Sara Figueiredo Costa
Vencedor de vários prémios internacionais, entre eles o Opera Prima da Feira do Livro Infantil de Bolonha, o livro de estreia da artista plástica francesa Marion Kadi é uma parábola sobre o crescimento, a descoberta de si e a confiança. Os Reflexos da Henriqueta narram-se com poucas palavras e com um trabalho visual de cores fortes, saturadas, cheio de pormenores que pedem tempo e atenção para cada dupla página, porque nesses pormenores está boa parte do que se conta.
Mantendo texto e imagens numa relação profundamente dependente, Kadi conta a história de uma menina que passa a ter como reflexo a imagem de um leão, algo que lhe dará a confiança que tantas vezes lhe faltava. Sem forçar moralismos nem pedagogias, esta é uma narrativa sobre a auto-descoberta, onde a fantasia se instala a partir da metáfora do reflexo, criando um efeito que se aproxima mais de uma certa ideia de realismo mágico do que dos abracadabras tradicionais. Na verdade, é o reflexo do leão que, depois de morrer o animal que era o seu legítimo dono, começa a andar por aí à procura de outro ser que possa acolhê-lo como reflexo, nas águas ou num espelho. É ele, portanto, que encontra Henriqueta, uma manobra narrativa clássica que retira à personagem a responsabilidade primeira pelas peripécias que lhe vão acontecendo.
Findo o deslumbramento inicial de ter como reflexo um animal tão poderoso, Henriqueta volta a querer o seu reflexo original, acabando por permanecer com ambos assim que estes aprendem a conviver entre si. É provável que, ao longo dos anos que lhe calharem em sorte, tenha dias em que prefere um ou o outro, e sem que essa metáfora se transforme em mandamento moral, a história contada por Marion Kadi revela-se mais certeira sobre o percurso biográfico de qualquer um de nós do que as imagens coloridas deixariam adivinhar. E é precisamente por isso que Os Reflexos da Henriqueta merece leitura partilhada entre diferentes gerações, mesmo que dos mais novos aos mais velhos haja certezas muito díspares sobre o que vemos, afinal, reflectido no espelho quando o olhamos de frente, umas vezes procurando rugas, outras com a certeza de que encontraremos um leão.
Marion Kadi
Os Reflexos da Henriqueta
Fábula
UM LIVRO PARA O DESASSOSSEGO
Permitir que os mais novos se aproximem da leitura com livros como este é um privilégio. Pode dizer-se que Por Exemplo, Uma Rosa é um livro sobre muitas coisas: as palavras e o modo como se relacionam com aquilo que designam; a variedade de formas, sentidos e elementos que compõe o universo; a nossa proverbial capacidade de brincar com o discurso, alterando-o, deturpando e inventando-lhe novas lógicas. É tudo isso, sem dúvida, mas talvez seja antes de mais um livro a que poderíamos chamar total, não porque fale de tudo ou tudo esclareça, mas porque nas suas páginas se guarda essa fome insaciável de mergulhar em nós, nos outros e no mundo e tentar dar sentidos às coisas, sem medo de confirmar que os sentidos são irrequietos e precisam de interpretação constante.
Ana Pessoa e Madalena Matoso mostram essa fome de muitas maneiras, ora puxando pelos jogos de palavras, ora pelas contradições que nos rodeiam a todo o momento, sempre abrindo novos caminhos de pensamento e inquietação. Da rosa de Gertrude Stein ao cachimbo de Magritte, este é um livro para desassossegar e deixar germinar essa gesta irrequieta que, se correr tudo bem, levaremos da infância para o resto da vida.
Ana Pessoa e Madalena Matoso
Por Exemplo, Uma Rosa
Planeta Tangerina
NAS LIVRARIAS
Inês Barata Raposo e Gabriela Pedro
O Efeito Bola de Menta
Bruaá Editora
Kristin Roskifte
Todos Contam
Lilliput
Chico Buarque
Chapeuzinho Amarelo
Tinta da China
Oliver Jeffers
O Caminho Para Casa
Orfeu Negro














