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      Início Sociedade “Quando uma guerra está entregue a um louco, tudo é possível”

      “Quando uma guerra está entregue a um louco, tudo é possível”

      A frase foi proferida por Manuel da Silva, ex-combatente no Ultramar, durante uma conversa com o PONTO FINAL. “O Governo pode estar a falar umas coisas e estarem a acontecer no terreno coisas mais graves, gravíssimas até”, admite o antigo militar, aludindo ao enquadramento real dos conflitos bélicos entre a Ucrânia e a Rússia.

       

      Manuel da Silva comandou pelotões no terreno, em Moçambique, durante os últimos anos da Guerra do Ultramar. O engenheiro aposentado que, recentemente, editou as suas memórias daqueles anos em livro, acedeu a comentar o conflito bélico do momento, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia.

      Ao PONTO FINAL, explicou, em traços muito básicos, a grande diferença entre o conflito actual e aquele que vivenciou nos anos de 1970. “Nós temos que distinguir as duas guerras. O conflito na Ucrânia e a guerra no Ultramar. Enquanto que nós, em África, tínhamos um inimigo que estava nas matas, escondido e camuflado, na Europa a guerra é directa, ou seja, é uma guerra de tipo clássico, se assim posso dizer”, começa por dizer Manuel da Silva.

      O antigo combatente no Ultramar não quis discutir pressupostos, mas, no seu entendimento, a Rússia, “ou melhor, Putin, teria como objectivo, pensou ele, que os ucranianos batiam palmas à medida que as tropas e os carros de combate passassem em coluna pelas estradas. Com certeza pensou que tinha aquilo tudo no papo, mas enganou-se”.

      Manuel considera que os ucranianos mostraram-se, e continuam a mostrar-se, “orgulhosos da sua nacionalidade”. “Isso tem trazido à Rússia grandes dificuldades”, assume, acrescentando que o maior êxito reside, precisamente, “nos tais territórios ucranianos que ele reconheceu como repúblicas independentes”.

      Ainda assim, o ex-militar, lembrando-se ao mesmo tempo de episódios vividos em África, nota que Vladimir Putin “continua na senda de atacar a capital da Ucrânia, Kiev”. “Tenho para mim que o objectivo dele é o de aniquilar o presidente da Ucrânia. Porque se conseguir matá-lo, o país fica refém e surge a oportunidade dele próprio escolher um presidente favorável aos seus pensamentos e da sua confiança. Esse é o seu verdadeiro objectivo”, atira.

      De facto, as guerras são diferentes, não só pela décalage temporal e a consequente diferença tecnológica e bélica, mas também na forma como em ambas os conflitos decorreram e decorrem. “Ele está a destruir os meios militares da Ucrânia, mas também edifícios públicos e governamentais. Tudo o que tenha o carácter político, ele destrói. As comunicações também destrói”, constata Manuel da Silva.

      O antigo engenheiro da CEM também não deixa de comentar os ataques direccionados a edifícios civis. “Obviamente se lançam mísseis para uma cidade à procura de um edifício estatal, pode acontecer que alguns desses projécteis destruam outros edifícios. São efeitos colaterais, embora eles digam que não matam civis.”

      Agora, como no Ultramar, Manuel da Silva considera que há aproveitamentos, “porque em todas as guerras há aproveitamentos”. “Todos têm de sair bem na fotografia”, sugere. “Há sempre aquelas acções que não são propriamente planeadas para um teatro de operações, que acabam por acontecer e que servem a hierarquia militar e não propriamente os Governos.

      O Governo pode estar a falar umas coisas e estarem a acontecer no terreno coisas mais graves, gravíssimas até. Nas guerras há sempre uma falta de enquadramento”, referiu, notando alguma lembrança do passado, que não soltou naquele momento.

       

      O terror em África

      Com o desenrolar da conversa, Manuel da Silva foi-se deixando levar pelas memórias mais antigas, dos tempos idos do final da década de 1970, em Moçambique, quando combatia na província de Tete, junto ao rio Zambeze. As memórias de quem viu a morte de perto. “Em África, um tipo em três minutos fazia uma guerra. Bastava matar o dono de uma casa e depois fugir, para lançar o pânico. Deixava de haver circulação por causa do medo. Criavam uma espécie de terror”, assume, explicando que, na Ucrânia, a população continua a circular nas ruas, “porque não há, digamos, o tiro directo a um e a outro, mas depois são atraiçoados”. Explique isso dos atraiçoados, pedimos. “Caem-lhes os prédios em cima, vão para os abrigos subterrâneos e os edifícios continuam a cair-lhes em cima. Depois, os feridos acabam por morrer porque não são logo acudidos. Não há cuidados básicos”, considera, lembrando que “a Covid-19 obviamente não acabou na Ucrânia e isso é mais um motivo para as pessoas adoecerem”.

      O português considera que o que está a ocorrer na Ucrânia “é uma catástrofe”. “Essa catástrofe não surge apenas pela morte directa das pessoas, mas pela destruição de edifícios que eram o suporte económico, político e social do país.”

      E quais serão as cenas dos próximos capítulos. Manuel da Silva não é futurista, mas admite que “quando uma guerra está entregue a um louco, tudo é possível”. “Putin deve ter pensado na estratégia, acredito eu, no seu juízo normal, mas agora, com tantas falhas e revés, quando são acusados de genocídio, é natural que Putin comece a perder o controlo. Das duas uma: ou mata-se ou então continua no poder a fazer coisas muito piores, que podem passar, muito claramente, por um lançamento de uma bomba nuclear”, atira o antigo paraquedista.

      Ainda assim, lembra Manuel da Silva, “quem está no terreno são os militares”. E o que isso significa, perguntamos. “Quando estamos fora do controlo directo do comandante, no terreno vamos encontrar situações que não foram previstas e não foram planeadas, coisas que não havia ideia que pudessem acontecer. Muitas vezes os militares fazem coisas contrárias àquilo que estava estipulado. Para o bem e para o mal. Pode matar-se mais, destruir-se mais. E claro, se os militares quiserem, também podem não acatar as ordens de quem manda. Depois disso, quem julga é a comunidade internacional.”

      Conversações é que não levam a lado algum. Para o antigo combatente no Ultramar, “isso não tem significado algum, até porque eles já têm vindo a conversar, basta ler e ouvir os discursos de um e de outro”. “Indirectamente ambos conversam e todos sabemos o que ambos defendem. O cessar fogo tem de partir da Rússia porque foi a Rússia que causou o conflito. Falta que surja um mediador da confiança dos dois lados que venha com propostas concretas e realistas”, admite, sugerindo que muito provavelmente, entre o deve e o haver, “o presidente ucraniano terá de abdicar dos território, para a Rússia poder dizer ao mundo que conseguiu o reconhecimento da independência das províncias ucranianas. Todos têm de sair vitoriosos”.

      Manuel da Silva foi peça em teatro de operações. Comandou pelotões nas savanas africanas, numa altura em que ninguém ousava em sequer pensar em bombas atómicas, quanto mais falar. Vivia-se um tempo de Guerra Fria e a prudência era palavra de ordem. Mas agora, teme o português, “tudo é possível”. “Já estivemos mais longe de uma terceira guerra mundial. Não me admiro que meta nuclear para loucos, ou seja, mediante a evolução dessa guerra pode surgir uma loucura dessas em que se accione o lançamento de uma ou mais bombas atómicas. Ninguém no seu estado emocional normal faria isso, mas um desesperado, um louco fará isso de certeza, porque já perdeu e nada mais tem a ganhar. Uma guerra nuclear será devastadora no mundo, mesmo que a mesma se cinja a uma pequena parte do planeta”, desabafa.

       

       

      PONTO FINAL