No próximo dia 29 de Janeiro terá início o Ano da Serpente que sucederá ao Dragão. Esta é a quadra mais importante na cultura chinesa, tempo de reunião familiar, como sucede com o nosso Natal, mas também correspondente ao início da Primavera, a um tempo de regeneração, de uma espécie de princípio do mundo. Como não poderia deixar de ser, são dias habitados por rituais, superstições. Embora não seja supersticiosa, sempre tive uma enorme curiosidade pelas tradições e superstições, por tudo o que elas representam como testemunhas vivenciais. Elas enraízam-se num tempo anterior ao chamado progresso científico, quando semeavam no espírito das pessoas a ilusão de se protegerem, de poderem controlar a sua vida, o seu futuro, agindo de determinada maneira. Aliás, segundo refere Michael Shermer, na obra intitulada Why People Believe Weird Things, os seres humanos são animais que procuram um padrão, sem se importarem, de vez em quando, se ele faz sentido ou não. Contudo, em momentos de grande incerteza, esse “pensamento mágico” pode aliviar tensões psicológicas.
E neste contexto, partilho duas imagens significativas que retive dos jantares de Ano Novo Chinês organizados pela Faculdade de Letras da Universidade de Macau: o leitão de olhos vermelhos psicadélicos a piscarem e a travessa com a galinha, ostentando a cabeça, de bico em riste, ou seja, a carne acompanhada pela cabeça do respectivo animal, para provar que não há engano. Todavia, se o olhar vermelho flamejante do leitão nunca me fez levantar da mesa, no caso da galinha, não poderei dizer o mesmo. A certa altura, uma colega a viver há muitos anos em Macau, contou que ter o bico de galinha a apontar para nós era mau presságio. Poderia significar, entre outras coisas, perder o emprego. O mais arrepiante foi quando, passados anos, começámos a reparar na direcção para onde os bicos das galinhas apontavam nas várias mesas para concluirmos que, no ano seguinte, pelos mais diversos motivos, alguns colegas que haviam sido o alvo dos bicos implacáveis, já não se encontravam na Universidade. Por isso, jantares houve em que a chegada da galinha provocava uma discreta saída da mesa, à qual se regressava, após a partida do perigoso bico.
Na verdade, mesmo que não se acreditasse, este era um comportamento irracional que adoptávamos, com a ilusão de que nos poderíamos estar a proteger de algo, de um mal, que nos poderia subitamente atingir como uma flecha. No fundo, seria esse o mesmo pensamento que há muitos séculos impelia o homem pré-histórico a desenhar nas cavernas os animais que desejava caçar.
Assim, por mais que o ser humano evolua, por mais que domine o império da razão, da tecnologia, da ciência, haverá sempre algo deste tempo remoto, anterior à luz do conhecimento a viver em nós, esse paradigma do passado que não se questiona e que integra a nossa essência como seres humanos. E nesta esteira, resta desejar que o Ano da Serpente traga paz e tranquilidade a todo o planeta e possamos mover-nos longe dos bicos de todas as galinhas aziagas.
Dora Gago








