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Sexta-feira, 24 de Maio, 2024
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      Porque escreve?

      Para mim, escrever livros é passar muitas horas fechado nesta salinha. Duas janelas pequenas que nunca abro. Suficientes para ver se é dia ou se é noite, se está sol ou se está chuva, embora nada disso seja importante dentro desta salinha onde estou.

      Às vezes, há pessoas que me telefonam. São normalmente pessoas que me dizem o seu nome e que me pedem alguma coisa. Os meus amigos telefonam-me cada vez menos. Quando ainda me telefonavam, convidavam-me para ir a muitos sítios e eu dizia sempre que não. Um romance nunca está acabado, é a desculpa perfeita para ter sempre algo para fazer. Dá trabalho para todas as horas do dia e, quando se chega ao ponto final, pode sempre começar-se outro romance. Quando os meus amigos ainda me telefonavam, eu perguntava-lhes: porque é que não passas por cá? Alguns vinham. Tentavam arranjar um lugar para se sentarem entre os livros, e eu não lhes ligava, respondia às novidades com um ah desinteressado. Os meus amigos, mesmo os mais resistentes, deixaram de aparecer e de telefonar.

      Nesta salinha, a minha vida inteira transformou-se em palavras escritas. A minha vida flui escrita pelo som dos meus dedos neste teclado, reflectida neste ecrã que também reflecte a pouca luz da janela. No entanto, tudo isto começou com um equívoco.

      Tinha vinte e cinco anos, mas parecia mais velho. Na altura, andava entusiasmado por uma rapariga que lia livros. Eu não lia. A ideia de segurar um livro com as duas mãos era suficiente para me aborrecer. Ainda assim, o que imaginava acerca dessa rapariga que lia livros, os sentimentos vagos e confusos que nutria por ela levaram-me a uma biblioteca onde, naquela tarde de sábado, ia ter lugar um debate com escritores. Cheguei atrasado. Ela estava sentada na terceira fila. Os escritores estavam de mãos nos bolsos, ou a olhar para todos os lados e a conversar. Soube mais tarde que esperavam um colega escritor que estava atrasado. Andava eu a procurar um lugar nas cadeiras da fila da frente, de preferência, um lugar que ficasse no campo de visão dela, que a obrigasse a olhar através de mim quando quisesse ver a mesa com o arranjo de flores. Mas, ao dirigir-me para uma cadeira vazia, que ficava mesmo à frente dela, alguém da organização agarrou-me no abraço e disse: isto é que são horas? Vamos começar. E sentou-me numa cadeira. O senhor que estava ao centro apresentou-nos e, quando chegou a minha vez, começou a enumerar adjectivos que nunca ninguém tinha utilizado referindo-se a mim: magnífico, grandioso, soberbo. Depois, disse um nome que não era meu, mas que a partir daquele momento, dentro de mim, adoptei como se tivesse sido escolhido pela minha mãe e pelo meu pai em conferência à volta do meu berço. E participei na discussão de livros que não tinha lido e que não tinha escrito com um à-vontade que ainda hoje não sei justificar. Quando acabámos, apresentaram-me ao presidente da câmara, mas não tive tempo de o cumprimentar devidamente, porque fui empurrado para uma cadeira atrás de uma mesa, onde havia uma fila de pessoas. Queriam autógrafos e dedicatórias, cada pessoa queria uma dedicatória personalizada e esmerei-me: para a Maria Filomena, com os votos de que este romance a possa aquecer nas noites de Inverno; para o João Floriano, com a esperança de que encontre neste romance a resposta a algumas das perguntas que a vida nos coloca. Depois, improvisava um risco que tanto podia ser a assinatura do escritor com que me confundiam, como podia ser a minha própria assinatura, como podia ser a de qualquer pessoa, pois não se distinguia nenhuma letra naquele risco. De repente, olhei para cima e estava o olhar dela a estender-me um livro: para a Ana Rosa, esperando que, depois das páginas deste livro, encontre o amor sincero que todos procuramos. Nunca mais a vi. Mas, nesse dia, quando cheguei a casa, descalcei-me, deitei-me sobre a colcha da cama e fiquei de olhos abertos a pensar. Decidi que ia ser escritor. Agarrei num papel e escrevi um poema lamentável.

      Foi isto que me apeteceu contar quando, na semana passada, numa escola secundária, uma aluna, muito nervosa, a falar como se lesse, sob o olhar atento da professora, me perguntou: porque escreve? Apeteceu-me contar-lhe esta história, mas respondi: escrevo porque não posso deixar de escrever, porque já não sei fazer mais nada. Também é verdade.

      Passaram anos desde o dia em que fui confundido com esse escritor que já toda a gente esqueceu. Anos de livros, anos de escrever, rasgar, escrever de novo. Hoje, os meus amigos não me telefonaram. Hoje, fiquei fechado nesta salinha de duas janelas pequenas que nunca abro.