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      InícioParágrafoParágrafo #83TAMBÉM AS PALAVRAS SÃO UM CAMINHO

      TAMBÉM AS PALAVRAS SÃO UM CAMINHO

      José Luís Peixoto

      Mesmo quando temos a sensação de estar absolutamente parados, nunca estamos. A existência é sinónimo de viagem. Quando embarcamos em certas viagens, longas e penosas, não sabemos tudo o que vamos encontrar e, da mesma maneira, não sabemos as transformações que essa experiência exercerá sobre nós. A viagem transforma-nos de uma maneira que não conseguimos controlar completamente.

      Mais de cem anos após a sua morte, Eça de Queirós é vulgarmente reconhecido como o principal narrador português. Ainda hoje, as páginas da sua prosa são como um espelho, reflectem-nos enquanto país e permitem-nos considerar quem somos. Em todas as suas obras principais, Eça de Queirós desenvolve essa reflexão acerca da identidade portuguesa.

      Publicado postumamente, em 1926, O Egipto foi escrito na sequência da viagem que o autor levou a cabo com o Conde de Resende, seu futuro cunhado, a pretexto da inauguração do Canal do Suez. Em Outubro de 1869, quando partiram de Lisboa, Eça de Queirós tinha completado 23 anos e não tinha ainda publicado qualquer livro.

      Nessas páginas, em potência, encontra-se já muito do estilo e das ideias que, anos mais tarde, iremos encontrar nos seus romances. Tanto a perspicácia da prosa de Eça de Queirós, como as características particulares do realismo que viria a aperfeiçoar, podem já distinguir-se nessas notas.

      Hoje, considerando toda a produção literária do autor, fica clara a influência desta viagem sobre a obra que construiu mais tarde. No prefácio daquele que é um dos seus grandes livros — A Relíquia, publicado em 1887 —, o próprio Eça de Queirós refere-se a essa experiência. O protagonista de A Relíquia faz uma peregrinação à Terra Santa e, a partir daí, a sua vida sofrerá enormes alterações. As descrições dessas peripécias seriam, certamente, muito diferentes se o autor não tivesse a memória decisiva de andar por este lado do mundo.

      Um dos temas recorrentes da sua obra é, aliás, o cosmopolitismo. Eça de Queirós colocava toda a sua convicção nas lições das viagens, no que se aprende quando, à distância, se reavalia o que julgamos certo. Em muitas ocasiões, criticou visões do mundo que considerava provincianas, tacanhas, fechadas sobre si próprias, cegas para aquilo que fica por detrás do horizonte.

      Ao longo da sua vida, praticou constantemente os ideais que defendia. Enquanto diplomata, teve a oportunidade de ocupar postos em Havana, Newcastle, Bristol e Paris. Visitou ainda vários pontos do mundo, o que, na época, apenas estava ao alcance de muito poucos.

      Originalmente, as páginas de O Egipto davam notícias de uma viagem no espaço. Hoje, constituem uma fascinante viagem no tempo. O leitor contemporâneo tem aqui a oportunidade de estabelecer uma ideia não apenas acerca do que foram as culturas e os lugares descritos, mas também, através do contraste com o que são hoje, acerca de como evoluíram ou regrediram. É também possível antever, no olhar do autor e no que escolhe referir, um retrato dessa cultura, a partir da perspectiva portuguesa.

      Seja através do espaço ou do tempo, encontramo-nos sempre uns nos outros. Desejarmos conhecer o que está para além de nós é, também, uma forma de sabermos mais sobre quem somos. As páginas de O Egipto continuam actuais, descrevem o espanto de um jovem de 23 anos a fazer uma das viagens mais marcantes da sua vida, descrevem a natureza humana.

      Como disse antes: a viagem transforma-nos de uma maneira que não conseguimos controlar completamente. Quando chegarmos ao destino, seremos outro e, no entanto, seremos o mesmo. Esta ideia, no entanto, parece mais de Bernardo Soares. Em 1900, quando Eça de Queirós morreu, Fernando Pessoa tinha 12 anos, não chegaram a conhecer-se. Por sua vez, Fernando Pessoa nunca foi ao Egipto e, mesmo assim, escreveu sobre todos os temas. Há viagens com várias formas e dimensões. Às vezes, as palavras são suficientes para levar-nos lá, ao Egipto do século XIX, ou ao desconhecido que carregamos em nós próprios.

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      Redacção do Ponto Final Macau