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      Início Parágrafo Parágrafo #78 Macau e a sua imortalidade Na literatura e mais além

      Macau e a sua imortalidade Na literatura e mais além

      Jimmy Qi

      Consta que Macau, além de casinos, está repleta de dançarinas exóticas; logo, não será Macau uma cidade tão deslumbrante como uma dançarina exótica?

      Como um sorriso que se eterniza na escadaria das Ruínas de São Paulo, também a literatura se torna intemporal, significativa, até mesmo «imortal».

      Mas pode a Literatura tornar-se realmente imortal?

      Os chineses emanciparam-se há mais de uma década, quando os termos «português» e «serviçal» se tornaram homófonos em mandarim.

      Apesar de a nossa «Última Ceia» no Clube Militar ter terminado ontem à noite, apesar do cair das cortinas no palco da literatura, ou pelo menos no do festival, o aroma e o sabor do vinho branco persistem, e o tilintar de copos que brindam a trivialidades literárias ainda paira no ar.
      Como pode a literatura ter-se evaporado tão facilmente como o álcool?

      Notei que o sorriso de uma cidade é mais perceptível nas mesas das tascas do que nas mesas de jogo — mesas pequenas, espalhadas por ruas pequenas, onde as bocas pequenas da gente pequena soltam pequenas gargalhadas. Em Macau, podemos perceber isto em todo o lado.

      Não queria acreditar que o trabalho que faço à minha secretária em Pequim e Macau partilhavam originalmente o mesmo nome: «Arte». Ainda que o termo possa ser empregue enquanto metáfora tanto para Macau como para outros locais, noutras cidades trata-se de um erro de identidade.

      O verdadeiro nome de Macau, mais do que A_o_m_e_n_, é «Arte». Se acreditarmos que os princípios fundamentais da arte são liberdade, tolerância, prosperidade e conforto, perguntemo-nos então que outra cidade na China acolhe todos eles com tamanha elegância e generosidade. O seu espírito idiossincrático, inovador e prístino esteve sempre presente na literatura, na arte e na religião. Não colocando de parte a possibilidade de encontrar outra cidade assim, continuarei a minha busca, mas acredito poder vir a concluir que Macau não tem par.

      «Português» tornou-se «serviçal» e então, através do intercâmbio de saliva (linguagem) e de sangue (casamento), o espírito de l_a_i_s_s_e_z_-_f_a_i_r_e_ _da Europa Meridional foi enraizado, estabelecido, introduzido, integrado, macerado e injectado numa pequena e distante cidade asiática. Assim nasceu Macau: produto de séculos de casamento entre a «sabedoria» dos chineses do Sul e a «sabedoria» dos «serviçais culturais» do Sul da Europa.

      Os habitantes de Macau são relaxados. Vivem em constante lazer e despreocupação, e a «Arte» é a sua dançarina exótica num lânguido s_t_r_i_p_t_e_a_s_e_. Esta indolência está bem presente no facto de a palavra k_a_f_e_i_ _(café) ter ficado reduzida a um simples f_e_i_, e de a hora de começar o dia ter sido adiada das sete da manhã para as sete da noite (aqui estou a exagerar, é claro).

      10.Se os voos de Macau estão sempre atrasados e caóticos, é porque o mantra dos seus pilotos é: «Calma, qual é a pressa?»

      11.Os bairros de Macau são verdadeiros ninhos, onde vivem centenas de milhares de beija-flores, que falam dialectos sulistas e exalam aromas de flores meridionais. No interior daqueles edifícios de aspecto tenebroso, imagino, porque nunca lá entrei, deve haver amor, alegria, tristeza — cultura. Os moradores daqueles mesmos edifícios vão à missa, aos templos para as oferendas, ou a casas de chá com apenas a sílaba f_e_i_ _(de café) no letreiro. Não é este o verdadeiro significado da expressão «a arte de viver»?

      12.A cultura macaense é tão densa que chega a oprimir, tão densa que se torna confusa, tão densa que hipnotiza — será por ser autêntica, original e prístina?

      13.Quando se entra por engano numa floresta milenar, virgem e intocada, devastada pelo fogo há centenas de anos, mas reflorestada por árvores idênticas, fica-se perplexo perante a sua naturalidade, a sua coerência, a sua atmosfera relaxada e tranquila — a cultura macaense é precisamente assim. Centenas de anos de tolerância e coexistência, compromisso e admiração mútua deram origem a esta cidade multicultural no Sul da China que, de forma aparentemente aleatória e acidental, conservou esta «sobremesa cultural». Macau é de facto doce, fragrante, excêntrica e sedutora de fazer crescer água na boca. Mas por muito deslumbrante, sedutora e libertina que seja, Macau nunca perderá a sua naturalidade inata ̶ será esse o charme da menina Macau?

      14.O facto de Macau ser pequena e compacta livrou-a de ser fulminada uma e outra vez por bombardeamentos de raios e pela violência de um novo incêndio. De forma tranquila, segura, serena e pacífica, este pequeno enclave cultural «voou» através dos anos: voou por cima do fogo-cruzado, voou acima da inveja, voou bem acima de qualquer interesse, preocupação ou até cordialidade, voou entre adagas e punhais voadores e, mesmo tendo voado durante tanto tempo, ainda hoje plana sobre si mesmo.

      15.Macau é um milagre cultural, onde «milagre» pode ser substituído por «mediocridade» e «inacção».

      16.Macau é diminuta, mas ao mesmo tempo imensa e sem fronteiras. Macau é tridimensional, multifacetada e rica. É uma floresta virgem renascida das chamas de um incêndio centenar, intocada pelo Homem, um pedaço de cultura escondido e roubado mesmo debaixo dos narizes de biliões de pessoas ̶ o solo fértil e incontaminado das zonas húmidas, colocado em vasos de barro, como uma floresta de pequenas estátuas, como um cortiço de ninhos de andorinha — as pequenas moradias dos habitantes de Macau. Esta é a menina Macau: uma pequena casa, feita de pedras preciosas.

      17.Quando o Clube Militar se tornou o sítio da «Última Ceia» literária, a guerra já terminara e a paz fora restaurada. Com a intemporalidade e a imortalidade da literatura a serem celebradas num mega-casino, parecia difícil que a literatura renascesse. Mas a cultura não se encontra apenas na literatura. A arte está nos salões e museus. A cultura está nos edifícios, nas avenidas e nas vielas, para não falar do som das s_l_o_t_ _m_a_c_h_i_n_e_s_. Por isso, mesmo que não sejam inauguradas, comemoradas e anunciadas nos casinos, a arte e a cultura de Macau permanecerão imortais, grandiosas e eternas — desde que não tentem deliberadamente destruí-las. Não lhes batam, não lhes toquem. Os verdadeiros guardiões da arte são aqueles que ficam a meia-luz, apenas a apreciar a «bailarina cultural».

      18.Depois de muita celebração, o I Festival Literário de Macau foi solenemente declarado um sucesso, e a beleza de Macau — interior e exterior — está ainda mais voluptuosa e cheia de vitalidade, como a imaculada Virgem Maria e a deusa Nüwa, que se voltam para observar a multidão nas Ruínas de São Paulo — Macau e a sua beleza estão imortalizadas.

      Meio-dia, 3 de Fevereiro de 2012.
      Rabiscado no Galaxy, em Macau, antes do regresso a Pequim.

      TRADUZIDO DO CHINÊS POR MÁRCIA SCHMALTZ
      CONVERTIDO PARA PORTUUÊS EUROPEU POR HELENA RAMOS

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau