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      Celebração da Palavra: Os principais eventos do primeiro fim de semana do Rota das Letras

      O primeiro fim-de-semana do 14.º Festival Literário de Macau contou com quatro painéis, quatro lançamentos de livros e debates e duas projecções de filmes. Os dois dias do evento tiveram como objectivo promover o diálogo e mostrar a diversidade do tecido cultural da região e do mundo.

       

      O segundo dia do 14.º Festival Literário de Macau, no passado sábado, principiou com o painel “Desenhar palavras, escrever imagens”, com André Letria, que realizou também seguidamente o workshop de ilustração “Se eu fosse um livro”. O dia seguiu com o lançamento do livro “A Rapariga que Sonhava” e uma masterclass de escrita criativa, ambos dirigidos pela autora Sonia Leung.

      Da parte da tarde foi realizado o painel “A Literatura de Hong Kong e Macau, No Contexto da Nova Era”, que contou com a participação dos autores Zang Di, Zhou Jieru e Tan Jianqiao e uma plateia cheia. Cada um dos oradores apresentou as próprias perspectivas sobre o panorama literário de Hong Kong e Macau, sublinhando as complexidades inerentes às suas narrativas.

      “Onde quer que haja vida, há literatura. A literatura é apenas um reflexo da vida”, afirmou Tan Jianqiao, dando o mote para um debate que teve tanto de reflexivo como de provocador. A interacção de valores contrastantes em Macau foi um tema recorrente. Tan Jianqiao explicou que “Macau é uma cidade de contrastes e uma cidade que desafia constantemente os nossos valores. Macau expõe a humanidade de todos”. Este sentimento ressoou ao longo de todo o painel, entrelaçando experiências pessoais com observações sociais mais alargadas.

      Zhou Jieru salientou os desafios enfrentados pelos autores locais, referindo que “Muito poucas editoras estão dispostas a publicar romances em Macau. A vida é demasiado confortável aqui. A maior parte dos romances chineses são sobre a miséria. Uma vida confortável não é propícia a uma grande literatura”. Em resposta a esta afirmação, Zang Di desafiou a narrativa em torno da percepção da estagnação da produção literária, insistindo que retratar a literatura apenas através da lente do desconforto é redutor. “Não concordo. É um mau serviço prestado ao povo chinês e tudo o que faz é propagar um estereótipo. Porque é que somos sempre tão infelizes? Bem, não somos”, observou, defendendo uma representação mais variada das experiências na literatura.

      À noite, o festival exibiu “O Teu Rosto Será o Último”, um filme baseado na obra de João Ricardo Pedro. Num painel realizado horas antes que contou com a presença do autor e do cineasta Luís Filipe Rocha, surgiram discussões sobre a adaptação. “Um livro, quando tem sorte na vida, pode ter várias vidas”, comentou João, enquanto Luís partilhou uma ligação mais íntima com a obra, ao confessar: “Cheguei a pensar se o livro teria sido escrito para eu o filmar”.

      Ontem, o festival continuou com o lançamento da revista Halftone #11, que contou com as contribuições dos fotógrafos Gao HongRu, Eloi Scarva, David Lopo, José das Neves e João Palla. João Miguel Barros, discutindo o impacto da revista, afirmou que “a Halftone foi um acaso, mas tudo o que aconteceu depois não foi um acaso”. Salientou o carácter inclusivo da revista, afirmando o seu papel na aceitação da diversidade no seio da comunidade fotográfica: “A Halftone é uma associação inclusiva, é uma associação que aceita a diversidade… sem excluir estilos, sem excluir formas de olhar”.

      Pouco depois, Valério Romão e Carlos Morais José apresentaram o seu novo livro, “Mais Uma Desilusão”. “Foi-nos prometida uma modernidade para a qual nos pusemos em biquinhos de pés e à qual ainda não alcançámos”, afirmou Romão, ao discutir a antecipação da modernidade e a consequente desilusão sentida por muitos, enquanto Carlos Morais José concluiu dizendo que “só se desilude quem acredita”, encapsulando os sentimentos de esperança justapostos com a realidade que permeiam a comunidade literária.

      O dia terminou com a projecção do filme “As Operações SAAL”, seguido de um debate sobre a origem da expansão da Habitação Social com as arquitectas Maria José de Freitas e Carlotta Bruni, e o recital de poesia “Voar Para Além de Novas Formas de Ignorância”, com os poetas Chan Kalong, Jia Wei, Song Ying, Wang Shanshan, Yuan Xuefang e Zang Di.

      O primeiro fim-de-semana do festival não só serviu de plataforma para o lançamento de novas obras, como também promoveu discussões profundas sobre o estado actual e o futuro da literatura. Com a presença de uma mistura de vozes estabelecidas e emergentes, o evento tem vindo a promover um ambiente rico em diálogo, mostrando o tecido cultural dinâmico da região.