O Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) vai continuar, nos próximos tempos, a deixar os bebés recém-nascidos longe das mães durante o tempo de convalescença destas. A ideia foi ontem transmitida ao PONTO FINAL em resposta às queixas que deram corpo à notícia publicada esta terça-feira pelo nosso jornal com o título “São Januário está a separar mães de bebés recém-nascidos”.
Para as autoridades sanitárias a situação é muito clara e não apresenta quaisquer dúvidas. Devido à situação epidémica, “verifica-se recentemente o surgimento de um grande número de consultas médicas nos serviços de urgência e de casos de doenças graves”, sendo, por isso, “necessária a implementação de planos de contingência, ajustando e organizando a utilização das camas hospitalares, de forma a responder às necessidades médicas urgentes relativas ao tratamento de casos de emergência e de doenças graves, bem como a proteger a segurança e a saúde de puérperas e recém-nascidos”, referiram os Serviços de Saúde numa nota explicativa ao PONTO FINAL.
Devido, sobretudo, ao relaxamento das políticas restritivas da Covid-19 e ao aumento exponencial de casos e mortes em Macau, as autoridades sanitárias do território consideram, portanto, que “não pode ser feita, por enquanto, a organização para mães e bebés ficarem na mesma sala”.
Os Serviços de Saúde, no entanto, garantiram que a política do Centro Hospitalar Conde de São Januário de empenhamento em encorajar e promover o aleitamento materno “permanece inalterada”. No entanto, para já, essa terá de ser posta de lado por motivos de força maior. “Em resposta a esta situação especial, para as mães que pretendem amamentar, o hospital seguirá os procedimentos operacionais de padrão, ou seja, o pessoal de enfermagem recolherá e armazenará o leite materno de acordo com os protocolos, e depois os enfermeiros da especialidade procederão à alimentação com leite materno por sua conta”, reafirmaram os Serviços de Saúde, acrescentando que “em relação à disponibilização da fórmula infantil para recém-nascidos, se a família tiver necessidade específica, pode fornecê-la ao hospital por conta própria”.
O CHCSJ aproveitou a resposta ao nosso jornal para agradecer aos utentes e às suas famílias “pela sua compreensão, tolerância e cooperação relativamente à gestão temporária das camas para uma resposta eficaz ao surto epidémico”, prometendo que o hospital irá ajustar, “de forma dinâmica, a utilização das camas em conformidade da situação prática, esforçando-se para restabelecer a organização de mães e bebés na mesma sala o mais brevemente possível”. “Além disso, para os pedidos de visita ao bebé por parte de familiares, como o pai do recém-nascido, o CHCSJ também toma medidas adequadas para satisfazer ao máximo os seus pedidos razoáveis”, sublinhou o hospital público.
Recorde-se que, desde que o Governo de Macau decidiu acabar com a política restritiva ‘Covid zero’, o SARS-Cov-2 infectou, de acordo com a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong, pelo menos, “70% da população”, o que acabou por criar alguns constrangimentos nos dois hospitais da cidade.
Quatro mães, duas que já deram à luz e outras duas que se preparam para o fazer, conversaram com o PONTO FINAL e desabafaram as suas angústias e ansiedades. Acusaram os Serviços de Saúde de criar medidas “lamentáveis e desumanas” e até criminosas, comparando o facto de os recém-nascidos ficarem privados de um dos mais importantes momentos das suas vidas, logo que nascem, com “um rapto”.
Associação incrédula com separação de mães e bebés
Uma associação de amamentação de Macau expressou preocupação à Lusa com a separação à nascença de mães e bebés no único hospital público do território, que justificou a medida com “a situação da pandemia” de Covid-19. “É difícil de acreditar”, reagiu a presidente da Associação Promotora de Aleitamento e Cuidados Infantis de Macau (APACIM), que se mostrou “bastante surpreendida com a notícia”. Virginia Tam realçou que, mesmo que a mãe tenha Covid-19, a medida “não está em conformidade com as directrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS)” no que diz respeito à amamentação. “Desde o início [da pandemia], o requisito é que as mães fiquem com o bebé e cumpram os requisitos de higiene, como o uso de máscara, a lavagem frequente de mãos, mas a preferência é que a mãe e o bebé sejam mantidos juntos”, realçou a responsável, notando ainda “os benefícios do contacto pele com pele” entre mãe e filhos logo após o nascimento para, entre outros, facilitar a amamentação. A presidente da APACIM, Virginia Tam, chama a atenção para a população de Macau “que geralmente é muito obediente”: “Em geral, permite o que as autoridades impõem”, disse, fazendo menção ao facto de ninguém se ter queixado da situação.











