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      EDITORIAL

      Em mês de atribuição do Nobel da Literatura, que este ano tocou à autora francesa Annie Ernaux, as polémicas que costumam suceder ao anúncio da Academia Sueca quase não se notaram. O tempo dirá se o sossego se deveu a uma unanimidade canónica ou ao facto de finalmente termos assumido colectivamente que o Nobel não é sinónimo de decreto-lei vitalício e incontestável sobre o melhor ou a melhor escritor/a do mundo. Basta percorrer a lista dos laureados para lá encontrar presenças que, passados poucos anos, são já pouco memoráveis, bem como ausências gritantes cuja injustiça não mais pode ser corrigida porque, entretanto, o potencial premiado acabou por morrer. E isto para não falar no domínio de laureados masculinos e de pele branca, algo que só recentemente se alterou, como se a boa literatura nascesse sempre de mentes pertencentes a corpos com essas características. Certo é que Annie Ernaux foi uma escolha segura e sem grande margem para contestações sérias. Dona de uma escrita incisiva, sem filtros perante o mergulho na memória e no modo como esta se cruza (e se deixa moldar) com o contexto histórico, e pouco interessada em adaptar-se a modas editoriais ou a temas lucrativos, a autora de O Acontecimento (recentemente publicado em português pela Livros do Brasil) figura entre os premiados por direito próprio e não destoa de tantos nomes memoráveis que lá chegaram ao longo do tempo. 

      Depois do período estival, as livrarias enchem-se das novidades que parecem ter ficado retidas nos meses mais quentes. Este ano, apesar da crise do papel que tem afectado editores e livreiros e das muitas incógnitas sobre o futuro do mercado do livro, não foi excepção. De entre as muitas dezenas de livros em português que chegaram às livrarias, focamo-nos nos autores africanos – que parecem estar em alta depois de tantos anos com pouca presença –, nas novas prosas de autores portugueses e nos vários títulos que nos chegam a partir da língua de Cervantes, ora a partir de Espanha, ora a partir da América Latina. São vinte livros para conhecer agora e fazer render até ao fim do ano, altura em que confirmaremos se o Natal trará uma nova enchente livresca ou se a crise vai mesmo refrear a indústria editorial.

      Nesta edição, há ainda espaço para conhecer o novo livro de Tereza Sena, Tomás Pereira e o Imperador Kangxi (Guerra & Paz), e para os habituais espaços de crítica e crónica. Regressamos em Dezembro, esperando que o balanço do ano seja mais risonho do que o ar do tempo parece anunciar.