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      A questão chinesa

      Um novo livro da historiadora chinesa Mae Ngai percorre documentação de diferentes épocas, com particular incidência no século XIX e na fase da “corrida ao ouro”, para analisar e discutir as origens do racismo perante os emigrantes chineses, hoje exacerbado por novos discursos xenófobos.

      Desde o início da pandemia, há mais de um ano, os Estados Unidos têm visto crescer um surto de ataques violentos contra cidadãos de origem chinesa. Foram relatados milhares de casos de pessoas vistas como sendo chinesas aos olhos dos atacantes que foram insultadas, esbofeteadas ou até incendiadas, literalmente. Ao coro anti-China juntou-se o Presidente dos EUA, Joe Biden, que afirmou que «os Estados Unidos precisam de ser duros com a China» e, mais recentemente, quando o governo norte-americano terminou a sua guerra de 20 anos no Afeganistão, descreveu a mudança como necessária para permitir que os EUA fossem mais competitivos com a China.

      Apesar da dimensão dos episódios recentes, a história do sentimento anti-Chinês nos Estados Unidos começa muito antes das observações racistas do ex-Presidente Trump sobre o “vírus da China”. No seu último livro, The Chinese Question: The Gold Rushes and Global Politics, a historiadora Mae Ngai examina as origens históricas do racismo e a sua reprodução como uma estratégia de interesses políticos. Publicado por W. W. Norton & Company em Agosto deste ano, o livro traz os leitores de volta ao período da corrida ao ouro na América e às colónias britânicas da Austrália e África do Sul.

      Entre 1848 e 1899, num período que hoje parece lendário, mais ouro foi retirado da terra do que tinha sido extraído nos 3.000 anos anteriores, proporcionando uma riqueza incomensurável a indivíduos e nações. A corrida ao ouro também deu origem ao primeiro contacto em massa entre chineses e euro-americanos e, com o tempo, o atrito e a competição entre chineses e colonos brancos nas jazidas de ouro catalisaram uma batalha global sobre “a Questão Chinesa”: os chineses eram uma ameaça racial para os países anglo-americanos, devendo ser impedidos de aí chegar?

      A partir da constatação de que a história da imigração chinesa, da política de exclusão e do desenvolvimento económico da China se referem à corrida ao ouro de modo muito superficial, Ngai analisa todas estas questões num quadro histórico mais amplo, detendo-se no papel que o racismo dos colonos anglo-americanos assumiu no desenvolvimento do capitalismo global. «Tal enquadramento não só nos permite estabelecer novas ligações entre os campos de erudição existentes como considerar a forma como a corrida ao ouro expandiu o mundo e aproximou as suas partes», escreve Ngai.

      Com base em mais de dez anos de investigação nos cinco continentes, Ngai narra magistralmente a experiência chinesa na corrida ao ouro. Milhares de chineses deixaram a sua terra natal em busca do precioso metal, trabalhando nas jazidas lado a lado com caçadores de ouro de todo o mundo – do leste e sul dos Estados Unidos, Ilhas Britânicas, Europa Continental, México, Chile, Hawai, e Austrália. Ngai desmantela a crença, popular no Ocidente, de que a população chinesa na América era composta por  “coolies” como os que trabalhavam nas plantações das Caraíbas ou das cidades portuárias asiáticas, um estereótipo racista utilizado para fomentar o sentimento anti-chinês. A sua argumentação esclarece que essas pessoas «eram agricultores, trabalhadores rurais, artesãos, mecânicos e comerciantes que, em muitos aspectos, eram exactamente iguais a outras pessoas de todo o mundo que vinham em busca de ouro».

       

      A história de Yuan Sheng

      No seu livro, Ngai mostra como era a vida destes emigrantes chineses, voluntários e prospectores independentes, através de uma intensa pesquisa histórica apresentada com argumentos sólidos. Tomemos como exemplo a história de Yuan Sheng, um dos primeiros chineses a ir para São Francisco. Yuan Sheng nasceu em Sanzao, uma das pequenas ilhas ao largo da costa, perto de Macau. Frequentou uma escola missionária em Macau, viajou para a América em 1820 e tornou-se cristão e um cidadão naturalizado americano. Mais tarde, abriu um restaurante em San Francisco, na Commercial Street, chamado Wosung de Macau, e uma empresa comercial com o seu próprio nome, Yuan Sheng Hao, dois pilares do comércio que alimentavam e abasteciam as comunidades chinesas na diáspora.

      Ngai menciona a fascinante escolha do nome de Yuan Sheng para explicar a mentalidade dos emigrantes chineses: «Yuan Sheng passou a chamar-se Norman. A escolha deste nome é intrigante. O seu apelido é um homófono da Dinastia Yuan (1271-1368), que foi fundada por Kublai Khan, o filho de Genghis Khan. Ele poderia ter escolhido Norman a partir do povo europeu medieval, contemporâneo do nome Yuan. Os normandos e os mongóis foram formidáveis forças conquistadoras do seu tempo. Sheng, o seu nome próprio, significa “nascimento”; Assing é uma representação de “Ah-Sing”, a forma comum do seu nome em cantonês. Yuan Sheng significa “nascido do Yuan”; Norman Assing sugere “nascido dos normandos”. A sua escolha foi um ponto de orgulho inteligente, mesmo que tenha permanecido opaco para os americanos seus conhecidos».

      Yuan Sheng também foi uma figura central entre os emigrantes chineses, pela sua posição como membro fundador e primeiro presidente da Associação Yeong Wo (Yanghe Huiguan), formada em 1852 (os huiguan eram versões chinesas das organizações de apoio mútuo que praticamente todos os grupos de emigrantes formaram com base numa origem regional comum). Yuan esteve frequentemente em tribunal quando os chineses enfrentaram acusações criminais, agindo umas vezes como intérprete, outras como advogado de defesa. Quando o governador da Califórnia, John Bigler, enfrentando uma forte corrida à reeleição, fez um discurso incendiário perante a legislatura estatal, alegando que os chineses, uma raça de pagãos e escravos, estavam a invadir o Estado e a ameaçar a sua sociedade de produtores livres, Yuan Sheng pronunciou-se e usou o seu próprio caso como cidadão naturalizado para refutar a alegação de Bigler de que nenhum chinês tinha alguma vez feito dos Estados Unidos da América o seu domicílio ou solicitado a naturalização. Numa carta aberta a Bigler, desafiou os seus argumentos de que “ao excluir população deste Estado, podemos aumenta a sua riqueza”, defendendo que a população era sinónimo de riqueza, particularmente quando se tratava de uma população de produtores.

      Relatos históricos tão vívidos como o de Yuan Sheng abundam neste livro, demonstrando o modo como a população chinesa lutou para sobreviver no meio de uma crescente hostilidade contra si no chamado Mundo Novo. Ngai examina o nascimento e a evolução da “questão chinesa” ao longo de décadas na América, Austrália e África do Sul e argumenta que a exclusão chinesa não era estranha à economia global emergente, mas parte integrante da mesma. A “Questão Chinesa” liga importantes temas da história e economia mundiais, desde a subjugação da Europa à China até à ascensão do padrão de ouro internacional e à invenção de estereótipos racistas e anti-chineses que persistem até aos dias de hoje. Através de uma escrita lúcida, elegante e emocionalmente cativante, os leitores embarcam numa viagem ao lado dos chineses que participaram na corrida ao outro, o que permite uma compreensão mais clara de como as questões raciais e financeiras, bem como várias outras questões de ordem social, persistem até aos dias de hoje. Tantas vezes, com reflexos dos mesmos gestos xenófobos que perseguiram os emigrantes do passado.

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