Em 1932, já havia clichés sobre Macau. Até há mais tempo, na verdade, mas, então, tinham-se tornado tão populares que davam a volta ao mundo. Leia-se a revista da National Geographic Society de Janeiro desse ano. Trazia um artigo que parecia inspirado no segundo guia turístico publicado, poucos anos antes, no território, “A Visitor’s Handbook to Romantic Macao” (1927), no qual prevalecia a concepção de uma cidade orgulhosamente anacrónica, espécie de ilha no tempo, oásis sentimental da História onde o passado triunfara. Ideias que viajantes da segunda metade do século XIX já iam deixando escritas, memórias de uma cidade romântica – “cidade de Ontem”, nas palavras da britânica Sally Benson –, sobretudo, quando olhavam para as sombras líricas de Macau à luz do clarão vanguardista e industrioso de Hong Kong.
Nessa mesma toada surge “Macau, Land of Sweet Sadness”, artigo de Edgar Allen Forbes, republicado da revista com sede em Washington e traduzido em português, no ano seguinte, com o título “Macau, Terra da Doce Saudade”, no Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, agremiação que nascera para proporcionar “aos portugueses do Brasil maneira e forma de se inteirarem do que, como raça colonizadora, temos feito e estamos fazendo”.
Igualmente típica da época quando o assunto versava terras “longínquas” era a visão ocidental de ângulo curto, toldada pela arrogância e pela ignorância. “Com o devido respeito à dignidade do grande porto de Hong Kong e à atmosfera rarefeita do pico da Vitória”, escrevia Allen Forbes, logo a abrir, “devo declarar francamente que a China Meridional não é um local propício aos poetas. Seis meses do ano, o ar que se respira semelha-se ao de uma lavandaria e é tal a humidade que dá a impressão que, se fecharmos a mão, esprememos água. De noite o calçado cobre-se de um bolor luxuriante. Acorda-se com a estranha sensação de que os pulmões se transformaram em fatias de queijo Roquefort. Ora, com tais condições atmosféricas, pessoas de temperamento artístico não podem desenvolver a poesia, a canção. Nem podemos pretender que os distritos vizinhos de Cantão e de Si Kiang produzam emoções tão fortes que possam ser expressas em sonetos, odes e líricas”.
Pobres dos poetas que, havia séculos, continuaram no sul da China a tradição que, durante a dinastia Tang, originara a época áurea da poesia do país; coitados dos mandarins que compilaram a “Breve Monografia de Macau” e nela registaram em belos poemas as informações que recolhiam sobre uma exígua península ocupada pelos “bárbaros”. Terão sido avisados de que não havia condições para tais devaneios?
Na opinião do escritor da National Geographic, naquelas bandas, qual milagre, poesia só mesmo na “pequena colina arborizada, onde um homem de alma inextinguível respondeu nobremente ao apelo dos Deuses, criando uma epopeia imortal”. Mesmo três séculos e meio depois daquela comunicação divina, “o Olimpo ainda se inclina para o memorável jardim e muitos poetas, de muitas terras, têm o hábito de ir ali colher a inspiração dos seus êxtases e espargir tristezas nos seus versos e elegias”. Para que não houvesse mal-entendidos, “o lugar é Macau; o virgiliano cantor Luís de Camões”.
Era prosa que, naturalmente, deleitava a revista do Rio de Janeiro que dava prelo à tradução do artigo. Afinal, naqueles alvores da propaganda colonial lusa, estavam os americanos a lembrar a humanidade de que “os portugueses foram uma raça de ousados navegadores, na grande era dourada das descobertas”.
Tanto desbravar de mundos e empreender de empórios carecia de um rincão onde os pioneiros pudessem recolher-se em sossego. Assim fora. Aquela que era “a mais antiga colónia europeia do Oriente longínquo” tinha sido, “por muito tempo, o único porto de refúgio para acalmar a tristeza e nostalgia dos marinheiros navegando no mar da China”. Como dissera um diplomata americano que Forbes cita, Macau era “um arco-íris encalhado no Oriente”, imagem sugerida pelo casario em tons azul, rosa, amarelo, a lembrar uma “alegre e risonha praia do Mediterrâneo”.
Seria a mesma doçura que atraíra numerosos milionários chineses que escolhiam Macau para terminar os seus dias. Como Ah Fong, o magnata do açúcar que fizera a imensa fortuna no Havai, terra que acabaria por trocar por um “local mais sedutor”. Era dele uma das mansões da Praia Grande, “sumptuosa avenida”, onde, “tal a beleza que se desprende, nos podemos tornar românticos mesmo sem o querermos”.
Numa China já alvoraçada pelo espectro que ameaçava ordens há muito estabelecidas, Macau resguardava-se na placidez secular. Nesse mesmo ano de 1932, o orientalista e oficial da Marinha Jaime do Inso salientava essa visão de uma cidade ímpar, cuja vocação pacífica espelhava a missão de um povo. “É por isso”, apontava, “que, através de tantas vicissitudes como a história de Macau nos apresenta, assistimos, nos últimos anos, ao ressurgir daquela pequena colónia que, por entre o braseiro candente da China em revolução, tem sido das raríssimas localidades onde o perigo e todos os efeitos trágicos das revoltas se não têm feito sentir”.
Afirmava-se como imperioso fazer ver o que se embirrava desconhecer, especialmente entre os anglo-americanos. “O que eles teimam em ignorar”, criticava Jaime do Inso, “é que, depois de quase quatro séculos de trato e comércio connosco e, depois, com outros europeus, os portugueses foram, de todos os estrangeiros, aqueles que mais e melhor souberam aproximar-se dos chineses, sem os agravar nas suas crenças e modos de ser, tão opostos à nossa feição ocidental. E tanto isto é assim, que uma vez, um conhecido chefe extremista de Cantão declarou, em Macau, que os estrangeiros sairiam todos da China, sim, ‘mas os portugueses seriam os últimos’”.
Na verdade, este desfecho, mesmo para quem estava de fora, tornara-se mais do que provável, havia já algum tempo. E não era lisonja. O mesmo vaticínio do “conhecido chefe extremista” alvitrara, em 1849, um americano, Osmond Tiffany, autor do livro “The Canton Chinese: Or, the American’s Sojourn in the Celestial Empire”.
A propósito de um conflito que mudou o curso da história (e do qual, como insistem em lembrar-nos, ainda se sentem, hoje, as consequências), escreve O. Tiffany: “É inútil dizer a um inglês que a guerra chinesa nasceu da questão do ópio, mas essa foi sem dúvida a principal causa da guerra. Havia muitas queixas, os chineses eram exigentes, invejosos e caprichosos até ao último grau; a sua política estava a tornar-se cada vez mais restrita; cada ano desenhavam um cordão à volta do pescoço do estrangeiro, que ameaçava estrangulá-lo por completo. Estavam, sem dúvida, ansiosos de voltar aos velhos tempos, de prescindir do comércio externo, e de fechar firmemente a porta da frente do seu país. Se tivessem prosseguido com os seus projectos, não acredito que hoje em dia houvesse um europeu na China, excepto, talvez, alguns portugueses mendigos em Macau”.
A ilha do tempo abrigava-se dos ventos fortes da história, que por lá não pareciam passar. Ou assim havia quem pensava e esperava. Neste descanso eterno, contudo, a impassibilidade facilmente se confunde com a indiferença, da mesma maneira que a memória se esvai em esquecimento, e, por mal dos pecados, a virtude degenera no vício.
Hugo Pinto
Jornalista










