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      InícioParágrafoParágrafo #83A Vida Por Escrito – Ciência e arte da biografia

      A Vida Por Escrito – Ciência e arte da biografia

      CRÍTICA

      Sara Figueiredo Costa

      Ruy Castro

      Tinta da China

      VIVER NAS VIDAS ALHEIAS

      Aquela ideia de que quem domina o segredo de fazer bem determinada coisa não o partilha cai por terra neste livro, um manual que se supera enquanto tal sobre a arte da biografia, escrito por quem a domina como poucos. Ruy Castro é um dos grandes biógrafos do nosso tempo, não apenas em língua portuguesa. Os seus trabalhos sobre Carmen Miranda, Nelson Rodrigues ou Garrincha estão aí, nas livrarias e bibliotecas, e confirmam-no sem margem para dúvidas. O que nos oferece neste A Vida Por Escrito começa por parecer um manual, organizando-se a partir das diferentes fases pelas quais passa a elaboração de uma biografia, mas como todos os livros de bons escritores, este não falha a certeza de ser várias outras coisas. Camadas, portanto, que se vão entretecendo e compondo um livro que é, sim, manual de escrita de biografias, mas também porta de entrada para um olhar atento sobre o tempo que cada pessoa vive e o modo como o passado define esse tempo, e, até, uma breve e parcial mirada biográfica sobre o próprio autor. Ele que assina por baixo a frase de Nelson Rodrigues sobre a impossibilidade da autobiografia: «Nenhuma “autobiografia” é confiável. Nelson Rodrigues foi quem melhor a definiu: “Ao escrevê-la, o sujeito se olha num espelho e se vê num vitral.” (…) Daí que, quando me perguntam se um dia escreverei minha autobiografia, respondo sem piscar: “Nunca. Não confio em mim.”» (pg.26)

      No que toca à vertente de manual de escrita, Ruy Castro é tão rigoroso a descrever processos e técnicas como o é quando escreve a biografia de alguém. De forma metódica, explica como faz para manter o trabalho em ordem, recorrendo ao estabelecimento de uma cronologia e à criação de documentos que correspondam a cada ano de vida do biografado: «Para mim, a cronologia é cláusula pétrea – se toda vida tem começo, meio e fim, a história da pessoa também terá, e nessa ordem.» (pg.100) Essa linha do tempo permite não só dar estrutura ao trabalho final, mas sobretudo garantir que o autor consegue orientar-se no mar de informações, por vezes contraditórias, documentos e falhas que hão-de compor a sua matéria-prima. E, também, perceber o que falta esclarecer, que períodos da vida de um biografado não estão documentados (e porquê), que episódios tiveram consequências que hão-de reflectir-se em episódios futuros.

      Partilhando generosamente o seu método de trabalho, sempre com exemplos de livros que escreveu e que podemos ler (nas edições brasileiras da Companhia das Letras ou portuguesas da Tinta da China), Ruy Castro refere igualmente os obstáculos que sempre se oferecem ao biógrafo, revelando o modo de os contornar para prosseguir aquilo que é uma vontade férrea de tudo saber sobre uma vida. É esta, aliás, a grande demanda do autor perante qualquer biografia e boa parte deste livro é dedicada a mostrar as muitas facetas dessa demanda, sem nunca perder o foco, como conta a propósito da encenação de uma peça de Nelson Rodrigues, sobre o qual escreveu a biografia O Anjo Pornográfico: «Eu queria apenas descobrir tudo o que acontecera antes, durante e depois do espetáculo, no palco, na plateia e nos bastidores.» (pg.134)

      Quanto aos obstáculos, eles podem ser os esperados, de amigos e familiares do biografado que querem esconder algo, ou revelar coisas que não aconteceram, a documentos desaparecidos, pessoas que seriam fontes de informação preciosas e que, entretanto, morreram. Mas também podem decorrer de coisas difíceis de explicar, como acontece com a história que o autor conta sobre João Gilberto, quando o entrevistou por telefone para escrever Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova. Um outro informante, Menescal, tinha avisado Ruy Castro do poder hipnotizador de Gilberto, mas o autor desvalorizou, seguro das suas capacidades, até ao momento em que a conversa aconteceu e Castro deu consigo a entoar a fala do mesmo modo que o cantor: «Menescal tinha razão: João Gilberto me hipnotizara por telefone. Se me dissesse para ir ao Aeroporto Santos Dumont buscar um peixe que ele mandara vir da Bahia, eu nem discutiria. Entendi ali o poder que ele exercia sobre algumas pessoas, fazendo com que elas passassem a lhe dedicar a vida e prestar toda a espécie de serviços, mesmo os mais absurdos.» (pg.119)

      Fugindo de se auto-biografar, Ruy Castro não deixa de nos permitir o acesso a vários episódios da sua vida, todos directamente relacionados com a escrita dos seus livros. Ficamos a saber, por exemplo, que foi Luiz Schwarcz, na altura editor na Brasiliense, mais tarde na Companhia das Letras, quem fez do jornalista Ruy Castro o escritor que hoje conhecemos. Foi ele quem convenceu o repórter a dedicar-se aos livros, projecto que nunca teria passado pela cabeça do autor. Outros episódios pessoais são partilhados neste A Vida Por Escrito, do diagnóstico de cancro que recebeu em 2005, dando forma à sua grande preocupação posterior, não sobre a hipótese de morrer, mas sobre o cenário de não conseguir acabar a biografia de Carmen Miranda, ao método que usou durante algum tempo para recompensar os passos bem sucedidos de cada livro, comendo um gelado. São cenas quotidianas, sem outro interesse que não o voyeurístico, mas acabam por revelar as muitas facetas da vida de um autor cujo trabalho se desenrola investigando, para depois contar, as vidas de outros. Uma das regras centrais da biografia para Ruy Castro é a de que só se escreve sobre alguém que já morreu; sem isso, a história ainda não está concluída e qualquer biografia seria falha de sentido. Lendo A Vida Por Escrito, resta desejar longa vida ao autor, desejando igualmente que, quando chegar a sua hora, alguém abrace com dedicação e rigor a tarefa de contar a vida deste homem. Vai valer a pena.