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      Início Parágrafo Parágrafo #74 ESTATIGRAFIA AFECTIVA DE UMA CIDADE

      ESTATIGRAFIA AFECTIVA DE UMA CIDADE

      As cidades constroem-se com muitas camadas e nem todas se alimentam de tijolo, cimento e vidro. Quem lá vive, por muito ou pouco tempo, quem atravessa as ruas e faz dos cafés um porto seguro, todos quantos guardam na memória um episódio que seja onde um bairro, uma casa, um caminho é elemento essencial, todas essas pessoas acrescentam algo à cidade – e a si próprias. O mais recente livro de Daniel Blaufuks assume essa premissa, deambulando por uma Lisboa que já foi, mas também pelas sinapses e os afectos de um autor que foi e é. Por vezes, escuta-se o eco de García Llorca ou de W. G. Sebald, as cidades nascendo de quem as escreve e de nada mais, mas é apenas um entre os tantos rumores possíveis, mais devedor da concretização deste livro em cada leitor do que de qualquer marca que nele possamos apontar.

                  Lisboa Clichê começa por parecer um livro sobre a Lisboa dos anos 80 e 90 do século passado. Também o é, mas não será aí, no simples gesto documental ou na deriva nostálgica, que se encontra o seu âmago. Estão lá muitas fotografias capazes de apontarem esse caminho, sim, das noites dançantes do Frágil ao cafés que desapareceram para dar lugar a bancos e cadeias de fast-food, e quem conheceu a cidade nessas décadas já distantes reconhecerá lugares, ambientes, talvez mesmo pessoas. No entanto, este é um livro que se faz de imagens e palavras, sem que as segundas sejam legenda das primeiras, como poderia esperar-se num álbum. Lisboa Clichê é um livro de bolso, ainda que com quatrocentas páginas, e é um livro para se ler tal como se lê um romance, um ensaio, um diário. Textos e imagens concorrem para a construção de sentidos e é na imbricada relação entre ambos que se constrói a leitura. De certo modo, como já acontecia com Não Pai, o livro anterior do autor, muito mais breve e com mais texto do que fotografias, mas ainda assim um ponto reconhecível naquilo que podemos intuir ser uma constelação, uma linha de trabalho que assoma no percurso do autor e que parece ganhar corpo nestes dois livros. E tal como Não Pai, também Lisboa Clichê se ergue entre a memória como documento e a memória como construção, colocando um narrador em busca de si próprio através de uma multiplicidade de gestos que incluem o olhar, o escrever, o questionar e, sempre, a recusa de respostas cabais, fechadas e sem espaço para novas perguntas.

      Este é um livro a dois tempos. Nos anos 80 e 90, Blaufuks fotografou. Algumas imagens nasceram do acaso, da presença da máquina fotográfica que o acompanhava muitas vezes e que permitiu registar instantes, visões de uma rua, um pescador à beira do Tejo, a noite do Rossio envolta numa certa névoa. Outras decorreram do trabalho que o fotógrafo desenvolvia na imprensa, concretamente n’ O Independente, como as do incêndio do Chiado, em 1988, ou alguns retratos de figuras conhecidas, como Natália Correia ou Fernando Lopes Graça. As que tinham um destino definido foram reveladas e entregues para publicação, as outras ficaram esquecidas nos negativos. Até agora. E foi neste agora que nasceram os textos, bem como a estrutura do livro, o que faz de Lisboa Clichê um estranho diário, um objecto que nasce no território imprevisível (e sempre menos controlado do que acreditamos) da memória e, sobretudo, um extraordinário ensaio sobre como existimos e de que sortilégios somos realmente feitos.

      O diálogo que o Blaufuks de hoje estabelece com as imagens que registou há décadas é o que dá corpo a Lisboa Clichê, mas esse diálogo é múltiplo nas suas direcções e nos seus interlocutores. Uma fotografia matinal numa das ruas da Baixa, com eléctrico ao fundo, enfrenta um texto onde o autor recorda ter descoberto uma certa magia no amanhecer lisboeta, convocando a canção de Sérgio Godinho e tudo, a muitos quilómetros da cidade e até do país: «não foi em Lisboa que eu descobri este encontro, foi em Atenas, na última noite do meu inter-rail, quando já não tinha dinheiro para uma pensão (…).» Lisboa Clichê faz-se desse vogar permanente entre espaços e tempos, rejeitando a cronologia como rígida marcação do tempo e assumindo que, se existimos numa espécie de perpétuo agora, não deixamos de ser sujeitos intemporais, nem de ter o passado – o que vivemos, mas também o que nos antecedeu e ouvimos contar, ou lemos, ou apenas intuímos – a integrar-nos os dias. A dada altura deste livro, o autor confronta-se com um auto-retrato, feito no espelho do elevador da casa onde morava, num momento em que regressava de uma saída nocturna: «Agora que aquele eu, que era eu, não há dúvida disso, sou eu, mas também já não sou eu, um eu que era e que, até certo ponto, ainda sou, mas que não voltarei a ser, um eu que não sabia que um dia iria olhar para si-mim e pensar que passou muito tempo e não passou tempo nenhum, ainda ontem estava a entrar neste elevador, a apontar a máquina (…)» As fotografias que aqui vemos são registos de um tempo passado. O livro que agora existe não poderia existir noutro tempo que não o presente, ou melhor, o tempo posterior a esse passado – que há-de ser também passado muito em breve, se não o for já, e que não deixa igualmente de ser futuro. Não é física quântica, é um gesto talvez igualmente complexo, ciente de que a memória é algo que construímos, mas também aquilo que nos constrói, individual e colectivamente.

       

       

       

       

      Daniel Blaufuks

      Lisboa Clichê

      Tinta da China