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      EDITORIAL #72

      Cultura – Opinião – Editorial Parágrafo

       

      Numa entrevista dada em 2019 à revista The Believer, Yan Lianke disse que começou a escrever no momento em percebeu a enorme distância entre a vida e a literatura. O comentário referia-se aos livros que conhecia até aí, quase todos com personagens heróicas que se sacrificavam pela pátria. Alistado nas forças armadas chinesas e colocado perante a ameaça da guerra, constatou que na vida real os heróis preferem não morrer. Nascido numa casa sem livros e numa aldeia sem biblioteca, a literatura que conhecia antes desse momento epifânico reduzia-se a alguns clássicos da literatura chinesa e a muitas narrativas de propaganda. A partir daí, começou a criar o seu próprio mundo, assumindo a contingência de não poder escapar totalmente do mundo em que vive. O resultado é extenso e reparte-se por dezenas de romances, contos e ensaios. No seu mais recente livro traduzido em português, Crónicas da Explosão (Relógio D’Água), aproximamo-nos desse mundo com a certeza de as suas contradições e o seu tremendo absurdo quotidiano serem reflexo daquilo que também vivemos. E percebemos que a aldeia de Explosão não é apenas uma paródia, mas talvez seja um retrato múltiplo, quase fractal, de tantas das nossas realidades. Entramos, então, no mundo de Yan Lianke pela porta da Explosão.

      Os podcasts têm-se multiplicado no espaço virtual e a literatura vai sendo um dos temas possíveis para alimentar esta vaga. Escutámos atentamente quatro programas que permitem estar a par do que se vai escrevendo na China, com a particularidade de podermos escutar três deles em inglês, ajudando a quebrar a barreira linguística que tanto dificulta uma circulação literária que todos desejaríamos mais intensa.

      Nesta edição, espaço ainda para regressar à poesia japonesa pela mão de Jorge Sousa Braga e da sua tradução dos poemas de Kamo No Chomei. Partimos do autor de Hojoki, mas estendemos o percurso a uma mão-cheia de livros publicados recentemente que revisitam o Japão e a sua cultura.

      Ao Japão e à sua poesia, juntam-se outras leituras, de Chico Buarque a Henry Miller, passando pelas habituais contribuições dos nossos cronistas residentes, Yao Feng e José Luís Peixoto. Em tempos de fronteiras fechadas e circulação interrompida, sobra a viagem com e pelos livros.

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau