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      InícioParágrafoParágrafo #78EM FOCO UM PASSEIO OCIDENTAL PELA CULTURA CHINESA

      EM FOCO UM PASSEIO OCIDENTAL PELA CULTURA CHINESA

      A sinóloga Ana Cristina Alves leva pela mão aqueles que estejam interessados em conhecer alguns dos aspectos mais interessantes daquela civilização milenar. Cultura Chinesa – Uma Perspectiva Ocidental vai da língua à filosofia, da mitologia às festividades mais emblemáticas do País do Meio.

      «Confúcio disse: deve viver-se num lugar onde haja homens de benevolência. Caso contrário, como pode alguém ser considerado sábio?» A citação provém dos Analectos de Confúcio e está entre as várias passagens de textos clássicos chineses utilizadas pela sinóloga Ana Cristina Alves no livro Cultura Chinesa – Uma Perspectiva Ocidental (Almedina) para ilustrar as diferenças entre a cultura ocidental e a cultura do País do Meio.
      Nesta obra recentemente publicada, Alves propõe-se «relacionar modos de pensar diversos, tradições filosóficas dissemelhantes, tentando compreender como pensam asiáticos chineses e ocidentais fiéis à tradição grega» (p.5). Para fazê-lo, começa por uma breve introdução à língua chinesa, antes de avançar para o capítulo dedicado às várias correntes filosóficas chinesas. Aí, dedica páginas ao Confucionismo, ao Moísmo, ao Taoismo, ao Legalismo e ao Budismo, procurando definir as origens e as principais características destas correntes ao mesmo tempo que vai definindo conceitos importantes, até para compreender a organização política da China actual, como o conceito de harmonia. Tal como explica na abertura do capítulo terceiro, dedicado à filosofia política e à economia, «o socialismo espiritual chinês significa, na prática, uma aplicação do conceito de harmonia em termos culturais, por via da recuperação de uma antiga filosofia, a confucionista, na defesa dos valores ético-morais ou espirituais, que agora se harmonizam com o materialismo comunista dos novos tempos chineses»(p.59). Trata-se, então, de uma «revalorização dos valores confucionistas». A académica assinala a presença dos ensinamentos confucionistas nos discursos do antigo presidente chinês Hu Jintao, mas reconhece o reactivar desses mesmos ensinamentos mais atrás, durante os anos de Deng Xiaoping, referindo que, a partir de 1982, «os chineses deixam de encarar Confúcio e a sua filosofia como fontes de uma mentalidade conservadora e reaccionária» (p.60). Desde essa altura, considera Alves, «não mais os chineses deixaram de pugnar pelo seu socialismo espiritual, pragmaticamente falando, pelo regresso dos valores morais que se desenvolveram, não apenas na China, mas que se têm a vindo a espalhar pelo mundo inteiro», destacando neste particular o importante papel dos Institutos Confúcio, que têm por missão o ensino da língua e da cultura chinesas e que estão espalhados um pouco por todo o globo, incluindo Portugal.
      Ainda no mesmo capítulo, o multiculturalismo ao serviço do patriotismo e o nacionalismo são dissecados nas suas vantagens e desvantagens. O chamado “Sonho Chinês”, através da modernização do campo, da indústria, da ciência e da tecnologia; o princípio estratégico “Uma Faixa, Uma Rota” e outros baluartes da actual filosofia política chinesa vão sendo descritos e comentados, sempre com recurso a uma extensa bibliografia ocidental e oriental, clássica e contemporânea, que a investigadora vai pondo em diálogo – entre os vários trabalhos de autores portugueses que Alves refere estão os de Carmen Amado Mendes, presidente do Centro Científico e Cultural de Macau e responsável pela coordenação deste livro.

      O Zodíaco e outras mitologias

      No capítulo que trata da Mitologia e Simbologia Animal, Ana Cristina Alves começa por elucida o leitor sobre as diferenças entre o calendário gregoriano e o calendário lunissolar, esse ainda bastante presente na China contemporânea, por ser nele e através dele que se assinalam as datas mais importantes da cultura sínica, como o Ano Novo Chinês.
      O Zodíaco Chinês, composto por 12 animais, é apresentado em detalhe, desde a lenda da corrida lançada por Buda que lhe terá dado origem, às características de cada signo. E há algo importante a reter, lembra a autora: «Ao longo da sua história, os chineses acreditaram sinceramente nas características dos signos, guiando-se pelas compatibilidades celestiais, ao ponto de nem sequer avançarem, por exemplo no que se refere aos relacionamentos sentimentais, para envolvimentos mais sérios sem primeiro terem consultado a carta astral do seu parceiro/a» (p.79). Outras figuras da mitologia chinesa com características animais têm também lugar no livro, como os imperadores Fu Xi e Nu Wa, que «possuíam corpo de serpente e cabeça humana» (p.119).
      Nas páginas dedicadas à Simbologia Caligráfica, apresentam-se as ideias estruturantes da cultura chinesa, como a cultura alimentar; a atracção pelo pensamento concreto que se reflecte na escrita, em especial nos pictogramas; os cinco elementos do universo chinês – a madeira, o fogo, o metal, a água e a terra, criando juntos uma filosofia que «organiza a vida dos chineses aos mais diversos níveis existenciais, do astrológico ao gastronómico» (p.129); a plasticidade da escrita chinesa, que lhe permite gerar trocadilhos inusitados; as festividades mais marcantes da cultura chinesa; e ainda uma série de caracteres filosóficos.
      A fechar, Ana Cristina Alves escreve: «Se tivéssemos de dividir o mundo por posturas filosóficas, no Ocidente reina a crítica e no Oriente chinês a harmonia» (p.175). A autora recorda, se preciso fosse, que «o mundo não pensa todo da mesma maneira e existem tendências, senão inatas pelo menos culturalmente inculcadas ao longo de séculos, que é preciso respeitar», mostrando «abertura e diálogo a outras formas de saber» – algo que este livro por si assinado logra alcançar.