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      Macau em estado de sítio (parte I)

       

      Em 1949, um escritor que se tornara eminente nos domínios surrealistas e da literatura fantástica, fazia o balanço do desvairado século (ainda só a meio) que vivia: “as estatísticas (e é indispensável acreditar nas estatísticas) afirmam que nunca houve tantos loucos como na nossa época. (…). Mas como poderemos nós surpreendermo-nos com a multiplicidade de casos de alienação, num mundo onde nada é estável? Quando as capitais mudam de nome, quando as monarquias se tornam repúblicas, os chefes de Estado acabam os seus dias no cárcere e os criados de hotel ascendem a chefes de Estado, de que havemos de nos espantar, ao ver as almas soçobrarem num mundo onde tudo soçobra?”

      Maurice Sandoz sabia do que falava. Também a vida do próprio autor não resistiria à alienação geral. Sandoz, escritor e herdeiro da farmacêutica com o apelido da família, acabaria por se suicidar aos 66 anos numa clínica psiquiátrica, deixando para trás uma vida cheia e improvável como o século que descrevia no início de um livro a que chamou “O Limite”.

      Macau, que começara o século XX no mesmo torpor decadente com que findara o anterior, não escaparia, também, às correntes impetuosas que agitavam e faziam o mundo mexer, como se a loucura tivesse tomado conta do condutor. Era como tinham profetizado Marx e Engels: “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”.

      Na China, à semelhança de em Portugal, a monarquia dá lugar à república. O mundo não seria mais o mesmo, mas ainda se estava longe de imaginar as formas que essa mudança implicaria.

      Uma das alterações mais profundas prendeu-se com uma nova visão do mundo, uma moderna consciência; havia novas relações de poder, que se traduziam na insubmissão e revolta, um sentimento de injustiça e de vingança. No Império do Meio, a aversão aos estrangeiros era antiga, mas juntava-se-lhe, agora, a luta de classes. Tudo isso vai acender-se ao rubro e Macau vai senti-lo, sobretudo, a partir de 1920. Dali a dois anos, o território vai atravessar uma fase de conflitos sociais de uma feição que até então ainda não experimentara: uma revolta popular contra a autoridade, contra a presença de estrangeiros e do seu governo, até contra o jogo e a sua decadência moral.

      As grandes greves de 1922, com as suas paralisações e protestos, que se prolongaram por meses, levaram à imposição da lei marcial e a confrontos que fizeram mais de 30 mortos (durante a Revolução Cultural em Macau, o “1, 2, 3”, por exemplo, perderam a vida oito pessoas).

      Estas páginas da história de Macau – de que agora passam 100 anos – levam-nos a pensar nos caminhos de que a história se desvia, mais do que naqueles que acaba por trilhar.

      Em 1922, o mundo parecia feito da volatilidade que encontramos hoje. É essa percepção que leva o deputado Ginestal Machado a pedir a presença do então ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, na Câmara dos Deputados, no dia 31 de Maio de 1922, para esclarecer “notícias várias acerca de acontecimentos anormais passados na nossa colónia do Extremo Oriente” que tinham surgido nos últimos dias. Porque, insistia Machado, “acontecimentos desta ordem em todos os tempos têm particular importância; nos de hoje, dada a instabilidade geral do mundo, a sua importância é muito maior”.

      O ministro recebera naquele último dia de Maio informações “mais detalhadas” do que se passara em Macau. Rodrigues Gaspar, que aludia a um telegrama do governador de Macau, Henrique Monteiro Correia da Silva, começava por sublinhar que se tratava “duma questão de ordem pública, duma questão puramente interna na nossa província de Macau”. Respondia-se assim a um anseio manifestado na questão do deputado Ginestal Machado, que afirmara esperar que as tais ocorrências não tivessem “gravidade transcendente” e se reduzissem “a acontecimentos locais, apenas de ordem pública”. Assim era, garantia o ministro, aparentemente sobretudo interessado em evitar alarmes.

      O caso era de polícia. “Foi preso um chinês por maltratar um soldado indígena no dia 29, às 7 horas da tarde”, e logo “uma grande multidão dirigida pela associação de operários, e que tem um espírito comunista, foi à frente da esquadra de polícia onde estava preso o chinês, exigindo a soltura imediata do preso”.

      O comissário da esquadra tudo terá feito para dispersar a multidão, mas esta “engrossava e usava das palavras mais insultuosas para a polícia”. Antecipando que “a multidão se preparava para atacar a esquadra, pediu que comparecesse um pelotão de infantaria”. Ao marchar para a esquadra, os soldados iam sendo recebidos com pedras e insultos ao longo do trajecto. Além de uns tiros para o ar, disparados para “intimidar os arruaceiros”, “houve a maior prudência, não só do comissário de polícia como do comandante da força”.

      A situação entrou pela noite dentro. “De madrugada, pareciam mais serenados os ânimos, mas vieram exigir a entrega do preso, sob a responsabilidade da associação”.

      O assunto seria “resolvido superiormente, para evitar o derramamento de sangue”. Determinou-se “que se entregasse o preso, desde que se apresentasse fiador e a respectiva fiança”.

      As coisas pareciam bem encaminhadas, mas “sucedeu que de manhã, quando ia a entrar as mercadorias, encontrou-se a povoação perante uma greve geral, impedindo que viessem mantimentos para as forças, como para todas as casas”. (continua)