Leitores em construção

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NAS LIVRARIAS

 

1.
Olivier Tallec
À Espera dos Bárbaros
Nuvem de Letras
Tradução de Ana Rita Mendes
2.
Karim Ressouni-Demigneux e Karine Maincent
Fronteiras
Lilliput
Tradução de Ana Rita Mendes
3.
Joanna Concejo
M Como o Mar
Orfeu Negro
Tradução de Ana Maria Pereirinha
4.
Rosário Alçada Araújo e Patrícia Furtado
O sol, a chuva, o vento, a neve
Edições Asa

 


Avisos do céu

A estreia de Itamar Vieira Junior nos livros pensados para leitores mais novos faz-se em grande com este Chupim, nome de pássaro, e em diálogo com a artista visual Manuela Navas. Esse diálogo, aliás, merece ser ponto de partida para a leitura, uma vez que a narrativa que aqui se constrói é exemplar no que toca à constante dança entre palavras e imagens, cada linguagem erguendo-se com total autonomia, por um lado, mas por outro assegurando que a ligação umbilical entre ambas nunca se perde. 

Esta é a história de um menino e da sua tarefa de ajudar a família nos trabalhos do campo, afastando os pássaros que vêm comer os bagos de arroz que são o sustento de todos. Julim esbraceja, tal como lhe disseram para fazer, mas não consegue entender o motivo pelo qual não pode partilhar os bagos do arroz que os adultos da sua família cultivam com os chupins, que também hão-de ter fome. A narrativa verbal de Itamar Vieira Junior, carregada de lirismo e sempre em sintonia com o olhar infantil, e as imagens saturadas de cor, pigmento e textura de Manuela Navas, oscilando entre pequenos detalhes em grande plano e planos gerais que nos colocam no cenário, fazem deste Chupim uma história delicada sobre modos de olhar e entender o mundo. E também sobre a nossa insistência tão generalizada em manter o foco no que já decidimos que serve de resposta, sem atentarmos na possibilidade de deslindar outros caminhos e entendimentos do que nos rodeia. O pássaro que dá nome ao livro já havia surgido em Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior, e agora regressa, confirmando a interdependência de todos os seres vivos e a necessidade urgente de mudarmos o modo como existimos no mundo. Os bichos costumam avisar-nos quando as catástrofes se aproximam e este chupim não é excepção.

Chupim
Itamar Vieira Junior e Manuela Navas
Dom Quixote

 


 

Deve e Haver

Este livro teve uma vida anterior noutra chancela e com ilustrações de Catarina Fernandes. Agora, volta a chegar às livrarias com alguns retoques e, sobretudo, com uma nova sequência de imagens a responder aos poemas que João Pedro Mésseder compõe em torno dos números, das operações e do pensamento matemático. As ilustrações criadas por Ricardo Abreu convocam diferentes aspectos e ideias associadas à matemática, tirando partido da geometria, da partição da página ou da ampliação de certos elementos, mas sobretudo conversam com os versos de onde partem sem tentarem sobrepor-se-lhes e sem tentações explicativas. 

A matemática serve-nos para contar o mundo, agrupar as coisas de que gostamos e as que preferíamos evitar, saber quantas horas faltam para aquela ida à praia ou quantos dias já passaram desde que um amigo mudou de país e foi para longe de nós. Com este livro, percebemos que mais importante do que servir para alguma coisa, nesse sentido utilitário que tanta gente quer encontrar no conhecimento, a matemática é um modo de nos aproximarmos de uma compreensão do mundo, uma forma de o questionar e de lhe sacar algumas respostas, mesmo que acompanhadas de novas perguntas. Os versos que por aqui desfilam serão sobre a matemática, as infinitas possibilidades de brincar com os números, convocando as letras e a linguagem verbal em trocadilhos, elementos da tradição popular, símbolos. Na verdade, como sempre acontece no trabalho poético de Mésseder, os poemas são sobre nós e o mundo, sobre como existimos, duvidamos e às vezes tropeçamos. As operações matemáticas confirmam e explicam muitas coisas, mas as verdadeiras contas são sempre as do deve e do haver que vamos acumulando nos dias e no modo como os vivemos. Como dizem os versos de «Divisão», «Será só a democracia/ o querer da maioria?/ Também é saber e pão,/ divisão e alegria.»

 

Versos Quase Matemáticos
João Pedro Mésseder e Ricardo Abreu
Caminho