Dora Nunes Gago
Istambul é a doçura vermelha de uma romã aberta, a mão de Pamuk a guiar-me pelo labirinto de ruas, o som de uma oração dolente, derramando-se de uma qualquer mesquita, a gotejar serena. E o grito azul do Bósforo ponteado pelas asas brancas das gaivotas. Se soubesse pintar, seria esta a imagem, com o retrato de Pamuk como marca de água. Aliás, foi pelos seus livros que primeiro conheci a cidade: Meu nome é Vermelho, Outras Cores, o Museu da Inocência, Istambul, Memórias de uma Cidade, A Cidadela Branca, entre outros. Foi o próprio Pamuk quem afirmou em Istambul, Memórias de uma Cidade que, ao contrário de Conrad, Nabokov e Naipaul, migrantes entre línguas, países, culturas, até civilizações, cujos imaginários foram nutridos pelo exílio, através do desenraizamento, no seu caso, como refere: «A minha imaginação, porém, pede que eu fique na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando a mesma vista. O destino de Istambul é o meu destino. Estou ligado a esta cidade porque ela fez-me o que eu sou». Não admira que uma única cidade forneça inspiração suficiente digna de um Nobel. Istambul são muitos mundos num só. O mais genuíno melting pot que conheci até hoje. Cidade de duas margens pertencentes a dois continentes, a Europa e a Ásia, do pulular de raças, de culturas a cruzarem cada esquina.
Aterro no Aeroporto Ataturk, às cinco da madrugada, vinda de Macau, no voo com duração de 12 horas proveniente de Hong Kong, numa altura pautada por alguma instabilidade, vários atentados. Venho participar numa conferência e pouco antes de abalar, uma colega da universidade, recém regressada também de um Congresso aqui, confidenciou-me o tremendo susto com um taxista que quase a violou. Recomendou-me que nunca apanhasse táxis, que nunca sorrisse, nem usasse blusas decotadas, pois naquela cidade, uma mulher sozinha sentia-se como um “naco de carne”, prestes a ser devorada. Foram estas as suas palavras e sigo os conselhos. No aeroporto, antes de o sol raiar, apanho um autocarro para a Praça Taksim, perto da qual se localiza o hotel. Sou a única mulher no autocarro de mais de 40 lugares, todos ocupados por homens. Penso nas recomendações da minha colega, considerando estar mais segura com quarenta do que com um. Por outras palavras, aquela falsa sensação de protecção, advinda de nos sentirmos imersas numa multidão, como se o habitar uma massa nos protegesse dos males individuais, das potenciais agressões de qualquer ser humano especificamente inclinado para elas. Quase uma hora depois, o autocarro estaciona num local ermo, embora perto da Praça. A primeira visão são edifícios quase arruinados, a fazerem lembrar um bairro degradado, ou um fragmento de favela.
Percorro, decidida, os metros que me separam da Praça, sem sorrir, com o meu troley, misto de marioneta e zombie, após tantas horas sem dormir (raramente consigo adormecer em aviões, mesmo em voos de mais de 15 horas), assediada por taxistas, naquela língua desconhecida, indecifrável, sentindo-me o tal bife ambulante.
Entro no hotel Cartoon. Sou subitamente sequestrada para o universo da infância, para uma Disneylândia feita de posters e estátuas. O alçapão do tempo abre-se e aterro no Reino da Branca de Neve, do Rato Mickey, atendida por um recepcionista que me pergunta se quero que fale inglês, francês, ou espanhol… Vinda do mundo da escassez de comunicação, dos herméticos cantonense e mandarim, nem me consigo decidir por aquela fartura de línguas conhecidas! Vou sugerindo, uma após outra, num desfiar caótico, baralhando completamente o rapaz. Partilho o quarto com um gigantesco Pluto — mentalmente, apenas lhe peço que não me confunda com o tal bife.
No dia seguinte, chegada à recepção da conferência, sinto-me despida pela ousadia do meu cabelo descoberto. Sou a única mulher sem burka nem hijab. Pouco depois, entram três mulheres também, de cabeça nua. Aproximo-me delas, num estranho instinto de irmandade. Somos ali a figuração do “outro” diferente, oriundo de outra cultura, de outros mundos. Tal como sucede comigo, portuguesa em território chinês, também elas partilham esse cruzamento diaspórico: uma é italiana a leccionar na Austrália, outra indiana a trabalhar na Zâmbia e uma terceira, russa a representar uma universidade finlandesa. Penso neste nosso instinto de nos aproximarmos do que nos é familiar, a começar pela casca das aparências. Em contrapartida, mesmo que não queiramos, a diferença afasta, intimida. Uma espécie de barreira invisível parece travar a comunicação com alguém sem rosto nem formas definidas. Importa ressalvar que isto sucede antes do tempo da pandemia, do contacto sem rosto, antes dos sorrisos tecidos nos olhares. Acabo por conversar com duas irmãs do Bangladesh, uma delas a fazer o doutoramento sobre Pamuk. Falam de forma breve, contida, das suas sagas, dos desafios a enfrentarem por serem mulheres e se atreverem a estudar, a participar naquela conferência. Subjacente ao que me dizem, repousa o que silenciam, o que sugerem — que é muito mais, que entendo, nessa comunhão densa instaurada pelo silêncio. Entre o que nos une e nos separa, emerge a literatura, em toda a sua universalidade, elemento configurador, perenizador da memória, caroço de almas a formarem nações. E sempre a mão de Pamuk, a desenhar-me, na memória, um álbum a sépia, mas com cheiro e sabor a chá de maçã, escancarado como uma romã, grito vermelho de um mistério amalhado na bainha da História, mas aberto ao abraço de todas as diferenças que habitam o nosso mundo.










