1,
Olhando para o horizonte
não vi ninguém, nem um grão de areia
só o deserto
2,
O deserto não é um fracasso
mas sim um livro aberto, cheio de ossos
sem ponto final
3,
Só o homem é o destino do homem
mas para atingi-lo
deve passar por um Deus
para ser iluminado
4,
Nos meus olhos dos sessenta anos
ainda cabe a vastidão infinita
Por isso regozijo-me
embora amanhã tenha de regressar
para a cama pendurada no 43º andar
5,
O sol entrou nas sultanas
abrindo os seus lábios doces
Também abri os lábios, já secos
para pedir água
ao velhote que vende sultanas
6,
Nenhuma pedra é igual a outra
o deserto não faz cópia
7,
Quem sou eu?
eis a minha dúvida à presença de Deus
O silêncio
deu-me uma resposta infinita e única
Por entre as pedras das pedras
apanhei uma delas
8,
Nunca se vê uma ovelha a pastar
mas todos os dias: uma tigela de pãezinhos com carne de borrego
como pequeno almoço
No menu um borrego inteiro assado: 1473 yuans
você diz: caro, preço para turistas
9,
O Buda do Futuro diz:
no mundo do prazer celestial
todos podem viver até 8000 anos
Lembrei-me de repente
que hoje me esqueci de tomar o medicamento
10,
O Buda deita-se repetidamente
não para descansar
mas sim para ver bem
se o homem ainda está ao seu lado
11.
Não há água
então beba lágrimas que não devem cair em vão
Aqui, a vida é pouca
mas não falta razão para chorar
12,
Há tanta luz por todo o lado
não me posso esconder nas minhas sombras
Se não anoitecer
o sol é um tirano
13,
Está a contar-me um segredo
o deserto abriu o ouvido
em cada grão de areia
14,
Olhando para baixo a partir do avião
as montanhas ainda estão a correr
como jovens
cobertos de uma camada fresca de neve
15,
Nas profundezas do deserto
sinto-me preso em grilhões mais largos do mundo
O guarda da prisão não tem nada
senão um rosto infinito
16,
Aqui não há sepultura
Apenas nós
lápides de nós que ainda estão a caminhar
17,
O deserto é inútil?
Na cidade onde vivo
o preço da areia para a construção civil voltou a subir











