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      Início Opinião Macau pastoral

      Macau pastoral

      “Imagine uma jovem mulher, vestida em trajes tradicionais chineses de linho, enquanto apanha flores em um parque, as quais usará para transformar em blush facial. Imagine a mesma pessoa fazendo um sofá de bambu, preparando molho de soja e cozinhando todos os tipos de petiscos deliciosos da culinária chinesa. Pode soar estranho, mas tal pessoa existe na vida real, e o seu nome é Li Ziqi”. Acredite. Pode soar estranho, de facto, mas é o Diário do Povo – português macarrónico e tudo – que conta a história.

      Estávamos no final de 2019. Não se vislumbrava qualquer pandemia no horizonte e Li ainda não era a “vlogger” chinesa mais conhecida do universo – os seus seguidores nas redes sociais do país ficavam pouco acima dos 20 milhões.

      Não demoraria, no entanto, a que os seus vídeos filmados nas zonas rurais da província de Sichuan, retratando de modo idílico a vida e os ofícios tradicionais chineses – da culinária, confecção de papel e tinta à construção de fornos, passando pela tecelagem e agricultura –, viessem a ter uma audiência que ultrapassa os 100 milhões de fiéis espectadores em todo o mundo. No New York Times houve até quem a apelidasse de “rainha da quarentena”. Não é difícil perceber porquê.

      Li Ziqi veio mostrar, ao jeito do nosso tempo – de forma “viral”, com vídeos em que nada é deixado ao acaso e tudo é alvo de minuciosa produção –, como precisamos de escape nas nossas vidas urbanas e quão desligados estamos desse bucolismo, que nos encanta como um conto de fadas.

      Em Macau, onde tão evidente quanto essa distância é o desejo pela natureza, somos presas fáceis dessa sedução. À falta de melhor, há que agradecer os produtos “bio” e “orgânicos” que vão surgindo, e as “hortas urbanas”.

      O fenómeno não é exclusivo de Macau, mas poucos territórios como este haverá onde a agricultura, nunca tendo sido uma actividade propriamente preponderante em termos económicos, é hoje apenas uma memória. Não tão remota quanto a ubíqua malha urbana pode levar a supor.

      “Nos anos 1970, toda a zona de Iao Hon, da avenida Istmo Ferreira do Amaral até à Ilha Verde, eram hortas sem fim, sem falar na Taipa e em Coloane, onde se encontravam os campos de arroz”, recorda, num interessante artigo publicado neste jornal, em 2014, Kong Hio U, presidente da Associação de Agricultores de Macau (sim, ainda existe).

      Em Macau, onde as transformações do seu reduzido espaço tendem a apagar ou a deixar sem sentido os vestígios de épocas passadas, as memórias da agricultura são as memórias dos agricultores. Dos antigos agricultores, cujas histórias só muito a custo – com mais do que engenhosa produção – poderiam habitar o universo pastoral “instagramável” de Li Ziqi.

      Agricultores como Chiang Oi Wan (tinha 87 nos quando foi entrevistada pelo PONTO FINAL, em 2014), que cessou o trabalho no campo na década de 1990, altura em que “a Administração de então [lhe] retirou a terra, que daria lugar à construção de mais prédios”. Mas Chiang não se queixava. A vida agrícola, dizia, era “dura”, sendo “quase impossível assegurar a sobrevivência da família”. Passava-se fome.

      Mas foi precisamente para combater essa carência de alimentos e a miséria, que nasceu, em 1952, a Associação de Agricultores. “Com o recém-estabelecimento da República Popular da China, o Governo de Macau teve alguns conflitos com o Governo Central nesse ano”, contou Kong ao jornal, referindo-se aos incidentes na fronteira que envolveram uma troca de tiros entre soldados do Exército de Libertação Popular e militares portugueses. Uma das consequências foi o encerramento das Portas do Cerco e o corte do abastecimento de bens essenciais. “O Governo de Macau”, segundo o presidente da Associação de Agricultores, “começou a mobilizar a população para que cultivasse a sua própria terra. Foi assim que cresceu o número de agricultores em Macau”.

      Tal como o confinado presente de Macau não deixa esquecer, a cidade nunca foi um território auto-suficiente, dependendo sempre dos produtos e vendedores que diariamente atravessavam a fronteira.

      Numa cidade muralhada, aprendeu-se a olhar de soslaio para o que crescia extramuros. Os campos não eram excepção. Para as autoridades, as hortas e as várzeas não passavam de “depósito e laboratório natural das dejecções da cidade”, como descrevia, em 1895, José Gomes da Silva, então director dos Serviços de Saúde. No seu relatório sobre a peste bubónica na cidade, as zonas naturais são identificadas como ameaças à higiene e saúde públicas. A receita defendida era simples: arrasar e aterrar.

      Assim se fez (e já se fazia, nem sempre com grandes resultados – o governador Ferreira do Amaral que o diga), e assim se foi conquistando mais cidade aos campos, desse modo também alargando a urbanização e a influência portuguesa.

      Só na segunda metade dos anos 1950 é que se começa a traçar planos sistemáticos, baseados em estudos, para o fomento agropecuário de Macau, com incidência nas ilhas da Taipa e de Coloane. Até isso acontecer, contudo, havia que contar com as hortas da península, cerca de 68 hectares, mais do que havia, somado, nas ilhas, onde faltavam recursos hídricos. Estas hortas eram consideradas fundamentais para garantir a quantidade necessária de verduras consumidas no território, na avaliação de Hélder Lains e Silva, agrónomo-chefe da Missão de Estudos Agronómicos do Ultramar (1960-1965), autor das “Coordenadas do Fomento Agrário e Pecuário e do Revegetacionamento da Província de Macau” (1962).

      Como os planos para o aeroporto já se tinham gorado – depois do alargamento do de Hong Kong acreditava-se que bastaria a Macau ter uma pista para aviões pequenos ou mesmo helicópteros –, e não se previa “em anos próximos, expansão industrial tão grande que haja de sacrificar-se-lhe os terrenos das hortas da Areia Preta”, só havia um “argumento válido” contra os campos da península: “serem elas antros de imundícies, viveiros de mosquitos e de moscas, que é necessário exterminar em defesa da saúde e do bem-estar da população urbana”.

      Só que o extermínio, deixava Lains e Silva bem entendido, não devia ser o das hortas, mas sim dos males que “lhes estão associados”. Havia, pois, que preservá-las: “já pela natureza das terras, constituídas de vasas marítimas, já pela abundância de adubos orgânicos, que os hortelãos cuidadosamente preparam, já pela facilidade em armazenar alguma água das chuvas e de poços, já ainda pela proximidade do mercado consumidor, os terrenos das hortas de Macau oferecem condições muito mais favoráveis à horticultura do que os regadios da Taipa e de Coloane”, defendia.

      No seu plano, Lains e Silva não se limitava a defender a salvaguarda destas hortas; era preciso, também, alargá-las. Para tal, concebia uma horticultura intensiva em cerca de 120 hectares, com a maioria (70) na península, e o restante repartido entre a Taipa (10) e Coloane (40).

      Não se previam, todavia, as mudanças que o futuro guardava. Numa cidade onde a agricultura era assegurada por refugiados chineses, com a progressiva acalmia nas relações entre os dois lados da fronteira, também o lavradio se juntaria aos sectores que não resistiam à rápida transformação.

      Sobretudo devido ao avanço da construção civil, à entrada dos anos 1980, em Macau, restavam já só umas duzentas pessoas que se dedicavam ao campo. Hoje, talvez nem outros tantos se lembrem, ainda, de como era mesmo essa vida. Os vídeos de Li Ziqi talvez refresquem a memória.

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