Universidade das Nações Unidas em Macau e UM acolhem workshop internacional sobre Ética e IA na Ásia  

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FOTOGRAFIA Gonçalo Lobo Pinheiro

Ferramentas como a ChatGPT e outros procedimentos automatizados através das tecnologias de Inteligência Artificial (IA) trazem com eles desafios éticos, laborais, sociais e até ambientais. É no sentido de procurar compreender estas questões que a Universidade das Nações Unidas em Macau, em parceria com a UNESCO e a Universidade de Macau organizam hoje um workshop que reúne especialistas de vários países e cidades vizinhas.

 

Numa altura em que a Organização das Nações Unidas (ONU) está em vias de criar um novo órgão para regulamentação global das Inteligências Artificiais (IA), a Universidade das Nações Unidas (UNU) continua a apostar no diálogo entre as regiões vizinhas para que se consiga lidar com realidade emergente da tecnologia da IA de uma forma global. “IA Ético: Progresso Pioneiro na Ásia Pacífico” é o título deste “workshop internacional” que se realiza hoje, com sessões a decorrer no campus de Hengqin da Universidade de Macau (UM) da parte da manhã, seguidas de outras sessões da parte da tarde no palacete da UNU, na Casa Silva Mendes, nas imediações do Monte da Guia.

Em Macau para partilhar informações sobre esta temática vêm especialistas de universidades de várias regiões chinesas, mas também das empresas SenseTime e Tencent, palestrantes vindos da Tailândia, Índia, Camboja, e Indonésia, e também académicos da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

Logo na primeira sessão, às 10h, serão abordadas as recomendações da UNESCO na matéria de ética da IA, com apresentações de vários investigadores da UNU, entre eles Serge Stinckwich, que está à frente do gabinete de pesquisa sobre o impacto das tecnologias digitais, e dentro do contexto dos objectivos de sustentabilidade. A questão da insustentabilidade de plataformas como a ChatGPT e a LLM- Large Language Model – é, aliás, o seu tema de apresentação.

Ao PONTO FINAL, o académico referiu que, “em primeiro lugar, é importante compreender que a IA é útil em vários domínios, como em diagnósticos médicos” e que esta já faz parte do nosso quotidiano, como quando pedimos sugestões em motores de busca. Entretanto, há um ano surgiu o sistema Chat GPT, lançado pela Open AI, “um ‘chatbot’ que conversa connosco, e que consegue sumarizar textos, traduzir, e dar-nos algumas informações sobre temas específicos”. No entanto, Serge Stinckwich acredita que a maioria das pessoas não tem uma ideia correcta sobre como funcionam estes sistemas: “estes ‘chatbots’ estão a produzir informação baseada em textos existentes; (…) a partir desta base de dados de grande dimensão – acho que é algo como 45 Terabites de dados – a companhia OpenAI consegue criar este sistema que interage connosco, mas com frases um pouco aleatórias. Há até quem chame o sistema de ‘papagaio aleatório’, porque repete o conhecimento da humanidade de uma forma algo aleatória”, algo que, a seu ver, revela que “na verdade este tipo de inteligência artificial não é assim tão inteligente”, brincou.

Brincadeiras à parte, um dos riscos destas frases aleatórias é a possibilidade de dar origem a informação falsa e a situações que podem vir a ter um impacto negativo “em pequenas e médias empresas”, e até “na coesão da sociedade, e no mercado de trabalho”. Por outro lado, referiu o académico, a questão também apresenta muitos riscos potenciais ligados ao meio ambiente. “Estes sistemas, para poderem treinar o seu funcionamento, precisam de redes de computadores enormes, e consomem muita energia, libertando uma quantidade elevada de gases de estufa na atmosfera”.

 

A RESPONSABILIDADE DO ALGORITMO

 

Serge Stinckwich abordou também o que tem sido feito a nível internacional para acompanhar a questão da IA. “A ONU elaborou um documento no fim de 2021, proposta que foi assinada por todos os Estados-membros. Portanto, basicamente todos os países no planeta concordaram com estes princípios básicos do uso de IA, com várias recomendações, e agora a UNESCO está a tentar implementar estas recomendações”, partilhou. É por isso que o investigador acaba de voltar da Mongólia, país que a UNU em Macau tem apoiado na aplicação destas medidas, na sequência de um estudo em parceria com a UNESCO.

A conferência de hoje serve assim também para dar a conhecer algumas das actividades desta universidade, já que este é o seu campo de acção e investigação. Sobretudo, partilhou o responsável, “a ideia é de tentar compreender o uso ético das IA especialmente no contexto regional, do sudeste asiático; compreender o que foi feito até agora, e o que estão a pensar fazer no futuro”.

Quando se fala de ética e IA, sobretudo falamos de responsabilidade ética do algoritmo, explicou Serge Stinckwich. “Se um carro está a ser conduzido pelo algoritmo IA, e há um acidente, quem é responsável, o humano que estava no carro, ou quem criou o programa? São questões que até agora são difíceis de responder”, admitiu. Outro ponto é o da transparência de termos o direito de saber porque é que o algoritmo fez uma decisão e não outra, por exemplo em questões de seguros cancelados. Um terceiro ponto é o da sustentabilidade e impacto do IA no desenvolvimento sustentável, como foi anteriormente referido, e há ainda a questão da governação, “que é muito importante”, sustentou.

A partir de agora já “podemos criar em termos globais sistemas regulativos que controlem a IA”, destacou, acrescentando que “de momento já estão a decorrer iniciativas nesse sentido na Europa, nos Estados Unidos, na China”, mas falta uma regulamentação a nível global, “que é importante”, defende. “Este é um dos objectivos deste tipo de workshops, de juntar toda a gente: legisladores, académicos, pessoas da sociedade civil, para discutirem estes assuntos juntos, porque dependendo do país, e cultura, haverá um conjunto de valores e ética diferentes, por isso é importante tentar encontrar uma forma de trabalhar em conjunto”.