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Sexta-feira, 12 de Agosto, 2022
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      EDITORIAL

      Abre-se o Livro do Desassossego ao acaso e deambula-se entre os fragmentos. Num deles, lê-se: «Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.» É Bernardo Soares quem o assina, mas é Fernando Pessoa que escreve. Ou será o contrário? Como em tudo o que diz respeito à obra desse nome maior da poesia portuguesa, não há uma resposta definitiva. Talvez nunca haja. Pessoa foi os seus heterónimos e os autores fictícios que inventou tanto como estes foram Pessoa e essa é uma das certezas que atravessa Pessoa – Uma Biografia, a obra monumental que ocupou Richard Zenith ao longe de quase treze anos e que configura não apenas a mais recente abordagem à vida do autor de Mensagem, mas também uma nova luz sobre alguns dos factos que compuseram essa vida e sobre as leituras possíveis que dela podemos fazer. É uma travessia de fôlego, a leitura desta biografia originalmente escrita em inglês e agora publicada pela Quetzal, mas no fim cumpre-se a esperança que Zenith connosco partilhou em entrevista, a de que este livro seja um modo de nos aproximarmos dessa extraordinária obra que Fernando Pessoa nos deixou.

      A autora australiana Linda Javin, em foco nesta edição do Parágrafo, arriscou um desafio inverso no que à dimensão diz respeito, assinando A Mais Breve História da China (acabado de publicar pela Dom Quixote) com a consciência de quão difícil é um exercício de resumo perante tão extenso e complexo percurso histórico. O resultado é conciso, mas não lhe falha a precisão ou a capacidade de bem sintetizar os grandes movimentos sociais, políticos e culturais que foram moldando o país que hoje conhecemos como China, nem a atenção aos anos mais recentes da governação chinesa.

      Já instalados nos escaparates das novidades editoriais, dois livros merecem a nossa atenção neste Junho, um de Pier Paolo Pasolini, O Odor da Índia, integrado numa nova colecção de literatura de viagens com chancela da Saída de Emergência, e outro de Giovana Madalosso, Tudo Pode Ser Roubado (Tinta da China), confirmando que a autora é uma das vozes recentes da nova literatura brasileira que vale a pena não perder de vista. Como sempre, contamos também com os nossos cronistas residentes, Yao Feng e José Luís Peixoto, para fazer da primeira edição do Verão que agora chegou um lugar de refúgio para o calor estival e as suas armadilhas.