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      Início Parágrafo Parágrafo #74 Revisitando A Jangada de Pedra, de José Saramago

      Revisitando A Jangada de Pedra, de José Saramago

      José Saramago, normalmente a partir da escolha de um símbolo e de uma construção ficcional que se desenrola em dois planos narrativos distintos, parte para uma efabulação romanesca mais ou menos densa e codificada, mas que se constitui sempre como uma sátira aos “tempos modernos” – instaurando deste modo na sua obra a imprescindibilidade da História e arrastando consigo o leitor para um debate sobre a dimensão ética da literatura. Esta questionação do contemporâneo surge quase invariavelmente em função de um tratamento imaginativo do tempo, de uma abordagem crítica do passado, consubstanciada num diálogo entre este e o futuro; é o caso de Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa.

      A Jangada de Pedra é um romance que se constrói igualmente sobre dois eixos narrativos (o plano do real e o plano do maravilhoso), mas o processo surge aqui sob outra faceta e é o espaço que é alvo de uma recriação alegórica, pela acumulação intencional de símbolos. A intriga decorre num mundo real, a Península Ibérica, e esta é simultaneamente um outro mundo concebível, imaginável e em parte apenas existente na imaginação. Com efeito, é o plano do maravilhoso que vai surgir como integrativo e explicativo desse “real”, percecionando-o em função do insólito que o altera radicalmente, aproximando-se a obra do género utópico, pelo seu teor fortemente moral e crítico .

      Temos assim, à partida, um conjunto de enigmas que enformam a arquitetura narrativa da obra: Joana Carda risca o chão com uma vara de negrilho e, simultaneamente, abre-se uma fenda nos Pirenéus; Joaquim Sassa atira com uma pedra ao mar, que não está ao alcance das suas forças; José Aniço é perseguido por um bando de estorninhos quando se desloca e Pedro Orce, o espanhol, sente continuamente a terra a tremer. A intriga vivida por este grupo vai situar-se no plano do maravilhoso e os seus mistérios, tal como os seus destinos, entrelaçar-se-ão: os dois primeiros homens partem para Espanha, em busca do último e posteriormente regressam os três a Portugal, onde são procurados por Joana Carda. Esta levá-los-á à Ereira e mostrar-lhes-á o risco feito pela vara. Finalmente surgirá um cão, com um fio azul na boca, que os guia de novo até Espanha, onde encontrarão Maria Guavaira, a última personagem do insólito grupo.

      A efabulação surge, portanto, enraizada nos cânones tradicionais, mas fazendo intervir no seu desenrolar o maravilhoso e o fantástico, aliás eixos fundamentais do romance de Saramago, a par da temática da viagem (por terras, ares, memórias e pela própria imaginação do homem). Ora esta temática é igualmente retomada, na medida em que a viagem de reconhecimento que o grupo empreende até á fronteira, para ver o local onde se deu a rutura da Península surge fundamentalmente como uma demanda gnosiológica, dos personagens enquanto indivíduos- a busca do conhecimento conduzi-los-á a uma responsabilização radical de “ser com o outro”, criando assim um destino próprio e autêntico: é nesta medida que José se apaixona por Joana, Maria por Joaquim e Pedro Orce se apega ao cão, o único que como ele sente a terra a tremer. Mas a temática da viagem é ainda visível na transformação da Península em “jangada de pedra”, personagem principal sulcando um mar de novo desconhecido, acontecimento inexplicável, que passa pela sugestão de um iberismo histórico e por um apelo a uma aliança de interesses comuns, de busca de uma identidade agora coletiva, simbolizada na  sua imobilização entre a África e o Brasil- a afirmação de que a Península nada tem a ver com a Europa no plano cultural e o sonho de uma “bacia cultural atlântica” são evidentemente legíveis à luz de uma ideologia e de um momento histórico precisos, mas sobretudo do “sonho” de Saramago com “uma enorme área ibero-americana e ibero-africana, que terá certamente um grande papel a desempenhar no futuro”.

      Às valorações procede o narrador através da ironia: ao longo desta “viagem” da Península Ibérica transformada em ilha à deriva pelo mar, arrastando populações aterradas pela iminência de colisão com os Açores, é também ferozmente criticada a hipocrisia de sistemas políticos e governos, através de descrições sarcásticas e excursos do enunciador – desde as descrições das diversas reações oficiais aos acontecimentos (portuguesas, espanholas, europeias e mundiais), às das consequências sociais (traduzidas em atropelos, convulsões, migrações e êxodos) e ainda  às das sequelas psicológicas (a perplexidade e interrogação sobre as causas do acontecimento). Esta crítica serve-se de um discurso ficcional engenhosamente construído, assente num constante contraponto personagens/narrador que, respeitando a lógica da narrativa comum, altera a expressão gráfica e pontual da mesma, criando assim uma relação de quase simbiose entre o narrador e o narrado. Implicando entre si os planos expressivos da fala, do pensamento e da escrita, é privilegiado o discurso interior, sob a aparência de um respeito primeiro pelo discurso das personagens.

      Todos elementos até aqui referidos- a recriação do tempo e do espaço, o sobrenatural, a continuidade discursiva e a temática da viagem- que aparecem, como já se disse, reorganizados de um modo fortemente alegórico em J.P., contribuem para a construção do teor eminentemente crítico, moral e utópico da obra, conjugando-se ainda para dar um sentido simultaneamente poético, político e existencial a este romance. Por tudo isto se pode falar de uma dimensão ética na escrita de Saramago: o sentido poético aponta para a recriação do mundo e da vida, visível sobretudo nas personagens que buscam o conhecimento e se deparam com o amor como via privilegiada para atingi-lo- a viagem que empreendem por espaços, meios e sujeitos culmina com a gravidez de todas as mulheres férteis da Península e com o florescimento da vara de negrilho que Joana Carda espetara na sepultura de Pedro Orce. Por outro lado, a rutura da Península Ibérica em relação ao continente europeu, ela própria buscando o seu lugar, simbolizado na sua paragem entre a África e o Brasil  é, como se viu, uma formulação poética, mas que acarreta uma evidente intenção político-social. Finalmente, o sentido existencial de J.P. constrói-se a partir da fábula de um grupo que irá fundar o seu sucesso no encontro individual de cada um consigo próprio passando pelo outro que lhe dá razão de ser, mas também no seu encontro com a terra que o suporta. É, aliás, no interior desta lógica que morrem Pedro Orce e o navegador solitário e parte o cão, instrumento de um destino que finalmente se realizou. Ficam os casais e as crianças por nascer- e com eles, a aprendizagem de um sobrenatural que faz parte intrínseca da natureza, da capacidade de decisão e responsabilidade que pode levar o homem a enfrentar o destino, a força dos afetos e a integrar o imaginário na racionalização do viver- o sentido inaugurador do futuro.