Recentemente, tive a oportunidade de me juntar a uma delegação de jornalistas de língua portuguesa e inglesa proveniente de Macau numa visita a duas regiões fascinantes. Por entre tertúlias, passeios e discursos, a junção entre o passado e o futuro fez-se visível no horizonte, a caminho das vibrantes cidades de Xian e Xiong’an.
A nossa jornada começou com uma passagem por Xiong’an, na zona de Baoding, a nova área metropolitana que está a erguer-se a 100 quilómetros de Pequim. Este projecto colossal, que teve início em 2017 sob a supervisão directa das autoridades centrais da China e o seu presidente Xi Jinping, foi idealizado para aliviar a pressão populacional da capital e criar um modelo de desenvolvimento urbano inovador. Num autêntico projecto massivo de engenharia e arquitectura, “à Oscar Niemeyer”, autor do plano Brasília dos anos 60, a ambição do Governo Central é concluir esta façanha de construção urbana até 2035, e o desenvolvimento geral até 2049, coincidente com as comemorações do centenário da República Popular da China, bem como o quinquagésimo aniversário do estabelecimento da RAEM.
Ao sair do nosso transporte, típico de visitas guiadas, um autocarro da marca Yutong, simplesmente a maior produtora do planeta na área, fui imediatamente envolvido pela grandiosidade do local e as centenas de guindastes que arranhavam o céu, do que oficialmente leva o nome de “Xiong’an New Area”. Durante a visita, era nítido que o projecto se destaca pela integração de tecnologia avançada e planos de desenvolvimento ambiental sustentável.
O conceito de “cidade de 15 minutos” era o destaque. Aqui, os residentes vão poder aceder a todas as suas necessidades diárias a uma curta distância, nunca mais de 15 minutos, seja a pé ou de transportes, ao menos seria essa a intenção futura. Vislumbrei uma verdadeira metrópole ecológica, onde a natureza e a urbanização esperam conviver em harmonia, uma missão difícil entre as vastas quatro “divisões” da cidade, sendo que o calor era intenso em pleno fim de Agosto.
Com uma rede abundante de rios e lagos, Xiong’an procura não apenas ser um centro urbano, mas também um espaço ecológico, aliado as novas tecnologias de transportes autónomos e verdes que se desenvolvem na província Jiangsu. Decisões executivas postas em prática, que apresentam um exemplo de como as conquistas modernas podem ser aliadas à protecção do meio ambiente.
Numa das muitas reflexões pessoais, percebo que Xiong’an é um símbolo do futuro que a liderança chinesa está a moldar. Enquanto países de semelhante escala mergulham no limbo da política redundante e da retórica, vemos um título, “Popular”, ser aplicado ao vivo e de facto. Uma alusão clara ao compromisso de um governo com a melhoria das condições de vida dos seus cidadãos. Durante a visita guiada, fomos informados de que actualmente a área alberga cerca de 1,5 milhões de habitantes, com a meta de chegar aos cinco milhões.
Num passo rápido à próxima etapa, viajámos a bordo de um dos admiráveis comboios de alta velocidade, parte da extensiva rede ferroviária que tem vindo a conectar todos os cantos e confins do semi-continente que é a China. Sem me aperceber, em poucos segundos atingimos velocidades superiores a 300 km/h. Estas autênticas balas não são apenas um meio de transporte, mas uma obra-prima da engenharia moderna.
Enquanto galgávamos a paisagem verdejante entre as províncias de Hebei e Shaanxi, por entre conversas oportunas sobre o desenvolvimento da Alemanha no pós-guerra e os seus comboios que até animais de pasto levavam, era impossível não pensar em como a infraestrutura do país evoluiu em comparação com outras partes do mundo. Viajar num espaço tão confortável e eficiente, enquanto saboreávamos um café do famoso Costa (bem lembrado pelo meu amigo de conversa), tornou-se uma metáfora perfeita da modernidade que está a ser construída e um improvável paradoxo da actual China. 1.000 quilómetros percorridos em cinco horas, Xian já se encontrava à vista. Algo impensável há meros 30 anos.
Ao chegarmos a Xian, a atmosfera transformou-se. A cidade, uma das quatro grandes capitais da China antiga, ressoa com uma história que remonta sobre mais de três mil anos. Aqui, a experiência é totalmente diferente. Rodeados por monumentos históricos, a cidade respira um passado glorioso. Um pedestal para um futuro ainda melhor?
Durante a nossa visita ao icónico Mausoléu, fui confrontado com a grandiosidade do legado de Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China unificada. O seu imenso exército imortal, em eterna guarda, esculpido em terracota, é uma obra-prima inigualável da arte funerária. Milhares de figuras, cada uma com a sua personalidade, são uma clara demonstração do talento e da dedicação da cultura chinesa, tanto antes como hoje, e a continuidade das escavações revela que esta oitava maravilha do mundo ainda tem segredos por desvendar
Emoções patrióticas surgiram durante a apresentação teatral “A Legião Ressuscitada”, que retratou a história dos Guerreiros de Terracota através de uma performance com múltiplos espaços, que trouxe uma experiência imersiva, com actores locais e alunos de artes marciais a envolver o público. O espectáculo, com a sua mescla de drama e coreografias, trouxe ao palco não apenas os guerreiros, mas as histórias que eles representam, numa colorida versão lúdica, mas deveras grandiosa.
A simbiose entre o antigo e o novo é também visível em todos os aspectos de Xian. O Parque Tang Paradise, uma recriação moderna das estéticas da dinastia Tang, exemplifica perfeitamente como a cultura milenar pode ser reinterpretada. Ao entrar no parque, que combina a modernidade e entretenimento com a estética histórica, o cuidado investido na preservação da cultura era óbvio, ao mesmo tempo que satisfaz as exigências do turismo contemporâneo, visto por entre as centenas de pessoas a desfrutar do seu tempo livre, enquanto mascaradas à moda antiga, ou melhor, à moda milenar das dinastias.
A visita ao Arquivo Nacional de Publicações e Cultura (NAPC) foi igualmente impressionante. Este edifício de proporções épicas, inaugurado em 2022, é um marco magnifico do compromisso da China com a preservação da sua vasta e riquíssima história. Através da utilização de tecnologia de ponta e metodologias adequadas, a NAPC garante que as futuras gerações tenham acesso a documentos e publicações que contêm o saber do passado, alicerce especialmente único a este povo, que tem vindo persistentemente a valorizar o seu passado com honra. Algo plenamente visível na qualidade da arquitectura deste grandioso edifício, que reúne materiais de todas as províncias do semi-continente.
Ao final desta viagem, ao reflectir sobre as experiências pelas quais passei, apercebi-me da extraordinária e única qualidade da China de unir o passado e o presente, criando um futuro que promete ser tão rico e multifacetado quanto a sua longa história. A interacção das duas cidades que visitámos evidencia que Xian e Xiong’an não são apenas testemunhos de como a história molda o presente, mas sim demonstrações palpáveis de como o futuro pode ser construído com base no passado.
Sair de Xian e Xiong’an não foi apenas uma despedida, mas um compromisso renovado em estudar o que nos precede e projectar um futuro que celebra tanto a herança cultural quanto o progresso tecnológico. O que vi e vivenciei assegurou-me que a China está não apenas a preservar sua rica tapeçaria histórica, mas também a tecer novas e emocionantes narrativas para os próximos “mil anos”. Um legado actual que transcende o tempo, imerso na utopia provável que se vê nascer.
Muitas destas reflexões surgiram em continuação as inspiradoras conversas com os colegas jornalistas Harald Brüning e Amanda Saxton, aos quais agradeço as agradáveis tertúlias.
Elói Carvalho
Fotojornalista do Ponto Final deslocou-se a Xian e Xiong’an a convite do Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China em Macau











