Habituámo-nos a ver na acção da Igreja de Roma um factor de equilíbrio e aquietamento das relações entre nações e povos em períodos de significativa turbulência e conflitualidade. Um apelo ao bom-senso dos decisores políticos e à ética sobre o exercitar incontido do poder pelo poder, da força pela força.
Recordo a acção do Papa João Paulo II na queda do império soviético e na emancipação da Polónia do jugo comunista permitindo que um conjunto de países se integrassem na União Europeia como espaço de democracia, liberdade e solidariedade.
E as palavras de incentivo à contenção da ameaça nuclear, à redução da crispação entre os principais blocos militares e as palavras de encorajamento a uma ajuda internacional aos deslocados dos conflitos no Médio Oriente e aos refugiados que acorrem às costas do sul da Europa fugidos de Africa, à procura de uma vida melhor.
Em todos estes momentos e pela acção de João Paulo II, mas também de Bento XVI ou do Papa Francisco antes a palavra forte e catalizadora da Igreja esteve sempre presente. Contrastando com a politica de oportunismo e egoísmo nacional que permite a exploração do ser humano em nome da concentração da riqueza na mão dos poderosos. Esta palavra atempada e soante foi para nós um motivo de orgulho e identificação.
Digo-o como alguém que nunca sentiu o apelo da fé mas que respeita todas as religiões como importantes para a realização do sentido do humanismo e de elevação espiritual do ser humano. Aliás algo que nos caracteriza como espécie, face aos outros animais com que coexistimos neste espaço que chamamos a nossa casa comum.
A fé cristã tem sido disseminada por homens que fazem parte da estrutura da Igreja, que são seus pastores e preparados para desempenharem funções diversas como a concessão de sacramentos, a liturgia da missa, o ensino religioso, a divulgação das escrituras, o enquadramento dos leigos. Os padres são peça essencial na comunidade cristã e deles se espera que pelo exemplo e autoridade sejam factor de coesão e osmose em grupos constituídos por pessoas de outras fés ou mesmo sem fé.
Por razões que têm a ver com a história da Igreja Católica, no século 12, no primeiro e segundo concílios de Latrão, foi aprovada a obrigatoriedade do celibato para os clérigos católicos romanos, a abstenção sexual aos sacerdotes e a proibição do casamento de monges e freiras. Esta regra não é de observância generalizada e os sacerdotes do rito oriental, a Igreja Ortodoxa, não seguem esta obrigação.
Institui-se a ideia que uma dedicação integral ao serviço religioso, em resultado da ordenação presbiteral impõe essa limitação a quem escolheu servir a Igreja. O que vai de acordo com a ideia difundida pela ICAR que o sexo é algo sujo e baixo e só é justificado dentro do casamento e para efeitos de procriação. Esse foi o código moral que prevaleceu durante séculos em contraste com relatos de promiscuidade sexual de vários papas, clérigos, monges e monjas que foram um manancial de inspiração para os escritores.
O século XX veio introduzir mudanças significativas nos costumes sociais. A sexualidade passou a ser encarada como algo característico da natureza humana separada da relação matrimonial. A homossexualidade surgiu como uma realidade que esteve sempre presente na história da humanidade e não uma anormalidade condenada como pecado. A propagação exponencial da SIDA impôs que se olhasse para as relações humanas como não exclusivamente heterossexuais. A união homossexual foi legalizada nas leis civis depois de uma inflamada resistência da Igreja.
Na vida da Igreja os casos de homossexualidade continuaram a ser tratados como aberrações, escondidos dos olhares dos fiéis e desmentidos quando a comunicação social revelava casos de deboche na elite do Vaticano. Mas foi o problema da pedofilia e o abuso durante décadas de crianças do sexo masculino e feminino que veio mostrar que a actuação de padres e bispos sobre o rebanho cristão era pouco santa, mesmo putrefacta.
Nos Estados Unidos, na Austrália, na Alemanha, na Irlanda, em França e mais recentemente em Portugal a Igreja foi agitada por noticias de crimes praticados contra crianças envolvendo clérigos de nível inferior mas também de escalão superior. Em 1995 o arcebispo de Viena renunciou após noticias do seu envolvimento em abusos sexuais. Um relatório encomendado pela Igreja dos EUA em 2004 afirmava que mais de 4 mil padres católicos enfrentaram alegações de abuso sexual em casos envolvendo mais de 10.000 crianças – principalmente meninos. Em França mais de 216 mil crianças foram abusadas desde 1950 segundo um relatório da igreja local.
Em Agosto de 2018, o Papa Francisco dirigiu uma carta a todos os católicos romanos condenando as atrocidades do abuso sexual de crianças e o encobrimento por parte da Igreja. E escreveu nesta carta “é essencial que nós, como Igreja, sejamos capazes de reconhecer e condenar, com tristeza e vergonha, as atrocidades perpetradas por pessoas consagradas, clérigos e todos aqueles a quem foi confiada a missão de vigiar e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos nossos pecados e pelos dos outros.”
O relatório da comissão independente encarregada de investigar denúncias contra crimes da mesma natureza praticados por padres em Portugal veio mostrar que as denúncias das vitimas foram encobertas pela hierarquia da ICAR e os autores dos crimes raramente afastados. A Conferência Episcopal recusou a suspensão preventiva dos padres acusados invocando a ausência de directivas por parte do Vaticano. O que anuncia que estes casos se poderão repetir no futuro.
Mais do que casos concretos a serem escrutinados pela Justiça o que perpassa de tudo isto é uma crise moral e ética da Igreja no seu conjunto que corrói as suas próprias fundações. Porque quando um conjunto de homens usa a sua autoridade espiritual para pelo medo e intimidação manipular e abusar sexualmente crianças é a legitimidade da instituição que fica inapelavelmente sacrificada. Bem como a mensagem de Cristo.
Arnaldo Gonçalves
Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais










