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      Peste e Cólera

      Patrick Deville

      Peste e Cólera

      Tinta da China

      Tradução de José Mário Silva

       

      O ROMANCE DE UMA VIDA

      Chegado às livrarias portuguesas com o Prémio Femina e o Prix des Prix de 2012 no currículo, Peste e Cólera é o segundo volume da colecção que Alberto Manguel vem dirigindo para a Tinta da China. No centro da narrativa está Alexander Yersin, cientista e tantas outras coisas, transformado por Patrick Deville em personagem da sua própria vida, em eco do seu tempo e em espelho onde se reflectem as histórias e as contradições de todas as vidas.

      Alexandre Yersin não é uma figura histórica sobejamente conhecida, ainda que a humanidade tenha para com ele uma incomensurável dívida. Foi Yersin quem descobriu e isolou o bacilo responsável pela peste bubónica, também conhecida como Peste Negra, ganhando o direito de o ver baptizado com o seu nome, Yersinia Pestis. Se não tivesse feito mais nada ao longo da vida, este momento seria já suficiente para que o recordássemos, mas se pensarmos nisso desse modo simplista esquecemos que ninguém faz apenas uma coisa ao longo da vida, e que mesmo esse momento foi o resultado de tantos momentos anteriores, naturalmente os do estudo e da investigação laboratorial, com as suas longas horas entre tubos de ensaios e seres invisíveis a olho nu, mas também os que o levaram a esse interesse pela vida microscópica, as brincadeiras de infância que contribuíram para tal, a história familiar que teve o seu papel, as ilusões e desilusões que se acumularam como em qualquer vida. E aqui estamos já no coração estrutural deste romance, que olha para a vida de uma pessoa sabendo que não há forma de lhe isolar os momentos, que todos os antecedentes têm um peso no que acontece depois, nesse futuro que vamos perseguindo ou evitando, e, ao mesmo tempo, sabendo também que não somos apenas o fruto das circunstâncias, temos um papel ao aceitar ou recusar certas coisas, fazemos escolhas, boas e más. Peste e Cólera avança com essa dualidade sempre presente, o que significa que avança com a mesma propensão para o desequilíbrio, os sustos e os salvamentos de última hora que cada um de nós também se sujeita a percorrer, independentemente de quão memoráveis ou anódinas são as coisas que vamos fazendo.

      Entre o estudo da vida microscópica e a apreciação do sossego numa vila piscatória do Vietname, Yersin andou pelo mundo, foi médico de bordo em vários navios, alimentou o fascínio pelos automóveis, cultivou a terra, observou insectos, introduziu novas plantas na flora vietnamita, foi negociante de borracha – e com os lucros dessa empresa financiou a continuação das investigações do Instituto Pasteur, depois da morte do fundador, seu mestre – e inventou uma espécie de Coca-Cola antes desta marca ter registado a sua patente. Pelo meio, foi fugindo de muitas coisas: do Instituto Pasteur, quando quis ser um viajante em vez de um cientista, da família, quando preferiu não alimentar raízes, das duas guerras que abanaram a primeira metade do século XX, de Hong Kong, quando descobriu o bacilo da peste e se fartou do modo como britânicos e japoneses o trataram, de Guangzhou quando iniciou o processo de vacinação e viu o seu trabalho dar resultados concretos – é nesta altura que passa por Macau: «Depois dirige-se a Macau, para junto dos portugueses, uma forma de fazer pirraça aos britânicos. Sabe perfeitamente que a novidade das suas vacinações vitoriosas atravessará a baía.» (pg.129). De tudo isso Patrick Deville dá conta neste romance, sem nunca fazer dele uma lista de feitos notáveis. Sim, a vida de Yersin é digna de admiração, mas o narrador de Deville está mais interessado em escrutinar os impulsos, as dúvidas e a psique deste homem que foi renascentista entre os séculos XIX e XX do que em alinhar factos para o espanto de quem lê. Discreto, o narrador faz algumas aparições, com isso garantindo que esta não é a biografia de Alexandre Yersin, mas um romance onde esse narrador tem o controle do ponto de vista e o poder de ir recuando ao passado sem nunca deixar de estar no seu presente. Talvez Peste e Cólera seja, na verdade um diálogo, com a particularidade de um dos dialogantes não responder, ou fazê-lo daquele modo que os mortos sabem, fazendo-se ouvir no que fizeram e prescindiram de fazer, ecoando no impacto que essas acções têm nos que lhes sobrevivem ou nos vivos de um futuro mais distante.

      Nesse diálogo, o narrador de Deville revela a sua própria demanda, a de resgatar a vida toda de alguém que admira, não pelos factos que se alcandoraram nos livros de História, mas por tudo, dos medos às descobertas, dos riscos corridos às desistências. E aí mostra a sua angústia por tudo o que se vai perdendo com o rolo compressor do tempo a deixar para trás histórias e vidas de que nunca saberemos nada: «Estendido dentro da água quente, o fantasma do futuro acende um cigarro e ouve o vento a agitar os ramos das árvores, lá fora, no parque. Sete mil milhões de seres humanos povoam o planeta actualmente. No início do século XX, eram menos de dois mil milhões. É possível estimar que um total de 80 mil milhões de humanos já viveram e morreram desde o aparecimento do Homo sapiens. É pouco. O cálculo é simples: se cada um de nós escrevesse a Vida de pelo menos dez pessoas durante a sua, nenhum seria esquecida. Nenhuma seria apagada. Cada uma delas atingiria a posteridade, e isso corresponderia a uma forma de justiça.» (pg.94) É essa justiça que o narrador de Deville procura, sabendo que não a alcançará, porque conta a história de uma só vida – mesmo que seja uma vida que atravessou tantas outras, quase um turbilhão. A escrita de Patrick Deville cresce a partir da vida de Alexander Yersin, mas Peste e Cólera não é uma biografia, importa repeti-lo, e muito menos uma hagiografia, é antes um belíssimo romance onde o devir de um homem parece refractar-se nos cenários onde se move, nas circunstâncias em que viveu, no contexto histórico que atravessou. E, acima de tudo, no futuro que já não conheceu.