do ano.

Macau registou 94 casos de vício do jogo entre Janeiro e Junho deste ano, menos 14 casos do que no período homólogo do ano passado. Pela primeira vez desde que há registo, mais de metade dos jogadores não eram titulares do Bilhete de Identidade de Residente de Macau, confirmando uma tendência crescente de distúrbios do jogo entre a população não residente da região.

Os dados foram avançados pelo Instituto de Acção Social (IAS) num relatório do sistema de registo central dos indivíduos afectados pelo distúrbio do vício do jogo, que recua até ao ano de 2011. Dos 94 casos reportados ao organismo no primeiro semestre deste ano, a grande maioria (77,66%) continuava a corresponder a jogadores do sexo masculino, enquanto 21,28% eram mulheres. Ainda assim, a percentagem de jogadoras afectadas pelo vício do jogo cresceu consideravelmente entre 2024 e 2025, com uma subida de aproximadamente 77%. Foram ainda registados 1,06% jogadores não identificados através das linhas de aconselhamento telefónicas ou ‘online’.

No que respeita à faixa etária dos jogadores, observou-se um envelhecimento do perfil dos indivíduos que sofrem de dependência do jogo no território. Desde que há registo, a média de idades nunca tinha sido tão elevada, passando dos 38,8 anos calculados no período homólogo para a média de 44,07 anos dos últimos registos. Embora o grupo entre os 30 e os 39 anos continue a ser aquele com maior expressividade no relatório, os grupos de jogadores entre os 40 e os 49 anos e os 50 e os 59 anos cresceram ligeiramente no último semestre, com subidas respectivas de 7,21% e 3,23%. Destaque ainda para uma fatia de 38,30% dos jogadores, cujas idades não são conhecidas.

Continuando a analisar o relatório do IAS, observa-se que apenas 48,94% dos jogadores possuíam Bilhete de Identidade de Residente da RAEM – menos de metade, portanto, perfazendo a mais baixa percentagem desde que há registo. Desde 2011 e até 2023, esta percentagem oscilou entre um mínimo de 74.55% (em 2019) e um máximo de 94.87% (em 2021), começando a baixar nos anos subsequentes para 69.23% (em 2023) e 58,65% (em 2024).

A grande maioria (78.72%) dos jogadores tinha emprego, sendo que 9,52% desta população exercia funções relacionadas com a indústria de jogo e 2,38% eram croupiers. Os motivos do jogo estão principalmente relacionados com dificuldades financeiras (29,14%), embora alguns indivíduos citem o “entretenimento” (17,14%) e a necessidade de “desanuviar” (17,71%) como outras causas na origem do vício.

Apesar de a expectativa de resolver dificuldades financeiras ser um dos grandes atractivos da indústria do jogo, os dados do IAS revelam que esta abordagem não se revela eficaz: 70,21% dos jogadores dizem ter contraído dívidas ainda por saldar, um número idêntico ao do primeiro semestre do ano passado. Em comparação com este período, registaram-se aumentos na quantidade de jogadores com dívidas entre 100 mil e 250 mil patacas (27,27%, mais 12,08%) e entre 250 mil e 500 mil patacas (15,15%, mais 3,46%).

O bacará continua a ser o jogo de eleição dos indivíduos identificados pelo IAS, atingindo neste semestre a percentagem recorde de 57,26% – mais 12,61% em comparação com os mesmos meses de 2024. O organismo cita também um aumento no número de apostas em desportos como o futebol ou o basquetebol (9,40%, mais 2,48%), ao passo que o interesse nos jogos de ‘sic po cussec’ e de máquinas de póquer declinou.

Após uma avaliação dos dados recolhidos, o IAS classificou 15,38% como casos de distúrbio do vício do jogo em grau ligeiro, 42,60% como grau moderado e 36,92% como grau severo. A classificação foi feita com recurso ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) da Associação Americana de Psiquiatria.

O ano de 2024 foi aquele com maior número de casos registados na história da região. Por outro lado, os anos de 2019, 2020 e 2021 totalizaram um número de casos excepcionalmente baixo devido ao impacto das restrições pandémicas na indústria do jogo.