O amor de Fernando Pessoa

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Tem a capacidade de transformar o mundo

e transformou-o na Rua dos Douradores

por onde vai e vem todos os dias, seja ao sol seja à chuva

sem dar nenhum pulo a nenhuma parte do mundo.

 

Não caminha sozinho, sempre acompanhado de um, dois ou três…

outros do seu Eu próprio

que vivem consigo diversos e unidos.

 

Nunca pensa numa paixão qualquer

acabou por ficar apaixonado

tal como se num ramo nu e seco

a rebentarem de súbito folhas e botões.

 

Louco de amor, passeia com a Ofélia de mãos dadas

escrevendo, na palma dela, cartas de amor.

 

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas. 

 

Depois de dar o ponto final à última carta de amor

decidiu fugir ao amor

como um tigre do circo pretende escapar

ao anel de fogo.

 

Viu nas profundezas do olhar da Ofélia

o anseio do casamento

que é, afinal, um receio do amor.

 

O seu corpo do homem também aspira ao amor e prazer

mas prefere ser escravo

de um coração um pouco maior do que o universo inteiro.

 

Mais do que cheirar uma rosa real

prefere possuir uma do imaginário

mesmo que a Ofélia esteja a murchar no roseiral.