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Quarta-feira, 7 de Dezembro, 2022
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      CRÍTICA

      Lilian Thuram
      Pensamento Branco
      Tinta da China
      Tradução de Susana Sousa e Silva

      QUESTIONAR O PRIVILÉGIO, TENTAR PERCEBER O MUNDO

      Passou pelo Parma e pela Juventus, fez maravilhas ao serviço da selecção francesa de futebol e encerrou a carreira com a camisola do Barcelona. Quando arrumou as chuteiras, Lilian Thuram dedicou-se a desenvolver a luta contra o racismo que já havia marcado a sua carreira, algo que sempre incomodou algumas almas crentes na superioridade da pele branca (quando o líder da extrema-direita, Jean Marie Le Pen, declarou que Thuram era uma afronta à França, por ser negro e por ter nascido em Guadalupe, o jogador respondeu: «Se alguém vir Le Pen por aí, diga que se ele tem algum problema em ser francês, nós não temos.»). Em 2008, criou uma fundação em nome próprio suja principal orientação é a educação, aposta essencial contra o racismo e pelos direitos humanos.
      Depois do livro As Minhas Estrelas Negras, onde percorre as biografias de artistas, escritores, desportistas, cientistas e outras pessoas negras, cuja contribuição para a humanidade foi (ou é) indirectamente proporcional ao seu reconhecimento, Thuram avançou para esta longa reflexão sobre os mecanismos do preconceito racial, a sua interdependência relativamente a outros mecanismos sociais de poder, a ilusão dos que acreditam ser neutros e o racismo estrutural que tantos preferem ignorar. Pensamento Branco não será um livro fácil para a maioria dos leitores brancos. Obriga-nos a olhar para o passado e a embater nos processos de dominação sobre pessoas não-brancas que estruturaram a riqueza de tantos países, nomeadamente a aliança entre os discursos pseudo-científicos que procuravam legitimar uma suposta inferioridade dos negros e a assunção de que esses mesmos negros podiam ser escravizados sem que isso fosse considerado pouco humanista. Do ponto de vista histórico, este livro é um imenso desfile de horrores para os quais tantas vezes preferimos não olhar, recorrendo ao argumento de que tudo tem de ser visto à luz do seu tempo para sossegarmos a consciência, mas Pensamento Branco obriga-nos, sobretudo, a olhar para o presente – e aí está a sua imensa força – constatando que o racismo sistémico não é um discurso oco, é a realidade da sociedade que construímos e em que vivemos sem grandes sinais de desconforto.
      Lilian Thuram é extremamente didáctico na explicação desta realidade, debatendo os argumentos mais racionais e os absolutamente infundados, bem como no cruzamento das discriminações raciais com outras discriminações e várias dominações, da homofobia à exploração desenfreada dos recursos naturais de países mais pobres, do machismo ao controlo dos fluxos migratórios. Antes que alguém tenha tempo de recorrer ao estafadíssimo discurso que diz que “os negros também são racistas”, já o autor deixou claro que o racismo estrutural não é uma patologia social individual, aquele gesto xenófobo que discrimina o diferente e que pode, na origem e no alvo, vir de qualquer lado, ou não pertencêssemos todos à espécie humana. O racismo estrutural parte de uma ideia de neutralidade da pele branca (muito notória na ideia das “pessoas de cor”, ou “coloured people”, como se as pessoas não tivessem todas uma cor qualquer, confirmando que a percepção de determinadas cores gera o preconceito), e ruma em direcção à vigilância, dominação e discriminação de todas as pessoas não percepcionadas enquanto brancas. «Que significa ao certo ser branco no espaço público?», pergunta Thuram no seu livro. E prossegue: «Posso dizer-vos o que significa ser negro em determinados aglomerados populacionais: passar por uma operação de verificação de identidade várias vezes por semana.» Esta é a regra transversal à sociedade, não é um caso isolado de alguém que não gosta de outro alguém. Prosseguindo a desmontagem do argumento que invoca o racismo contra os brancos – curiosamente, um argumento que só vem à baila quando se discute o racismo estrutural, e sempre para desacreditar aquilo que se observa quotidianamente –, Thuram clarifica a questão: «O que parece certo, porém, é que o que hoje se designa por racismo contra brancos na sociedade em que vivemos nunca impediu um branco de encontrar uma casa, um emprego, e de circular no espaço público sem temer que uma simples operação de controlo policial possa ter um desfecho desfavorável para si pelo facto de ser “branco”.» Não devia ser difícil perceber isto, a não ser que o confronto com um privilégio que possuímos apenas pelo facto de termos a pele clara seja impossível de assumir. Estará aí parte do problema, mas onde está o problema está também a solução, que passará por uma aproximação sincera desse confronto.
      Haverá muitos detractores desta análise, mas ao contrário do que esses detractores dirão, Pensamento Branco não é uma acusação personalizada nem um ajuste de contas (e se há contas para ajustar nesta matéria!). Lilian Thuram sabe que a luta contra o racismo se faz com toda a gente, e quanto mais informação e vontade de olhar para essa informação tivermos, mais ampliaremos essa luta, até chegarmos àquele patamar tão utópico quanto desejável de ela já não ser precisa. Mas, para isso, é preciso honestidade: «(…) da mesma maneira que os homens beneficiam há séculos da dominação masculina, quer a contestem quer não, também os brancos beneficiaram e continuam a beneficiar da inferiorização sistemática dos não-brancos. Não se trata de desempenhar o papel de juiz e de proclamar com voz grave: reconhecem a vossa culpa? Trata-se, sim, de perguntar: aceitam que as coisas sejam nomeadas pelo que efectivamente são? (…) Na minha opinião, o único dever válido para as pessoas brancas de boa vontade é o de compreender o que aconteceu no decurso dos séculos passados e identificar os seus resquícios nos comportamentos actuais.» Não é um dever pequeno e o seu cumprimento já tarda. Fazia falta, por isso, um livro assim, didáctico e bem documentado, um gatilho para a reflexão individual e colectiva. Que essa reflexão convoque a História, mas também as experiências quotidianas, a análise de questões geo-políticas e económicas e a psicologia, só sublinha a necessidade de se discutir o racismo a partir de uma visão informada e complexa, que recusa o simplismo infantil do “ele bateu primeiro” e que sabe que quase nada é linear na natureza humana. Em última instância, e como diz o Lilian Thuram perto da conclusão, «o racismo é um logro: destrói solidariedades para que alguns possam explorar-nos a todos, seja qual for a nossa cor.» Já o sabíamos, mas talvez seja altura de o sabermos de outros modos para daí avançarmos noutra direcção.