Memória de tigre de papel

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Durante décadas, não se podia falar porque não convinha. Agora, ainda que talvez continue a não ser conveniente, não se se fala porque já caiu no esquecimento. Quem se lembrou, no passado dia 3 de Dezembro, que passaram 55 anos desde o “1, 2, 3”?

Os ventos fortes da Revolução Cultural que agitaram Macau no final de 1966 (e durante a totalidade de 1967) continuam a fazer sentir a sua ressonância, apesar de constituírem um tabu há muito “riscado do calendário e da história oficial”, como escreve José Pedro Castanheira na introdução de “Os 58 Dias que Abalaram Macau” (1999), livro que relata os acontecimentos entre o assalto aos símbolos coloniais por parte de uma multidão inspirada pelos “guardas vermelhos”, no dia 3 de Dezembro, e a capitulação portuguesa, no dia 29 de Janeiro de 1967, que incluiu um pedido público de desculpas do governador Nobre de Carvalho, subscritor de um acordo considerado “humilhante”.

Se os trágicos acontecimentos (8 mortos nos confrontos com a polícia, além de centenas de feridos) não se inscreveram na história oficial, o mesmo não se pode dizer da memória colectiva – portuguesa e chinesa –, que, embora silente, guardará, certamente, a agitação, as humilhações, as exigências, o fanatismo, a paranoia, todos os excessos que se cometerem em nome de ideologias e, sobretudo, do patriotismo.

Mas percebe-se que tenha de se puxar pela memória. Até ao final dos anos 1990, o “1, 2, 3” (referência à data: Dezembro, dia 3) foi tema proibido em Macau. Sobretudo, entre os portugueses. Foram eles, afinal, os grandes derrotados desta história. Como não a podiam escrever, trataram de fazer com que ela nem sequer tivesse existido. Foi assim durante o Estado Novo e teve que chegar a Revolução de 25 de Abril de 1974 para que a imprensa portuguesa, lá na ex-Metrópole, pudesse abordar o que se passara quase uma década antes.

Com os ares da liberdade, impunha-se uma pergunta e uma explicação. “Por que não fomos expulsos de Macau”, lia-se, portanto, no título que encimava a capa da edição de 18 de Maio de 1974 da revista “O Século Ilustrado”. Lá dentro, o esclarecimento com a reprodução do bombástico documento que pusera um ponto final aos “graves acontecimentos vividos em Macau, com o “reconhecimento e a confissão de violências por parte do Governo [que] terá evitado a expulsão e o massacre dos portugueses”.

Compreendia-se o sensacionalismo; o momento que se vivia em Portugal não era para menos. “Nesta fase de total libertação do clima repressivo que acaba de ser abolido”, começava o texto, “muitas pessoas pertencentes a uma sociedade em que os seus componentes estavam divididos procuram finalmente encontrar-se e unir-se de acordo com os princípios elementares da expressão que possibilitem o diálogo franco e livre”.

A palavra era dada a Danilo Barreiros, “advogado em Lisboa, especialista em assuntos orientais”. Fora Barreiros, que tinha vivido em Macau desde os anos 1930, e onde estudou a cultura chinesa e macaense, quem revelara à revista “documentos de interesse inefável e desconhecidos da esmagadora maioria dos portugueses”.

Tratava-se do comunicado do Governo de Macau, de 29 de Janeiro de 1967, assinado por Nobre de Carvalho, em que este assumia “a inteira responsabilidade do incidente sangrento de 15 de Novembro [a repressão policial de obras não autorizadas numa escola da Taipa], e dos trágicos acontecimentos de 3 de Dezembro, quando professores e alunos chineses se dirigiram ao Palácio do Governo para apresentarem o seu protesto, [e] o Governo de Macau novamente destacou polícias para os reprimir e, em seguida, impôs a lei marcial, reforçou tropas e polícias armados e, em virtude destes terem recebido ordens para disparar tiros, resultaram mortos e feridos entre habitantes chineses”. Começava-se a história pelo fim; era preciso esclarecer o contexto.

Segundo Danilo Barreiros, “os chineses de Macau, salvo uma pequena minoria de portugueses, eram tratados com muita brutalidade pelas autoridades oficiais”. Esta submissão tinha os dias contados, no entanto.

A invasão japonesa na II Guerra Mundial, marcada pela “extrema crueldade”, vai revelar “aos chineses e a todos os povos asiáticos que os dominadores europeus não passavam, na verdade, de ‘tigres de papel’”. Assim, “após a guerra e o colapso do Governo [nacionalista] de Chiang Kai Shek, a população chinesa de Macau começou a ter consciência da sua força. Pouco a pouco as organizações comunistas de Macau passaram a dominar em todos os sectores, verificando-se, dada a política do nosso Governo, uma inteira liberdade para ambas as facções, nacionalistas (Formosa) e comunista (Pequim), em cujas actividades as nossas autoridades participavam igualmente de um lado e de outro”. Até este equilíbrio se tornar impossível.
Com os acontecimentos do final de 1966, mais o pedido de desculpas de Janeiro do ano seguinte, “o prestígio da autoridade dos portugueses, em Macau”, explica Barreiros, “saiu completamente destruído, pois que nos vimos forçados a declarar publicamente os nossos ‘crimes’ e a entregar, aos comunistas, dirigentes das associações nacionalistas, chineses que em Macau se haviam albergado, e considerar nula uma sentença do juiz da comarca, e tudo o mais que se lê no documento que publicamos na íntegra”.

Toda esta turbulência, contudo, passara despercebida à generalidade dos portugueses, que não faziam ideia de que Macau estivera sob a ameaça de uma invasão e anexação pela China, ao mesmo tempo que, de Lisboa, Salazar dava ordens para resistir até ao supremo sacrifício.

“Enquanto os meios de informação estrangeiros revelavam ao mundo o que se passava em Macau, a nossa informação conservava o maior mutismo”, notava Barreiros. Aos que, na Metrópole, procuravam saber acerca dos parentes no Oriente, o Ministério do Ultramar, “com a maior desfaçatez”, informava “de que tudo estava normal, de que nada acontecera”. E um dos dirigentes da Casa de Macau em Lisboa, denunciava também Barreiros, “ousou afirmar, há pouco tempo, que a situação em Macau era de molde a encher de júbilo todos os portugueses”.

Na realidade, porém, “tudo o que ficou narrado só nos pode produzir tristeza, até porque, apesar de não ser verdade o que se lê nos compêndios escolares, que Macau foi oferecido aos portugueses, o certo é que nos foi prometido ali permanecer desde há cerca de quatro séculos e que conseguimos, vencendo muitas vicissitudes, ali viver em paz com o povo chinês”. O que até era reconhecido pelo próprio Mao Zedong, sublinhava Barreiros.

O advogado confessava: “não é com satisfação que revelo ao público o que se passou em Macau”. Todavia, outros sentimentos se levantavam. “Entendo que o povo português tem o direito de conhecer a verdade e que não pode continuar a ser iludido com inexactas informações sobre o que se tem verificado naquele território”.

A história até podia chegar tarde, mas não o tempo, que ninguém – nenhum líder nem nenhum regime – podia atrasar, adiantar ou, simplesmente, apagar.

 

Hugo Pinto

Jornalista