Edição do dia

Terça-feira, 25 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nublado
33.2 ° C
33.2 °
33.2 °
78 %
5.2kmh
99 %
Ter
33 °
Qua
30 °
Qui
30 °
Sex
30 °
Sáb
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioParágrafoParágrafo #83No reino das lâmpadas

      No reino das lâmpadas

      CRÓNICA

      Dora Nunes Gago

      Acordarmos de manhã cedo com o pescoço dorido e decidirmos comprar uma almofada mais confortável pode ter consequências verdadeiramente imprevisíveis. Mas, neste momento,  ainda desconheço inteiramente esse facto da vida.

      Com a tal dor a roer-me, persistente, o pescoço, entro no supermercado mais próximo. Nestes primeiros tempos em Macau, a Avenida Sun Yat Sen, na Taipa, é o meu axis mundi, o espaço onde todas as minhas necessidades devem ter resposta, já que o meu péssimo sentido de orientação mais ainda não permite. Isto porque o luxo de me perder descontraidamente por ruas, esquinas e avenidas como fazia em Montevideu e noutros lugares, aqui é-me interdito. Em forte contraste com a simpatia uruguaia, onde aparecia sempre alguém a explicar detalhadamente a forma de chegar ao destino, aqui, recebo um olhar de desagrado ou um enfadado “mo english”, como quem diz “vai morrer longe, para não cheirares mal e não chateies, mas é…”. Claro que perguntar-me-ão, então e o google maps, e mais não sei o quê? Pois, nesta altura, o meu telemóvel, diz-me em chinês o mesmo que os transeuntes que abordo.

      Mas, adiante. Chegada ao supermercado, vasculho a zona onde estão as almofadas, retiro uma para ver melhor, mas, no momento em que a tento voltar a colocar no lugar, dá-se o desastre: ela desliza, num movimento cilindrador,  a atropelar uma pilha de lâmpadas – o ruído seco do vidro esmigalhado contra os mosaicos, um alarme a soar, olhares acusadores de choque e surpresa na minha direcção… Dobro-me, começo a tentar apanhar os retalhos daqueles cacos que se colam ao chão, depressa o vidro se tinge de vermelho – cena sangrenta, pois, como seria de esperar, corto os dedos. Rapidamente chega uma funcionária a berrar em cantonês, como se eu fosse uma serial killer, ou neste caso, algo ainda mais grave, uma lamp killer, se tivermos em conta o fim de vida daquelas lâmpadas todas. A mulher continua na sua cascata de palavras incompreensíveis – agradeço a minha ignorância linguística, visto haver momentos em que tranquiliza não entendermos o que nos dizem. Olham para mim num misto de espanto, estranheza – uma exótica ocidental, uma kuai lo a provocar estragos num supermercado – capazes de tudo, esta gente! Sinto-me, por breves instantes, num show da vida real, com câmaras, neste caso de video-vigilância. Ainda volto atrás para levar comigo a minha desejada almofada assassina. Tudo indica que nos iremos entender bem, temos muitas afinidades, a começar por certa queda para o desastre. Entretanto, consegui recolher do chão todos os pedacinhos de lâmpadas, a funcionária conta os inúmeros casquilhos com um rigor absolutamente científico, insere o preço para eu os pagar e ainda os coloca num saquinho, caso os queira levar, quem sabe, para abrir algum museu de lâmpadas martirizadas.

      Momentos depois de ter chegado a casa, de ter estancado definitivamente o sangue e desinfectado as feridas dos dedos – detalhe com o qual ninguém se preocupou no supermercado – abro a minha caixa de e-mail e leio a mensagem vinda de longe, do outro lado do mundo, de uma amiga a desejar-me “muita luz”. Sim, sem dúvida, temos de cultivar as virtudes do pensamento positivo, acreditar que haverá sempre, algures, além de todas as dores no pescoço e almofadas, um novo stock de lâmpadas novas, intactas, numa prateleira qualquer à nossa espera.

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau